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Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 10/32

"Porque a noite negra é muito feia"

Seabra  Só retomando, o senhor ia contar a história do “Poema para o azul”…
Vieira  Pois bem, então a minha madrinha disse assim, “Rapaz, por que tu fica só olhando para o céu azul?” Eu a chamava de tia, porque ela me tratava como sobrinho. “Titia, porque a noite negra é muito feia. Acho que o universo deveria ser azul, para ser uma coisa mais bonita, mais suave.” E ela ficava ouvindo. “Ah, meu filho, não é a sua vontade que vai fazer o mundo, não.” “Você vai entender isso depois.” Garoto, eu disse: “Mas vou fazer um poema para esse azul”. E é a melhor música que eu já fiz. Uns versinhos desse tamanhozinho assim.
Seabra  Mas que você fez muito depois.
Vieira  Ah, eu fiz depois, já adulto, mas eu fiz um poema para o azul.
Seabra  Então, surgiu esse tema, aí o senhor fez a letra…
Vieira  Tudo que eu faço é em cima de tema. Posso te dar outro exemplo. Não fazem dois, três anos que eu fui à praia levar um amigo meu – sou motorista profissional, né? Ele era diretor de uma companhia telefônica no Maranhão. Ele tinha tido um derrame, ficou meio paralítico, né? Nem podia se levantar. Levou meses tomando remédio, mas aquilo estacionou. E eu disse: “Vamos tomar uns banhos salgados. Eles farão bem para os seus nervos”. Eu sou também enfermeiro do Exército nacional. [risos] Sou mecânico de automóvel. Tenho uma porção de profissões, que eu fui aprendendo…
Dafne  Essa é a próxima pergunta que eu quero fazer.
Vieira – E eu disse pra ele, “Vamos tomar uns banhos salgados”. A família não queria. “Ele não pode nem andar.” “Mas eu levo ele pra praia.” “Seu Vieira, ele vai morrer alagado!” “Não morre, gente! Então, eu morro com ele.” Eu insisti com ele. Tomou uns 15 banhos salgados. E começou a andar. Aí a agonia era comigo, pois ele dizia: “Vamos tomar um banho salgado hoje?!”. Ele melhorou, não andava. E um dia eu estava lá na praia com ele – a maré no Maranhão é muito alta, cresce cinco a sete metros. Quando a maré é alta, bota água no caís. Quando a maré baixa, seca, dá quase um quilômetro de profundidade de distância da praia. E ele estava lá na beira da praia. Eu estava perto dele, tomando um banho salgado. E o vento soprando, né? Quando o vento sopra lá no Maranhão, vem com aquela força da areia tão forte que pinica a perna da gente. A areia pinicando, né? Faz aquela fumaça de areia. Na Bahia deve ter isso, né? O vento da areia sopra a areia que pinica a perna da gente.
Riachão  No tempo passado teve.
Vieira  Aí aquilo pinicando a minha perna, virei, fui olhando, e aquela fumaça feita pela areia e levada pelo vento, formando umas dunas. Pronto, aquilo foi inspiração. Tanto que eu tenho uma canção chamada “Dunas”, que eu criei um amor da onda com o vento, que chega na beira da praia, sopra areia e a areia vai formar as dunas. Uma história bonita! Bom, o que vocês querem saber mais? [risos]

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