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Entrevistas de música brasileira

Angela Maria

Ângela Maria por Thaís Taverna

Angela Maria

parte 6/11

Ela vai ser a maior cantora do Brasil!

Pavan – Angela, depois dos programas de calouro você foi cantar no Dancing Avenida e de lá conseguiu um contrato tanto com gravadora quanto com a rádio, né? E foi uma ascensão muito rápida, porque era comecinho dos anos 1950…
Angela Maria – Não! O meu contrato com o Dancing Avenida foi assim: eu fui rejeitada por todos os programas de calouro porque eu ganhava todos. Os calouros estavam se rebelando, estavam achando ruim, não queriam participar mais. Quando eles me viam, eles diziam “Ela vai ganhar! Vamos embora!”. E ninguém queria mais cantar em programa de calouro. Aí o pessoal – os diretores, produtores – chegaram pra mim e disseram “Angela, infelizmente você não vai poder participar mais, porque os calouros não querem, se você estiver, eles não querem cantar”. Aí um produtor da Rádio Nacional falou pra mim: “Angela, você é ótima cantora, está tudo bem, mas a gente não pode mais aceitar você aqui. Faz o seguinte: tem night clubs na cidade que precisam de cantoras. Por que você não vai lá? Você já está pronta. É só chegar e cantar.” “Mas é difícil, eu não conheço ninguém.” “Não precisa, chega lá, bata na porta, pergunta (se precisa de cantora), porque você não vai poder cantar em programa de calouro mais. Aí saí e bati lá no Avenida. O rapaz que me atendeu era diretor da casa. “Vocês não estão precisando de cantora aqui?” Ele me olhou de baixo para cima. “E você canta?” “Claro que canto! Eu sou Angela Maria!” Eu já pensava que era famosa por causa dos programas de calouros. “Mas quem é Angela Maria?” “Poxa, eu canto aí nos programas da Rádio Nacional, Tupi, da Rádio Mundial. Já ganhei todos os programas.” “Mas você canta mesmo?!” “Canto.” “Vamos fazer o seguinte: quando for às nove horas você passa aqui e vai ensaiar com o maestro”, que era a Orquestra dos Copacabanas. “Vai ensaiar com ele. Se der certo, se as moças te aplaudirem, se o público gostar de você, aí você fica cantando aqui em casa.” Se eu estivesse bem vestidinha…
Tacioli – Como você estava?
Angela Maria – Adivinha! De chinelo, uma roupinha muito surradinha, era muito pobre, duas trancinhas. E a minha sobrancelha juntava assim. Você imagina como eu era! E ele disse: “Do jeito que você está ninguém vai querer te ver cantar.” “Mas por que nos outros lugares todo mundo me aplaude, gosta da minha voz?” “Isso é lá na rádio, aqui é outro lugar, é diferente!” Cheguei (em casa) e falei para minha irmã: “Será que você consegue arrumar uma roupa pra mim?” “Não dá!” “O que é que vou fazer?” Ela me emprestou um dinheiro, fui a um armarinho e comprei um metro e meio de cetim, aquele cetim verde, e ela cortou e fez uma espécie de camisola. Um negócio horrível! [risos]

A Dalva era um estouro!

