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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 14/32

Fui criado ouvindo música clássica

Tacioli  Seu Vieira, já vamos conversar com o Riachão, mas antes gostaria de fazer mais duas perguntas.
Dafne – Três. Quero fazer a minha.
Tacioli  O senhor foi criado com essa família, né?
Vieira  Família dos Lomba.
Tacioli  O que o senhor ouvia lá, já que era uma família mais abastada, né? Tinha rádio?
Vieira  Não, olha quando eu me entendi ainda não tinha rádio ainda. Quando eu me entendi era vitrola. Tocava uma corda, enchia [dava corda] e botava o disco. Eu fui criado ouvindo música clássica. O velho gostava de ouvir os grandes clássicos, Strauss, Ravel, de forma que eu aceito a música clássica como aceito a música popular. Uma vez, quando estreou o Canal 4, que foi a primeira televisão no Maranhão, eu fui um dois convidados pra fazer parte daquilo. Eu era diretor do telecine dessa companhia. Eu era ligado à música e era intelectual. Então, fui diretor do telecine.
Tacioli  Quando foi isso?
Vieira  Isso foi em 40.
Tacioli – Em TV?
Vieira  Quarenta, não, 50 e pouco. A primeira televisão do Maranhão foi o canal 4, que ainda existe lá. E eu fui o diretor do telecine. Tem um fato curioso dessa época, né? Esse moço famoso chamado Roberto Carlos foi prá lá e ninguém ligou pra ele. Era um ilustre desconhecido.
Seabra  Ele foi cantar lá?
Vieira – É, foi cantar, mas não foi ninguém. Quem fez sucesso lá foi o Quinteto Farroupilha, do Rio Grande do Sul, que já existia. Foi uma mulata, cantora da Rádio Nacional, esqueço o nome dela. Mas como eu era o diretor de telecine, eu ficava ouvindo lá sossegado. O presidente Juscelino Kubitscheck esteve lá. Eu me lembro bem. Sou um camarada inimigo do formalismo, inimigo de gravata, e tiveram que colocar em mim uma gravata. Eu estava todo engravatado, foi uma gozação pra turma. Eu digo, “Nós estamos virando gente. Nêgo de gravata, virou gente”. [risos] Porque chamam nêgo de macaco. Na época, até um governador do Maranhão que era escuro, era negro, chamado Nunes Freire [n.e. Considerado herdeiro político de Vitorino Freire, cacique político maranhanse nos anos 1940, 1950 e 1060, Oswaldo Nunes Freire governou o estado maranhense entre 1975 e 1978 indicado pelo presidente militar Ernesto Geisel], grande médico. E teve o hospital que eu trabalhei, que é o maior hospital do estado, chamado Hospital Geral, em que fui o diretor administrativo, o diretor-geral era um médico negro. Então os racistas diziam: “O Maranhão vai mal, está governado por negro. Esse hospital é pior, a administração geral e administrativa é de negro.” E eu dizia: “Os macacos são quem estão certos”. Pegavam corda. “Ah, sou macaco, é?” “Então, os macacos são quem estão certos. Estão mandando agora.” E foi um governador do Maranhão que os políticos não governaram, porque quando ele veio a assumir, não sei se foi o Médici ou se foi outro presidente que era ditador, o convidou pra ser governador do Maranhão. Aí ele disse: “Só vou governar o Maranhão, se os políticos não se meterem no meu governo. Eu não preciso ser governador do Maranhão”. Ele era de família rica do interior do Maranhão. Médico de fama. Aí o presidente, “Nós temos a informação sua. Nós queremos é o senhor mesmo”. Na véspera dele sair, um dos secretários dele não cumpriu o que tinha que ser feito, ele mandou botar na cadeia. Disse: “Até a manhã meia-noite sou o governador. O senhor vai pra cadeia!”. Chamou o guarda e “Prende esse cara!”. Pra você ver que o nêgo não era brincadeira, mas era um sangue bom. Como eu era sargento, ele brincava comigo, me chamando de tenente. “Eu sou ex-sargento!” “Você é tenente, no meu ponto de vista.” Era um sujeito bom. Político não mandava nada. Foi um dos grandes governos que o Maranhão teve; não se soube se o secretário roubou, que ele roubou. Ninguém dizia isso, porque ele não roubou mesmo.

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