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Entrevistas de música brasileira

Angela Maria

Ângela Maria por Thaís Taverna

Angela Maria

parte 7/11

Queria ser pediatra

Tacioli – Você contato com a Aracy de Almeida nesse período dos anos 50?
Angela Maria – Mais aqui no Programa do Silvio (Santos).
Tacioli – Em São Paulo.
Angela Maria – Isso, no Programa no Silvio. Gozado, a minha mãe disse quando eu tinha uns três anos de idade que eu cantava música da Aracy. A música era (canta): “Samba no morro / Não é samba / É batucada / É batucada, é batucada, oi”. A minha mãe disse que eu cantava isso. Quero dizer, eu já tinha isso na cabeça, de querer ser cantora, eu não seria da igreja. [risos]
Tacioli – Mas você tinha uma outra expectativa profissional fora o de ser cantora?
Angela Maria – Quando mocinha? Eu queria ser médica, eu queria ser…
Thiago Marques Luiz – Pediatra!
Angela Maria – Eu queria ser pediatra, mas depois eu vi que não me dava bem e que o meu negócio era cantar.
Pavan – Depois que você conseguiu o contrato com a rádio e com a gravadora, você sobe muito rápido, em três anos já ganha o concurso de Rainha do Rádio. Quando você descobre que “Cheguei lá! Conquistei o maior título de uma cantora no país!”? Como foi esse momento?
Angela Maria – Eu não pensei assim, não. Eu entrei no concurso de rainha graças ao incentivo dos fãs. Eu tinha um programa na rádio toda quarta-feira. E lotava, enchia pra caramba. Daí começou esse negócio de concurso e eles começaram a me incentivar, a pedir para eu entrar. Eu não queria entrar, porque não queria concorrer com Emilinha, que era o maior cartaz do Brasil, muito popular. Eu não queria. “Você tem que ser rainha!” Aí eu entrei e não ganhei. Foi em 53. Fui princesa. Depois da Emilinha, a mais votada foi eu. Ela ganhou e fui a primeira princesa. Agora eu vou entrar em 54. Em 54 entraram outras candidatas bem fraquinhas e eu disse “Nessa eu vou!”, porque a mais forte em matéria de popularidade entre essas sou eu. “Eu vou ganhar!” Eu entrei e consegui ganhar esse concurso de Rainha do Rádio, só que em tudo existe aquela pilantragem, né? E eu pensei que, se eu vendesse votos, como eu fiz na Cinelândia, botava meu banquinho e começava a vender, fosse ganhar, mas uma pessoa do Ministério do Trabalho, com o Jango era meu fã, ele e a mulher dele iam quase toda a noite me assistir lá na boate onde eu fazia um show com Dorival Caymmi. Ele dizia para o que eu precisasse para eu procurá-lo no Ministério. “Tá na hora!” Ele tinha feito a mesma coisa com a Marlene, e a Marlene ganhou o concurso de Rainha do Rádio através dele, da Antarctica, do Guaraná (Antarctica). Ele era amigo do presidente da Antarctica. Aí eu fui lá. Marquei uma audiência com ele e fui ao Ministério. Ele me recebeu e eu falei: “A minha situação é essa, essa e essa. Eu preciso ganhar!”. Tinha a Vera Lúcia, que estava apoiada pelo pessoal da Casa de Portugal, e ela ia ganhar. Os portugueses todos iam votar nela. Ele falou: “Pode deixar que você vai ganhar isso!”. “Ah, vou? Mas eu quero ter certeza.” “Você vai ganhar!”E na minha frente ele ligou para São Paulo, para a Antarctica, e falou com esse amigo dele. “Olha, eu tenho uma candidata e ela vai ter de ganhar esse concurso. É a Angela Maria.” Aí o Paulo disse: “Tudo certo!”. Fez um cheque em branco preenchendo os votos que precisasse. E eu ganhei com dois milhões. Esse dinheiro era para construir um hospital dos radialistas. E foi construído. E o andar do hospital é meu, está lá, “Angela Maria” e os dois milhões de votos. Cada voto era um real, era um…
Max Eluard – Um dinheiro da época.
Angela Maria – Não me lembro mais da moeda. Vamos dizer que era um real. E eu consegui dois milhões, mas quem me deu um milhão e meio foi a Antarctica.

Em 1954 chega a vez de Abelim da Cunha, a Angela Maria, ser coroada Rainha do Rádio. Foto: Acervo Angela Maria

Tacioli – Angela, o que representava para a carreira ser uma Rainha do Rádio naquele período? O que mudava na vida?
Angela Maria – Ah, muita coisa, muita coisa. Era muito importante era Rainha do Rádio. O tratamento era outro, era bem diferente. E, graças a Deus, eu contribui bastante para o hospital. Eu fui a única rainha que deu essa quantidade de dinheiro e votos para o hospital. Todas contribuíram bastante, mas eu fui o máximo, porque além do dinheiro da Antarctica, teve o dinheiro das pessoas que votaram.
Tacioli – Nesse ano (2014) faz 60 anos do reinado de Rainha do Rádio. Que balanço você faz? É difícil fazer um balanço de 60 anos, mas… [risos]
Angela Maria – Ah, a gente tem aquelas caídas, aquelas subidas, aquelas mais ou menos, aquelas altíssimas, mas a gente vai levando. Eu sei que não parei. Nunca quis parar. Um dia eu vou parar, é claro, vou para o mesmo lugar que todos foram, mas enquanto eu estiver aqui, vou estar de pé, se Deus quiser.

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