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Entrevistas de música brasileira

Angela Maria

Ângela Maria por Thaís Taverna

Angela Maria

parte 4/11

Eu cantava muito clássico

Max Eluard – E como a música entrou na sua vida, como você começou a cantar?
Angela Maria – Eu comecei a cantar na igreja. Na igreja eu era convidada para cantar em todas as festas que tinham. Eu ouvia muitos programas de rádio na época, porque não tinha televisão. Programa de Marlene, Emilinha, Dalva, Dircinha, Linda Batista, essas estrelas todas da época em programas do Paulo Gracindo e do César Alencar. Então eu ficava com aquilo na igreja, olha que pecado! [risos] Eu ficava na igreja pensando lá fora. Eu queria estar na rádio cantando e recebendo aqueles aplausos daquele público. Na igreja não podia aplaudir.
Max Eluard – Isso com qual idade?
Angela Maria – Tinha uns 14 anos, mas eu estava louca para cantar na rádio, mas eu era muito vigiada. A família toda – meu pai, minha mãe, meus irmãos – ia para a igreja. E lá tinham as salas para jovens, para crianças, para a adultos. E lá tinham as salas para jovens, para crianças, pra adultos, pra rapazes e tal, e aquilo era o dia inteiro. Aí eu combinei com uma coleguinha: “Vamos à Rádio Nacional assistir a um programa de calouros?”. Ela disse assim: “Vamos! Mas como?”. Eu disse: “A gente finge que entra na igreja e sai pelos fundos e vamos para a rádio!”. Pegamos o bonde naquele dia e fomos para à Rádio Nacional. A família toda na igreja, orando, cantando, e a gente no mundo, perdida. Aí fomos à Rádio Nacional. Chegamos lá. Perguntei: “Como eu faço para cantar nesse programa ‘Hora do Pato’?”. “É só se inscrever.” “Tá bom, então quero me inscrever.” E me inscrevi na Hora do Pato. “Mas o que você vai cantar?” “Eu vou cantar ‘Estrellita’, de Manuel Ponce.” “O quê?! Você canta isso?” “Eu canto!”. O Amilton Farinha era um pianista cego. “Amilton, ensaia com essa menina aí ‘Estrellita’, de Manuel Ponce.” Ele deu a introdução e eu comecei a cantar. Aí ele parou de tocar e todo mundo ficou olhando pra mim. Eu era uma coisinha, ninguém dava um tostão pra mim, muito menos que eu cantasse. “Começa novamente.” “Por quê? Eu cantei errado?” “Não, não, canta de novo, queremos ouvir!” Aí deu a introdução e comecei a cantar. “Você vai cantar amanhã!” Domingo era o dia do programa. Eu digo: “E agora? Como vou fazer para vir cantar?”. O programa começava ao meio-dia, justamente às 9h todo mundo saía para a igreja. “Acho que vou fazer isso de novo, vou fugir.” E combinei com a minha colega, a Marlene. Ela disse: “Vamos embora!”, ela também gostou. E no domingo, quando todo mundo foi para a igreja, quando todo mundo entrou nas salas, nós demos uma volta e saíamos correndo. Tomamos o bonde e fomos lá pra Rádio Nacional. Aí o Jorge Cury, que era o dono do programa, me anunciou. Primeiro cantou um pessoal, levou o pato, “qua-qua-qua”, quando o pessoal cantava mal, o pato entrava, aí já fiquei nervosa. “Será que o pato vai cantar em cima de mim?” E o pessoal me acalmando, “Vai dar tudo certo! Você vai ganhar!”. O prêmio estava acumulado. Entrei para cantar “Estrellita”, de Manuel Ponce. Quando terminei de cantar, foi uma tremenda ovação. Um negócio fora de série. Nunca tinham pedido bis no programa “Hora do Pato” pra calouros. Aí eu tive que bisar. Terminou. Tive de ficar esperando se eu teria ganho ou não. Ganhei o primeiro lugar e me chamaram novamente para eu ir com uma outra música. Aí eu ganhei aquele dinheiro, mas era muito, porque estava acumulado. [risos] “O que eu vou fazer com esse dinheiro quando chegar em casa?” Deu tempo de voltar, entrar na igreja e ficar esperando até terminar. Eu estava nervossíssima. E a minha mãe: “Como é, foi bem na hora dominicial, como se saiu?”. “Foi lindo, maravilhoso!” Aí eu comecei a fugir da escola para ir para à Rádio. Eu estudava à noite. Eu fugia da escola para ir para as rádios e cantar nos programas de calouros. Ganhei em todos os programas de calouros. Todos! Só que o dinheiro eu não podia apresentar. E eu estava juntando aquele dinheirinho. Estava ficando um dinheirão! [risos]

Com o sucesso e viagens ao exterior, Angela compra uma casa para os pais Albertino e Julita. Foto: reprodução

