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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 11/32

Minha avó era uma mulata, filha de escravo

Seabra – Então, para terminar essa história da letra da música. O senhor faz a letra, mas a música o senhor faz na cabeça e sai cantando, não é ao violão?
Vieira  Antigamente eu não fazia ao violão. Hoje eu pego o violão pra fazer, porque já sei tocar um bocadinho.
Seabra  Mas antigamente…
Vieira  Era na mente. Isso é inspiração musical mesmo. Olha, rapaz, o músico já nasce. Ele pode aprender música, pode se tornar um grande músico, mas o poeta, o compositor – esse aqui deve fazer música sem saber música. [apontando para Riachão] Sabe música?
Riachão  Nada.
Vieira  Pronto, está aí! E assim como ele, milhares e milhares no mundo inteiro. Minha avó dizia pra mim – minha avó era uma mulata, filha de escravo –, “Ó, meu filho, quem é bom já nasce feito. Quem quer se fazer, não pode. Quando o ruim quer se apurar, vem a natureza e descobre”. [risos] Filosofia de crioulo. Quem é bom já nasce feito…
Tacioli  Mas, Seu Vieira, como o senhor guardava essas melodias antes de aprender a música?
Vieira  Isso até hoje causa admiração. Se pego esse álbum com 327 músicas, se pego qualquer uma daquelas letras, pego o violão e toco pra ti. Está tudo aqui, nesse computador humano.
Seabra  Não tinha nem acorde?
Vieira  Não, eu não sei escrever. Eu sei o que é Lá Menor, o que é Si Menor, o que é Dó, Ré Maior. Isso sei tudinho. Nunca tive tempo de aprender. Eu encontrei quem quisesse me ensinar, mas não tinha tempo.
Tacioli  Com tanta profissão também não dava, né?
Vieira – É. Na minha vida fui muita coisa. Fui diretor administrativo de hospital, sargento do Exército, mecânico de automóvel. Rapaz, eu sou meio danado! Eu não paro. Se você telefonar todo dia na minha casa, você não me encontra em casa. Eu estou sempre em casa, mas a partir das oito, nove horas da noite, porque não ando muito pela madrugada, já que a violência está na rua. O ladrão ataca você, “Bota tudo o que tu tem!”. Se não tem dinheiro, “Ah, tu não tem dinheiro?”. Dá um tiro, pá.

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