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Entrevistas de música brasileira

Angela Maria

Ângela Maria por Thaís Taverna

Angela Maria

parte 3/11

Gravo o que gosto

Lia Machado Alvim – Angela, a gente gosta muito de falar em gravação definitiva. A gravação definitiva de “Gente humilde”, acho que é consenso, é sua. Você já deixou de gravar alguma música que você gostasse porque você achou em algum momento que ela já teria uma gravação definitiva na voz de outra cantora?
Angela Maria – Eu já fiz isso. Eu já gravei música gravada pela Dalva. Era uma música definitiva gravada por ela, sucesso absoluto, mas eu gostei da música e gravei. Gravei o “Errei sim”, uma música dela, de muito sucesso, mas eu gostei de cantar a música, gostei da letra, da melodia. “Carinhoso” também é uma música que eu amo, eu adoro, que é do Pixinguinha; eu regravei também. Eu não tenho isso de dizer que não gravo música de ciclano ou beltrano porque ele já gravou, fez sucesso. Não interessa! Eu gravo o que eu gosto. E muita gente gosta daquela música gravada por mim. E aí acabo agradando gregos e troianos.
Tacioli – Angela, você recebe composições em casa de autores novos? Como isso funciona?
Angela Maria – Geralmente eu pego as músicas da gravadora, nem adianta. Ele (Thiago) pega as músicas pra mim, escuta, vou para a gravadora e escuto lá. Tem tudo gravadinho lá. Assim que é. Eles levam diretamente para a gravadora.
Tacioli – E qual é o espaço da música em sua casa quando você não está trabalhando, cantando?
Angela Maria – Eu escuto sempre. Eu tenho uma discoteca razoável, não é somente minha, não, mas de todos os colegas e, às vezes, de cantores que ninguém conhece, que ninguém sabe quem é, de músicos também tem gravações que eles me dão em shows, eu levo pra casa e escuto. Eu gosto de ouvir música.
Pavan – Ultimamente você tem ouvido o quê?
Angela Maria – Angela Maria. [risos] Porque eu tenho que decorar as músicas que eu gravei. [risos]
Pavan – Angela, qual é a lembrança musical mais remota que você tem?
Angela Maria – Lembrança musical mais remota?
Pavan – Sua mãe cantando, um rádio tocando uma música…
Angela Maria – Eu tenho da Elis! A Elis cantando “Vida de bailarina” comigo na TV lá do Rio, na TV Globo. Às vezes eles jogam isso no ar. Eu e a Elis. Uma lembrança gostava, uma lembrança muito boa.

Tacioli – E da infância, Angela, que lembrança musical da infância você guarda?
Angela Maria – Lembrança musical da infância eu não tenho não.
Tacioli – Não? E de sons da infância, você lembra?
Angela Maria – [com voz baixa] A minha infância não foi muito boa.
Lia Machado Alvim – Mesmo brincadeiras de rua?
Angela Maria – Não. [silencia]
Lia Machado Alvim – Angela, você falou da Elis. A Elis frequentou shows seus, ela tinha você como ídolo, e ela gravou coisas do seu repertório.
Angela Maria – Ela gravou “Vida de bailarina”. Foi essa música que ela gravou.
Lia Machado Alvim – Você gravou algo do repertório dela?
Angela Maria – Da Elis?
Thiago Marques Luiz – “Atrás da porta”.
Angela Maria – Da Elis eu gravei “Atrás da porta” e aquela música “Dois pra lá, dois pra cá”.
Thiago Marques Luiz – Ela cantou em um especial da Globo.
Angela Maria – É isso mesmo. Não foi só “Atrás da porta”, tem também “Adeus”, né? [canta] “Adeus / Vou para não voltar / E onde quer que eu vá / Sei que vou / Sozinha.”
Thiago Marques Luiz – “Pra dizer adeus”, do Edu Lobo. [n.e. Música de Edu Lobo e Torquato Neto lançada e gravada por Elis Regina em 1966. Angela Maria a gravou em 1970 no LP Angela de todos os temas, disco que tinha como faixa de abertura “Gente humilde”, além de contar com “Os argonautas”, de Caetano Veloso, e “Viola enluarada”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle]
Lia Machado Alvim – Você é tão romântica quanto suas músicas?
Angela Maria – Acho que eu sou mais. [risos] Eu sou mais! Deve ser por isso que as minhas músicas falam muito de amor.
Tacioli – Esse é um tema que predomina em seu repertório, né, Angela?
Angela Maria – É, amores vitoriosos, amores fracassados. [ri]
Tacioli – E você se lembra de outras músicas que fugiam desse repertório?
Angela Maria – Somente música de Carnaval. Eu gravei também muita música de Carnaval. Aí já mudava um pouco (o repertório), já era a Angela mais jovem, era a Angela foliona. [ri]
Tacioli – E a Angela foliana brincava o Carnaval?
Angela Maria – Não! Somente cantava! [ri]
Lia Machado Alvim – Na época, além das gravações, onde você cantava as músicas de Carnaval?
Angela Maria – No rádio, em clubes do Rio. Aqui em São Paulo eu nunca fiz Carnaval, somente no Rio. Todos aqueles clubes do Rio eu fiz Carnaval. E ganhei alguns carnavais também.
Lia Machado Alvim – Aqui, no Carnaval de São Paulo, você foi homenageada, né?
Angela Maria – Isso. Fui homenageada pela escola. A música que eles fizeram, com os temas das minhas músicas, com as letras dos meus sucessos, bom, eu coloquei a minha vida na avenida, e eles ganharam o Carnaval com isso. Com música, com enredo, com tudo.

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