Tacioli – Onde você guardava esse dinheiro?
Angela Maria – Em uma caixa de sapato debaixo da cama.
Lia Machado Alvim – Como era o ambiente na rádio? Hoje, rádio é um estúdio, somente. Como era esse primeiro palco que você entrou para cantar, como ele era?
Angela Maria – O pessoal era maravilhoso, muito simpático, ajudava-se, entende, principalmente quando se tratava de uma pessoa humilde, que não sabia de nada, que estava fora de tudo, então eles ensinavam, acalmavam, davam conselho. Era muito bom!
Lia Machado Alvim – Tinha público?
Angela Maria – Tinha.
Max Eluard – E como foi o momento em que você revelou para a sua família que você estava cantando, que você tinha juntado aquele dinheiro…?
Angela Maria – Não, quem descobriu foi a minha mãe, porque ela gostava muito de ouvir o programa de calouros do Ary Barroso. E eu fui ao programa do Ary Barroso cantar essa mesma música, porque essa música me deu sorte. Em todos os programas em que eu ia cantar, eu ganhava. Era uma música difícil para cantar. E no Ary Barroso, que era o pior programa que tinha para calouro, porque ele não perdoava ninguém, ele era demais. A gente estava cantando e ele botava o ouvido dele quase na boca da gente pra ver se estava pronunciando bem as palavras. E a pessoa ficava nervosa e acabava levando um gongo. “Bow!”, aquele gongo. E como eu já sabia dos macetes, digo “Não vou me entregar, eu não vou ficar nervosa. Deixa ele botar o ouvido na minha boca, mas eu vou cantar até o fim!”. E quando ele me anunciou, já tirou um sarro da minha cara: “Você canta?”. “Claro que eu canto! Por isso que estou aqui!” “Eu não estou acreditando muito, não! Você vai cantar essa música?” “Vou cantar essa música!” “Tá bom!”. Aí o pianista deu a introdução e comecei a cantar. Me deu mais força. E ele foi chegando pra perto de mim, só que ele não fez o que fazia com os outros cantores, de botar o ouvido perto da boca, ele ficou perto de mim me olhando. E eu cantando. Quando terminei de cantar que o auditório levantou e começou a aplaudir, pedindo bis, bis, ele também aplaudiu. E pela primeira vez. “Eu não botava um pingo de fé em você. Você não tem jeito nenhum de uma grande cantora. Você não tem nada de cantora!”. Falou assim, porque era um estúpido, um grosso. “Mas eu sou obrigado a dar a mão à palmatória: você é uma grande cantora! Você será futuramente a maior cantora do Brasil!”. O Ary Barroso falou isso. “Vá, menina, vá estudar, que você será a maior cantora do Brasil. E apareça mais vezes em meu programa, porque em meu programa eu quero ouvir cantoras como você.

Antes e depois – O compositor, radialista e apresentador Ary Barroso com seu temido gongo e ao lado de Angela Maria no tricampeonato estadual do Flamengo. Fotos: reprodução

Max Eluard – E isso tudo com a sua mãe ouvindo (o programa) em casa?
Angela Maria – A minha mãe ouvindo em casa. Só que eu não dei o nome (correto), no Ary Barroso eu dei um outro nome. No Ary Barroso eu dei o nome de Marina Cunha. Mas sou tão inteligente que o meu sobrenome é Cunha. [risos] Eu dei Marina Cunha. Quando eu cheguei em casa, a minha mãe disse: “Muito bem!”. “Muito bem o quê?” “Acabei de ouvir. Você cantou no programa do Ary Barroso, né? “ “Eu?! Não, mãe, eu estava na escola!” “Que escola? Eu mandei o seu primo na escola e você nem apareceu lá. Você não tem aparecido na escola! Onde você tem andado?”Aí o couro comeu, o negócio foi feio para o meu lado.
Lia Machado Alvim – Você mostrou o dinheiro?
Angela Maria – Aí eu tive de mostrar o dinheiro. Pagaram-se todas as contas do armazém, do açougue, da quitanda, o dinheiro foi pra tudo e ainda sobrou. [risos]

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Pavan – O Ary disse que você deveria estudar porque seria a maior cantora do país.
Angela Maria – Porque ele pensou que eu você seguir o lírico, porque eu cantava o clássico, mas eu não. Eu ia em outro programa de calouro da Rádio Nacional e o apresentador, que vou me lembrar do nome, dizia que eu não devia cantar clássico. “Você é brejeira, você é bem brasileira, você tem de cantar música brasileira, samba.” Aí eu fui ouvir um disco da Dalva. Aprendi “Olhos verdes”. E ele disse: “Quando você aprender bem a música, você venha aqui no meu programa e você vai ver, fará sucesso, porque o seu tipo é bem brejeiro, é mais para a música brasileira”. Eu decorei a música, ensaiei e à noite eu fiz o programa dele. Não me lembro do nome dele. Casado com uma atriz, a Eliana, que já morreu também.
Daniel D’Angelo – Renato Murce?
Angela Maria – Renato Murce! Foi ele que me aconselhou a não cantar mais clássico. E eu cantei “Olhos verdes” e ganhei. [n.e. O radialista carioca Renato Floriano Murce (1900-1987), criador e apresentador do programa de calouros Papel carbono. Foi casado com a atriz Eliana Macedo (1926-1990)]
Pavan – Angela, você cantava o clássico pelo seu gosto pessoal…
Angela Maria – Eu cantava porque eu gostava, porque a minha irmã estudava o clássico e ela cantava música clássica, cantava na igreja. Antigamente na igreja tinha muito disso, de cantar aqueles hinos, com voz empostada. Então, eu cantava muito clássico.
Tacioli – Você chegou a gravar o repertório dessa época?
Angela Maria – Não, não, não. Depois de muitos anos, a pedido de um padre que eu esqueci o nome, que já morreu, eu gravei essas quatro “Ave-Marias”. Não foi nem para o Brasil, foi para a Espanha. Depois não gravei mais nada que tivesse a ver com o clássico, só música brasileira mesmo. [n.e. A pedido de Dom Helder Câmara, Angela Maria gravou com Os Canarinhos de Petrópolis, sob regência do Professor Antônio Silva, um EP de 45 rpm com as “Ave-Marias” de Bonaventura Somma, Dunshee de Abranches, Franz Schubert e Charles Gounod]

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