Tacioli – Não ficou bom?!
Angela Maria – Não ficou bom, mas tudo bem, cheguei lá à noite. E ele me disse: “Mas você veio igual como você estava à tarde!” [risos] “Mas a roupa está aqui num saquinho.” Foi chegando uma senhora de uns 40 anos, Helena de Maio, nunca mais esqueço o nome dessa mulher, ela foi a minha salvação. Ela chegou e disse: “O que está acontecendo?”. “Essa menina quer cantar, mas não dá.” “Ah, coitadinha!” “Ela tem que mudar tudo nela, tudo nela tem que ser mudado!” “Me dá ela aqui. Vamos lá pra camarim.” E me levou para dentro. Chegou lá, olhei o camarim da mulher e era tudo roupa, fiquei alucinada. “Vou escolher uma roupa pra você.” Eu pesava 49 quilos; ela devia pesar uns 70, era forte e alta. Ela foi lá e pegou – era a moda do rabo de peixe – um vestido preto, me enrolou no vestido, que era enorme, ajustou todo no meu corpo e disse: “Agora vem cá”. Arrumou o cabelo, pegou umas bananas, que antigamente era umas bananas que se usavam, tipo Carmen Miranda, suspendeu meus cabelos, fez aquela banana, fez a sobrancelha, bom, me transformou, botou aquelas bijuterias dela bonitas, aquele brilho, pulseira, botou um sapato dela – eu calçava 33, ela calçava 37 ou 38, botou algodão… Daqui a pouco o Ribeiro entra, ele era o gerente, e diz: “Cadê a moça, a menina, que você disse que ia transformá-la?”. “E o que você está fazendo aqui?”, disse pra mim. “Ué, o senhor não mandou…” “Vá para o salão!” Ela estava pensando que eu era uma bailarina. “Não, eu sou a Angela!” “Ah, é você! Nossa, mudou demais! Vá logo, vá logo!” Eu fui tropeçando, porque o sapato era grande, não sabia andar de sapato de salto alto, a Helena me ajudou até chegar ao palco, subi e dei o tom para o maestro e comecei a cantar. Eu estava cantando somente o repertório da Dalva, que era o maior sucesso da época. Comecei a cantar e o público parou de dançar. Todo mundo parado me ouvindo cantar. Quando acabei de cantar, todo mundo aplaudiu. Aí o Ribeiro subiu e me disse: “Você acabou de me dar um grande prejuízo”. “Eu?!” “É! Porque enquanto você cantava, elas pararam de dançar e deixaram de furar o cartão”. E aquele cartão era 50 centavos, né? “Você me deu um grande prejuízo. Se você continuar cantando assim, e elas continuarem paradas para ouvir você, eu vou mandar você embora!” [risos] Puxa vida! E a mulherada, “Não, não! Deixa ela cantar que nós vamos dançar!”. Cantei a noite toda e a pista lotada, todo mundo dançando enquanto eu cantava. Aí, quando eu cantava, enchia, e quando entrava o outro cantava, a pista esvaziava. Aí eu era obrigada a cantar a noite toda. Conclusão: foi ali que começou o meu grande sucesso literalmente, porque foi numa noite dessa que entrou o Chico Alves, que estava trabalhando música de Carnaval, e eu estava cantando uma música dele. Ele pegou o microfone e fez um elogio à minha pessoa. Ele falou assim: “Olha, vocês estão vendo aqui essa baixinha? Ela será a maior cantora do Brasil!”. Sei lá, ele falou assim, desceu e foi embora. Logo em seguida, uma semana depois, apareceram o Lúcio Alves, o Jayme Moreira Filho, que era diretor de broadcasting da Mayrink Veiga, o Cyro Monteiro, todos foram chamados pra assistir Angela Maria. O pessoal da Cinelândia que ia lá me assistir, chegava na Cinelândia e espalhava. “Tem uma cantora assim e assado no Dancing que canta maravilhosamente, parece que está ouvindo a Dalva de Oliveira!” Aí o pessoal ia correndo pra lá me ouvir.

Rainha do Rádio em 1951 e apelidada de “O Rouxinol do Brasil”, a paulista de Rio Claro Dalva de Oliveira (1917-1972) influenciou diversas cantoras nos anos 1940 e 1950, como Angela Maria e Alaíde Costa. Foto: reprodução

Tacioli – Eles não dançavam, ficavam assistindo…
Angela Maria – Esses convidados iam lá pra me ouvir. O pessoal do disco, o pessoal de rádio, iam pra me ouvir.
Tacioli – No Dancing o repertório era somente o da Dalva?
Angela Maria – Eu cantava mais músicas da Dalva. Na época a Dalva era um estouro, era um sucesso absoluto no Brasil inteiro. E o pessoal só queria ouvir músicas da Dalva. Então, como não podia ter a Dalva, tinha eu, que cantava igual à ela.
Lia Machado Alvim – Essas cantoras nessa época eram todas mais velhas que você – Dalva, Nora Ney, Linda Batista.
Angela Maria – Mais velhas? Eram, eu era brotinho, mocinha.
Lia Machado Alvim – Como você foi recebida por elas?
Angela Maria – Com muito carinho, não pela Dalva, mas principalmente pela Nora Ney. Ela foi muito minha amiga, muito, muito, muito. A Linda, Dircinha… A Dalva era cantora da Tupi.
Lia Machado Alvim – A Dalva se incomodou…
Angela Maria – Não. A Dalva era mais afastada.
Lia Machado Alvim – Alguma vez você chegou a conversar com o Herivelto Martins sobre o repertório da Dalva…?
Angela Maria – Não, ele adorava, ele achava maravilhoso, ele gostava. Chegou até a me dar músicas. Me deu “Mamãe”, me deu um bolero (“Recusa”), enfim, me deu muitas músicas. Ele e David Nasser, que era parceiro dele e um grande jornalista.

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