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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 12/32

Gosto das músicas românticas

Tacioli – Falamos bastante sobre os temas para as composições, mas há um dele em que o senhor mais privilegiou, um tema mais recorrente?
Vieira – De que eu goste mais?
Tacioli  Qual é?
Vieira  São as músicas românticas que vocês não conhecem ainda. Todo mundo acha que eu sou um grande sambista. Eu acho que não, não sou um grande sambista. Eu tenho muito samba, que é música do Brasil, mas eu gosto das músicas românticas. Tem muita coisa de romantismo. Ainda agora eu estava falando com o menino ali, ele estava falando de música romântica, quando eu disse: “Tenho muita coisa de romantismo. Umas da últimas que eu fiz, agora há pouco tempo, chama-se ‘Mágoa’”. [canta] “Mágoa de ser viver insatisfeito / Mágoa de tanto amar quem não nos quer / Mágoa de sepultar no próprio peito / Todo um amor que foi desfeito / Por um capricho de mulher / Mágoa, és o motivo dessa dor / Mágoa, és a razão do meu sofrer / Mágoa de quem me deu tão grande amor/ (…) / Mágoa que só me faz sofrer”. Pequenininha, mas está condensada.
Riachão  Maravilha.
Vieira  Gostou da letra?
Tacioli  É recente?
Vieira  É, coisa de uns cinco ou seis anos.
Tacioli – Como surgiu esse tema?
Vieira  Você sabe como eu fiz esse tema? Me contaram uma história que um sujeito gostava de uma pessoa, e aquela pessoa que ele gostava, não gostava dele. Aí apareceu um outro que gostava daquela pessoa e ela não gostava. Então, eu uni os dois dramas num samba só. Aí é mágoa, né, a mágoa. Eu fiz um show em Brasília com um grupo de moças chamada Toque de Sal. Muito bom. Eu fiz um show com elas. E uma delas quando viu isso começou a botar lágrimas, né? “Seu Vieira, o senhor cantou o meu drama.” [risos] “Eu sou louca pelo fulano de tal, mas ele não que nada comigo. E agora tem um que é louco por mim e só quero chutar o bicho, porque o homem é chato. Se você tivesse nascido na minha época (…)” – ela é moça de 20 e poucos anos – “(…) eu dizia que o senhor tinha copiado a minha história.” Eu digo: “Não, minha filha, a humanidade é que sofre dessas coisas”. [risos] Então, tudo que eu tenho, todas as composições minhas, posso dizer que mais de 80% tem uma história. Tenho uma facilidade de olhar as coisas, perceber as coisas. Sou capaz de ver uma música, uma palma dessa cair e dela fazer um trabalho. Eu vou oferecer pra vocês que estão aí em casa um poema que eu fiz, pretensioso. Vocês vão ouvir o tamanho dessa pretensão. O homem faz prece a Deus, né? Todos nós que aqui estamos fazemos prece a Deus. Eu fiz uma prece de Deus criando uma prece de Deus ao homem. Está aí impresso. Vou oferecer a vocês. Posso subir até agora, apanhar e distribuir pra vocês. Aí vocês vão ver aonde quero chegar. Deus fazendo prece para o homem, não é mole. Não é todo poeta que… Eu ofereci para a menina que cantou contigo lá no Rio. [n.e. Sopram Dona Ivone Lara ] Eu ofereci para Ivone Lara. Ela ficou emocionada. Eu te dei esse poema? Ivone Lara disse: “Vou mandar botar num quadro para guardar lá na minha sala, seu Vieira.” “É, Deus também faz prece ao homem pra puder o homem entendê-lo.” O homem é bicho terrível, o homem talvez seja o pior do animais. É o único animal que mata o outro sem precisar comer. Um leão mata uma caça pra comer; um pássaro ataca um outro pra comer, pela fome. O homem mata o outro por brincadeira, à toa, pra roubar, por causa de mulher. Então é um predador terrível. O homem é o pior dos predadores.

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