gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Antônio Vieira e Riachão

Detalhe da mão de Antônio Vieira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Antônio Vieira e Riachão

parte 9/32

Preto tem que saber alguma coisa pra não ser carregador

Seabra  A música que você compunha era sempre acompanhando uma letra que você estava fazendo?
Vieira  Não, é o seguinte: primeiro escolho um tema. Depois de escolher o tema, vou à letra. Depois de fazer a letra, vou para a música. Eu sempre escolho um tema. Por exemplo: a música que é a melhor música que eu já fiz é “Poema para o azul”. A história dela é: eu era moleque, neguinho moleque, e ficava pro céu olhando, minutos olhando. Fui criado por uma família que veio do estrangeiro. Se hoje eu sou formado, tenho curso superior, devo a essa gente, que me obrigou a estudar. “Preto tem que saber alguma coisa pra não ser carreiro, carregador. Tem que estudar!” Eu estudei a ferro e a fogo no tempo em que o Maranhão não tinha universidade. Era só faculdade e olhe lá, porque era difícil chegar até lá. Mas eu cheguei, porque eles me impuseram isso, a ponto que quando me formei – me formei novo, com 20 anos – na hora em que eu trouxe o diploma pro meu padrinho, que era o chefe da família, e minha madrinha, o velho olhou o diploma… Nesse tempo o diploma era um jornal, assinado pelo Getúlio Vargas, Presidente da República – eu me lembro bem! –, ministro não-sei-de-quê, Gustavo Capanema; ministro não-sei-de-quê, Salgado Filho. O diploma de curso superior ia para o Rio, no tempo em que era a Capital, pra eles assinarem. Eu levei pro velho aquele jornal enrolado e ele olhou, leu e disse “Isso aqui é a sua ferramenta pra não precisar morrer de fome.” Me devolveu o diploma e disse “É a sua ferramenta!”. Nunca me esqueço disso.
Tacioli  Formado em quê?
Vieira  Eu sou formado em Ciências Contábeis, compreendeu? Era difícil pra mim, até porque a primeira faculdadezinha pequena, paga. Era difícil! Não tinha universidade. Hoje, não, tem a universidade pública. Ou tu tinha o dinheirinho ou tu não estudava. Nunca estudei em colégio de governo desde o primário. Eles faziam questão, pagavam para o neto e pagavam pra mim, a mesma coisa, não discriminavam. Eu era afilhado deles. A roupa que um usava, o outro usava. Fazia quase 60 anos que eu não via esse moço. Quando ele soube desse meu sucesso, ele pegou um avião e foi me visitar. Ele é coronel do Exército e psicólogo no Paraná. Levei a televisão para a Base Área. Foi aquele auê danado.
Tacioli  Como é que ele se chama?
Vieira  Durval Alves Lomba, coronel do Exército nacional.
Tacioli  Foi criado com o senhor.
Vieira  Fomos criados juntos.

Tags
Antônio Vieira
Riachão
de 32