gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 19/32

Vocês perdoem o meu esquecimento

Tacioli  Você falou que, com exceção das outras músicas, a da Rainha Elizabeth é uma das músicas invocadas. Há alguma palavra diferente…?
Riachão – Sim, porque ela é um samba-canção e não é uma música assim do va va va, como “Cada macaco no seu galho”, “Pitada de tabaco”. Então ela entra [canta] “Agora sim / Vou cantar / Minha alegria / Vou receber na Bahia / Bonita demonstração… / [silencia]”. “La ri la ra rá!” São coisas tão velhas que a gente esquece. [volta a cantar] “Agora sim vou contar minha alegria / Por assistir na Bahia / Bonita demonstração / De amizade e de fina educação / Deste povo hospitaleiro / E onde nasceu a nação / Da Inglaterra / Veio direto ao Brasil / Sei que você também viu / Em plena Avenida Sete / Foi aplaudida no Palácio da Aclamação / Foi a maior emoção / A Rainha Elizabeth / Da capitania seguiu (…) / [silencia novamente]”. “La ri la ra rá”. Como a gente esquece! Ô, meu Deus, agora é fogo, esqueço!
Tacioli  De quando é essa música, Riachão?
Riachão  É “Rainha Elizabeth”.
Tacioli  Sim, mas quando você a compôs?
Riachão  Quando ela veio ao Brasil.  [n.e. 1968]
Tacioli – Nos anos 60?
Riachão  É música aí dos 60, por aí assim, quando ela veio ao Brasil. Foi nessa data. É uma música muito bonita. Eu tive o prazer de ser convidado para a casa das grandes figuras da Bahia, nosso querido diretor… [silencia] O meu mal é esse, sou muito esquecido. Tem coisas muitas na minha vida, mas o esquecimento toma conta. E muitas coisas eu não posso passar para a imprensa diante o esquecimento. Muitas coisas da minha vida eu esqueço totalmente. Até mesmo as músicas eu esqueço. O que eu admirei realmente no meu simpático Vieira, que ele lembra até o meu grande amigo Batatinha, ele não esquece das coisas. Eu tive muita passagem no Rio de Janeiro, mas esqueço delas. Aqui em São Paulo, outras passagens. Mas esqueço. Você vê até as músicas. Hoje eu não sei quantas músicas perdidas eu tenho. Fui um homem que contei quinhentas músicas. Meu Deus, quinhentas músicas eu contei! Hoje eu não sei mais as músicas que eu tenho, porque todas foram embora. Como eu queria agora cantar pra vocês, com tanto prazer, mas eu esqueci a letra da “Rainha Elizabeth”. Foi um momento feliz quando ela esteve no Brasil, pela primeira vez, e logo na nossa terra, a Bahia. São momentos que eu passei na vida cantando para nossa gente, mas infelizmente eu quero que vocês me perdoem e que Jesus está vendo que é o esquecimento da idade já que a gente tem. [ri] Tão garoto… [ri] Mas acontece que têm uns que se lembram mais do que outros, como eu bem me lembro aqui do nosso querido Vieira e do Batatinha, que Deus já levou. Eu o admirava muito porque ele chegava, “O que aconteceu, Riachão?” Eu digo: “Ô, meu Deus!” Aí Batatinha tomava a palavra e dizia: “Não, foi assim, assim, assado, aqui no Rio de Janeiro”. Isso é uma grandeza pra os meus amigos que são bem “lembristas” das coisas, são “memoristas”, e eu infelizmente esqueço. Não sei porque ainda me lembro de cantar algumas músicas. [ri]

Tags
Antônio Vieira
Riachão
de 32