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Entrevistas de música brasileira

Angela Maria

Ângela Maria por Thaís Taverna

Angela Maria

parte 5/11

O Dener fazia o desenho das minhas roupas

Tacioli – Angela, o que dessa época em que você participava dos programas de calouro, o que era ser artista?
Angela Maria – Ser artista é ser famosa, ser conhecida, ser falada, ser comentada, ser querida, ser amada. Isso é ser artista.
Tacioli – E ser mulher artista naquela época?
Angela Maria – (silêncio)
Tacioli – Havia preconceito na família, …?
Angela Maria – Na minha família, sim. A minha família tinha muito preconceito, tanto que eu tive que me afastar dela por causa disso. Eu queria ser artista e a minha família não aceitava de jeito nenhum. Porque homem não prestava, mulher também não prestava. Eles não queriam que eu fosse uma artista. E eu tive de sair da minha família. Depois eles aceitaram, depois viram que não era nada daquilo que eles pensavam, que era um preconceito idiota, preconceito besta… Aí aceitaram.
Max Eluard – Mas demorou muito?
Angela Maria – (com voz baixa) Demorou um pouco, demorou um pouco.
Lia Machado Alvim – Como você, sozinha e sem o apoio da família, escolhia o figurino, a roupa que você ia usar, porque isso era muito importante, não?
Angela Maria – Imediatamente, muitas pessoas maravilhosas, como o Dener e o Clodovil, que logo se acercaram de mim. Não pensa que eles me cobravam, não me cobravam nada. Faziam tudo de graça pra mim.
Lia Machado Alvim – Mas a escolha era sua? Porque havia um estilo. Olhando os discos, você não é uma a cada trabalho. Você tem um estilo que se mantém.
Angela Maria – Inclusive o cabelo da época eu cortei, que depois a Elis imitou, que era aquele bem curtinho. Aquilo lá ela tirou de Angela! [ri] Roupas também, tudo o que eu inventava.
Lia Machado Alvim – Uma vez, conversando com uma outra cantora que morou com a Dolores Duran, a Julie Joy, não sei se você a conheceu na época…
Angela Maria – A Julie Joy? Conheci, maravilhosa. [n.e. A cantora, atriz e apresentadora Beatriz da Silva Araújo (1930-2011) teve sua carreira entre os anos 1950 e 1960 e foi a última Rainha do Rádio, eleita em 1958. Foi casada com João Roberto Kelly, pianista e compositor de sucessos carnavalescos como “Mulata yê yê yê” e “Cabeleira do Zezé”]
Lia Machado Alvim – Ela me contou que, como vocês se apresentavam toda a noite, ora num clube, ora em outro, de vez em quando trocavam de vestido umas com as outras, e com algum detalhe mudavam (o vestido) para não parecer o mesmo. Acontecia tudo isso mesmo?
Angela Maria – Comigo, não. Pode ser que elas fizessem isso, comigo, não! Eu tinha a minha modista que trabalhava com o Dener. O Dener era uma criança ainda, tinha 14 anos. E ele fazia os desenhos das minhas roupas, entregava para a Ernestina, e ela confeccionava. E depois tinha a Ruth Silveira que era uma mulher da sociedade que viajava muito para Paris e ela arrematava aqueles restos de desfiles que ninguém comprava, mas que era chique, e trazia para o Brasil. [ri] “Angela, trouxe um monte. Venha ver!” Eu ia lá e escolhia algumas roupas que ela trazia de lá desses grandes costureiros de Paris. Era assim.
Lia Machado Alvim – Era muito mais chique que hoje, né?
Angela Maria – Ah, muito, muito, muito melhor mesmo. Antigamente tudo era melhor. O rádio era melhor, as pessoas de rádio eram maravilhosas também. Todos já foram embora! Não existia ciúme, inveja, nada disso. Cada um fazia sucesso e todos adoravam, todos achavam maravilhoso, todos ajudavam. Se você estava começando a sua carreira, tinha um monte de colega em volta ajudando para você subir, pra você fazer sucesso, não puxando você pra baixo. Os compositores oferecendo música linda e maravilhosa pra você gravar, pra você fazer sucesso… Era assim! Era um ambiente maravilhoso o ambiente de rádio. Era muito bom!
Tacioli – Isso foi até quando, Angela?
Angela Maria – Até os anos 60. Sessenta e sete eu vim embora pra cá e não voltei mais para o Rio, fiquei morando aqui.
Tacioli – Voltava para o Rio somente a trabalho?
Angela Maria – Só a trabalho.
Tacioli – E hoje sua relação com o Rio de Janeiro como é?
Angela Maria – Continua igual. É só anunciar Angela Maria no teatro que esgota tudo.
Tacioli – Mas como é a sua relação com quando você vai pra lá…
Angela Maria – Com a minha família, com os meus amigos, com os meus fãs, tudo continua igual.
Tacioli – Somente a residência que mudou.
Angela Maria – Só a residência. O coração está dividido.

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