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Entrevistas de música brasileira

Angela Maria

Ângela Maria por Thaís Taverna

Angela Maria

parte 8/11

Vou morrer famosa!

Pavan – Angela, muita gente diz que o país não tem memória. Muitos artistas não são reconhecidos pelo seu trabalho. Você se acha uma artista brasileira reconhecida?
Angela Maria – Eu me sinto (reconhecida). Tem que ter renovações, né? Eu não posso querer ser sempre a Angela Maria dos 14, 16 anos. Tem outros que vem, que vão aparecendo, mas eu acho legal que alguns não conseguiram se manter, foram derrubados pelo sucesso de outros, pelos acontecimentos de outros, mas eu não, eu continuo aí, eu estou no meio. Tenho certeza que tenho uma força espiritual muito grande, e acho que é com isso que tenho me mantido aqui, firme. Pode vir o sucesso que for, o ritmo que for, as coisas estranhas de fora que vem, mas isso não consegue e não vai me derrubar. Eu vou morrer famosa!
Tacioli – Angela, e o reconhecimento da crítica?
Angela Maria – Eu não tenho nada contra a crítica, ela sempre foi maravilhosa comigo, até hoje. Tem uns “senões” aqui, não posso satisfazer a gregos e troianos, mas no geral sempre foi maravilhosa comigo. Alguns até me aconselham sobre certas coisas que eu não estou fazendo bem, me aconselham “Não faz assim, faz assado”. Quero dizer, é para o meu bem.
Tacioli – Você se lembra de algum conselho?
Angela Maria – Não! [risos] Eu sei que já recebi.
Tacioli – Era isso que ia perguntar, se algum conselho desse já tinha alterado um pouco a sua trajetória artística.
Angela Maria – Não! Conselho de boi, né, então não alterou nada. Sempre tive uma boa relação com a imprensa. Eu sempre tratei muito bem a imprensa, sempre a recebi muito bem. Eu nunca deixei de falar por menor que fosse o jornalista (veículo), vai lá na minha casa, faz a entrevista, se não puder ser na minha casa, vou na gravadora, onde for. Eu sempre fui muito legal com a imprensa. Vocês me chamaram pra vir aqui. Eu poderia dar uma desculpa. Estou gripada – na realidade estou mesmo. Mas eu poderia dizer “Não vou, estou cansada, não tenho mais idade pra isso”. Não, eu vou. E, inclusive, tenho um marido maravilhoso que penso como eu, “Não, Angela, você tem que ir, você tem que fazer, você tem que acontecer!”. Ele me aconselha muito em relação a isso.
Tacioli – Angela, preocupado com a sua gripe, esse ventinho te atrapalha?
Angela Maria – Não, está tudo bem.
Tacioli – Senão, a gente abre (a janela de lá) e fecha a daqui.
Lia Machado Alvim – A sua postura é uma prova que você é aberta desde sempre. E você mostra também que não tem preconceito na escolha de seu repertório.
Angela Maria – Não!
Lia Machado Alvim – Se a música cair bem, é ela que você grava.
Angela Maria – Exatamente!

Capa do LP coletânea de 1967 com obras do compositor Adelino Moreira e, abaixo, Angela Maria ao lado de Elizeth Cardoso. Fotos: reprodução/Acervo Angela Maria

Lia Machado Alvim – Você sofreu por isso em algum momento?
Angela Maria – Por isso aí eu sofri um pouquinho. Por exemplo: eu gravava muito Adelino Moreira. E Adelino Moreira sempre foi muito combatido. Mas ele só me deu sucessos. Ele só deu sucessos para o Nelson Gonçalves. Os grandes sucessos do Nelson Gonçalves são graças a Adelino Moreira. Os grandes sucessos de Angela Maria, graças a Adelino Moreira, com “Garota solitária”, “Beijo roubado”, “Cinderela”. Ele me deu muitos sucessos. Se ele estivesse vivo, eu ia gravar sempre Adelino Moreira, mas alguns críticos achavam que eu não devia gravá-lo. Eram contra as letras dele, mas eu gravava, o público gostava, o público comprava os discos e saía.
Lia Machado Alvim – Do mesmo jeito que você gravou Tom Jobim, Vinicius…
Angela Maria – Vinicius! Eu gravei todos esses grandes compositores: Ary, Vicente Paiva, Caymmi, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, eu gravei esse povo todo.
Tacioli – Mas o retorno como o que você teve com o Adelino nenhum te deu?
Angela Maria – Como o do Adelino, não.
Lia Machado Alvim – Como era cantar com o Dorival?
Angela Maria – Eu fiz um show com ele. Oito meses. “Coisas e graças da Bahia”. Eu era a noiva dele. Ele saía para pescar e eu ficava na beira da praia esperando a volta dele, cantando. Esse show durou oito meses lá naquela casa de show da Praia Vermelha, no Rio. Ele era maravilhoso como colega, ele me ajudava muito. Ele me ensinou muita coisa de palco, de movimentação, de postura.
Lia Machado Alvim – Casavam as vozes muito bem?
Angela Maria – Eu e a do Caymmi?
Lia Machado Alvim – Sim.
Angela Maria – Eu nunca cantei com ele. No show eu cantava pra ele. Depois terminava a minha parte, ele entrava e fazia a parte dele tocando violão, cantando.
Tacioli – O que você cantava eram canções do Caymmi?
Angela Maria – Do Caymmi. Depois entrava o Roberto Inglez e eu fazia um show com o Roberto Inglez. Eram duas shows: Caymmi, passava uns 40 minutos, e aí vinha o Roberto Inglez e eu.
Tacioli – Tinha que ter pulmão, né?
Angela Maria – Ô! Eu era menina, 17, 18 anos, aí dava tudo certo.
Tacioli – Eu vi em uma sua entrevista antiga que dizia sobre um encontro seu com a Elizeth Cardoso, que ela havia ido à sua casa e dito porque você fazia tanto sucesso e ela, que gravava os artistas que ela gravava, e não fazia (o sucesso). Você via uma diferença clara de repertórios e de estilos?
Angela Maria – Não. Eu só falei pra ela: “Vá até o povo! Você tem que cantar música para o povo! Essas músicas que você está cantando são bonitas, são maravilhosas, também gosto, também gravo, mas você tem de cantar músicas que o povo entenda, que o povo cante com você. Você tem que ir até ele. Aí você vai ser agarrada na rua, vai ser beijada”. “Assim, não!” Não era o gênio dela. [ri]

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