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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 15/32

No Maranhão há muita gente loura

Dafne  Todo mundo sabe, agora nem tanto, mas sempre foi difícil viver exclusivamente de música no Brasil. Na época do senhor era ainda mais. Então pra sobreviver…
Vieira  É, você tinha de aprender muita coisa.
Dafne  Eu queria que o senhor contasse um pouquinho das atividades profissionais que mais te marcaram.
Vieira  Eu vou relatar. Com 16 anos tive meu primeiro emprego, empregado de comércio, no Maranhão. No tempo em que o Maranhão não tinha o porto de Itaqui. Era o porto na cidade de São Luís. Então lá é que saltavam, não existia estação rodoviária. Havia simplesmente a ferroviária São Luís-Teresina. Então toda a produção do estado vinha para o porto de São Luís, que era na cidade de São Luís, que hoje já não existe mais porque foi aterrado, depois que aumentaram a beira-mar da cidade. Ia se criar o porto de Itaqui, que é noutra parte da ilha. Fui empregado de comércio lá, onde trabalhei por uns anos. Quando eu me formei, aí eu fui para o comércio no centro da cidade, porque tinha a capacidade de trabalhar no escritório. Fui balconista, mas com três ou quatro meses, um rapaz que trabalhava na Contabilidade se afastou. Aí eu tive que passar a ser auxiliar de contabilidade, porque eu já era formado em Ciências Contábeis. Dentro de pouco tempo eu fui gerente dessa firma. Essa firma, que era da família dos Max, nem existe mais. Naquele tempo no Maranhão, as famílias abastadas pegavam os filhos e mandavam pra Europa. Quem era mais pobre ia para Portugal, e quem podia ia pra França. De forma que havia muita gente formada na França. Falava o francês. Você sabe que na civilização do Maranhão nós tivemos holandeses, franceses, os portugueses, os índios e os negros. Então, você vê que o Maranhão é uma cultura diversificada, porque nós tivemos essa civilização lá. Você vê no Maranhão muita gente loura, porque vieram dos franceses, que dizem que passaram 20 anos lá. Tem lugar no Maranhão, no interior do estado, que toda gente é loura. De onde eles tiraram esses louros? Foi do fundo da terra? Pois bem, depois do comércio, fui militar durante três anos, porque era época da guerra contra a Alemanha. Fui convocado em 42 e saí em 45. Daí foi que eu entrei na arte musical. Trabalhava no comércio e trabalhava para ganhar o que se chama cachê hoje, não sei, ganhava por show que se fazia. A Rádio Timbira tinha show ao vivo todo dia. Tinha o palco-auditório, que era pago, e esse dinheiro era passado para os artistas da Rádio Timbira. Nesse tempo, essa Alcione Nazaré foi cantora da Rádio Timbira, que eu vi agora com uma outra que deixei no Rio chamada Célia Maria, também cantora da Rádio Timbira. Agora muitos músicos vieram para o Sul. Saxofonistas, clarinetistas, flautistas. Muitos vieram para o Rio de Janeiro, onde tocaram em grandes orquestras. Viver de música lá era difícil. Lá tinha orquestra mas a festa era semanal. Toco mundo embarcava para o Rio de Janeiro, que era onde se podia viver profissionalmente. Aí, nesse ínterim, e eu sempre curioso, fui trabalhar numa firma de peças de automóvel. De forma que hoje não tem uma peça de automóvel – só não conheço as peças modernas que são eletrônicas –, mas se tu desmontar um carro, eu te digo o nome da cada peça. Fui vendedor de peça de automóvel. Eu sei o nome e o apelido de cada peça de automóvel. [risos] Vou te dar um exemplo: virabrequim, que é o que faz a força, as bielas, virabrequim. O nome daquilo se chama virabrequim, ave-motora, ave-de-máquina. Eu era obrigado a saber porque ia vender essas coisas. O nêgo dizia “Eu quero ave-de-máquina”. Se eu não soubesse, eu não vendia, né? Como eu era vendedor de peças, “Agora vou tirar carta de motorista”. Estudei, motorista. Trabalhei muitos anos como motorista. Meu pai era tipógrafo, por isso entendo um bocado de tipografia, que eu aprendi com ele. Ele me levava para a tipografia, pra não ficar na rua, na molecagem. Hoje você vê essa rua cheia de meninos, meninos de rua. Os pais não botam os filhos pra lhes acompanharem; meu pai me levava. Era o que minha avó dizia “Menino, aproveite a força dele. Sem querer vai aprendendo uma profissão. E quando ficar adulto, no mínimo, sabe a profissão que aprendeu na infância”. A lei proíbe que se bote numa oficina uma criança hoje. Tem que tirar carta, documento, ser responsável, não-sei-o-quê, então não se aprende o ofício. Aprende as loucuras da rua. É difícil entender esse Brasil.

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