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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 13/32

Não procuro dicionário pra botar palavra em música

Tacioli  Seu Vieira, o senhor compõe há muito tempo. Qual foi período mais produtivo? E por quê?
Vieira  Não, eu não tenho período criativo, porque eu venho compondo… Olha, a minha distração é compor.
Tacioli  Mas houve uma época em que o senhor compôs mais?
Vieira  Estou com um borrão aqui pra… porque vem ideia, eu anoto pra não esquecê-la. “Bom, depois eu vou desenvolver esse tema.” Pode demorar um dia, um mês, um ano, sete anos. Tem música velha que eu olho assim, “Rapaz, fiz uma burrice aqui!”, aí substituo frases, comprendeu? Porque eu procuro fazer uma coisa de uma maneira mais simples possível pra que o povo, que tem pouca instrução, me entenda. Eu não procuro dicionário pra botar palavra. Só tem uma palavra que eu empreguei numa composição minha chamada “Igara velha”. Igara é canoa na linguagem indígena. Eu cheguei na beira da praia, tomando banho, olhei uma canoa apodrecendo, depois de usada, na praia. Eu pensei “O pescador usou essa canoa. De tanto usar a canoa, abandonou como uma coisa imprestável. Está esquecida. Vem a onda, fica uma areia”. Aí eu fiz uma música camada “Igara velha”. Vocês vão ouvir a letra. [canta] “Igara velha / Atirada lá na praia / Carcomida pelo tempo / O salitre e o mar / Abandonada num montículo de areia / E só pela maré alta / Que a onda vem lhe beijar / E se acabando do sol / Sente a inclemência / E do vento a violência em tempos de tempestade / E a tardinha, quando vem a lua cheia / Na sua cama de areia / Vai morrendo de saudade / E o vento sopra areia / Que na igara cai / E a igara lentamente se enterrando, vai / E o vento sopra areia que na igara cai / E a igara lentamente se enterrando, vai.” De uma canoa velha podre que eu vi, isso é motivo.
Tacioli  E o que tem nesse borrão? Qual a ideia que o senhor anotou nesse papel?
Vieira  Não sei, eu me esqueci. Isso é muito perto, vamos pra longe. Às vezes eu pego um tema e vou colecionando numa boa. Compor é dom, viu? O sujeito pode ser bom violonista, mas se ele não tiver o dom… é difícil. Às vezes escuto na rua uma frase curiosa, e ela já é uma fonte para compor.
Tacioli  O senhor anda muito em São Luís?
Vieira  Fui nascido e criado na cidade. Eu conheço, assim como outras pessoas conhecem São Paulo, eu conheço São Luís toda.
Tacioli  O senhor gosta de andar na cidade?
Vieira  Gosto de andar na cidade. Nós somos beira de oceano, né? Temos quilômetros e quilômetros de praia. Então tudo aquilo é fonte de inspiração.
Tacioli  E onde o senhor anda ali?
Vieira  Rapaz, a cidade começa da Ponta da Areia e vai até um lugar chamado Raposa. Dá uns vinte e tantos quilômetros só de praia. Hoje já está – eu chamo de espigões, os arranha-céus pela beira da praia. No tempo em que eu andava por lá o que tinha era mata, e nessa mata guajuru, fruta que se comia, murici, maria-pretinha, se encontrava muita caça, aquela jaçanã… Quem tinha espingarda levava pra caçar. Hoje, não, hoje é arranha-céu. Aqui deveria ser uma porção de colinas. Eu vi uma porção de ladeira aqui. Isso, na época do descobrimento, devia ser uma mata… Hoje é só fura-céu, espigão de concreto, né?

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