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Entrevistas de música brasileira

Angela Maria

Ângela Maria por Thaís Taverna

Angela Maria

parte 2/11

Babalu foi um acontecimento raro

Tacioli – Angela, vou te mostrar uma coisa antes de começarmos. Ontem eu achei esse disco aqui…
Angela Maria – Humn, com o Waldir Calmon!
Tacioli – Isso!
Angela Maria – Pois é, Feito pra dançar. Esse disco é muito bom. Foi muito interessante como aconteceu essa gravação com o Waldir. A gente estava tirando o tom na Copacabana para fazer um disco. E ele estava gravando. Ele soube que eu estava na gravadora e pediu se eu podia participar de umas duas faixas… “Não sei, tem de falar com o chefão.” “Não, a Angela pode, se ela quiser participar, ela pode participar.” Então, eu entrei no disco dele fazendo duas músicas.
Angela Maria – (…) E foi um arraso!

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Thiago Marques Luiz – “Babalu” é daí, Angela?
Angela Maria – É! (…) Ele perguntou: “Você sabe a letra de ‘Babalu’, como começa? Eu conheço ‘Babalu’, mas não sei a letra.” Ele disse: “Eu vou tirar pra você. Você grava pra mim?” “Gravo.” Ele tirou a letra na hora e fomos para o estúdio ensaiar. Começamos a ensaiar, ensaiar, ensaiar, e no fim ele disse “Agora vamos gravar?”. “Vamos.””Então vamos fazer um último ensaio.” “Que tal se eu fizesse um vocalise enquanto vocês fazem o coro de ‘Babalu’?” [repete o vocalise] Aí ficou bonitinho e ele disse: “Que ótimo! Vamos fazer assim!”. Aí ensaiamos assim. “Agora vamos gravar!” Aí o técnico lá em cima disse: “Não precisa, não. Já foi gravado o ensaio! Saiu maravilhoso!” [risos]
Pavan – Quantas vezes você já cantou “Babalu”, Angela?
Angela Maria – Uns 10 milhões. [risos] Dez milhões de vezes, acho.
Pavan – E não cansa, não?
Angela Maria – Eu gravei em 1955 e canto até hoje.
Pavan – E não cansa?
Angela Maria – Cansar, cansa. Eu já mudei várias vezes a minha interpretação de “Babalu” para não cansar, mas já cansou.
Tacioli – Tem outras (músicas) que cansam também?
Angela Maria – Tem. “Gente humilde” eu não aguento mais cantar. “Ave Maria no morro” também. “Tango para Teresa”, “Garota solitária”, “Lábios de mel”. É que o povo pede, né?
Lia Machado Alvim – “Cinderela”.
Angela Maria – Aí eu tenho de cantar, e cantar bem.

Capa do álbum Quando os astros se encontram (1958), que traz pela primeira vez o registro de "Babalu" na voz de Angela Maria. Foto: reprodução

Max Eluard – Angela, você estava falando da gravação desse disco que, quase de uma maneira incidental, surgiu uma coisa que foi incorporada ao disco, com o técnico ali gravando. Você sente diferença como artista do processo de gravação analógico para o digital nas últimas gravações que você fez em estúdio?
Angela Maria – A diferença? É bem diferente, né? Antigamente a gente gravava assim: um microfone para o cantor e um microfone para a orquestra. É bem diferente, né? Hoje em dia tem um microfone para a cantora, aí toca um instrumento, por exemplo, grava um violino e aí vem depois e grava outro instrumento. É tudo diferente. Cada um tem a sua vez de gravar e não todo junto como era antigamente. Eu acho que a qualidade melhorou muito.
Lia Machado Alvim – Mas o fato de você estar no estúdio com os músicos, a sua emoção muda ou você consegue manter a mesma?
Angela Maria – Eu consigo manter a mesma, consigo. Aliás, eu acho até melhor, eu sozinha ali, somente com uma guitarra, um piano.
Lia Machado Alvim – Uma guia, né?
Angela Maria – É.
Pavan – Você tem uma discografia muito extensa, centenas de discos. Teve ano em que você gravou dezenas deles.
Angela Maria – Cento e dezesseis, né, Thiago?
Thiago Marques Luiz – Por aí.
Pavan – A sua discografia (completa)?
Angela Maria – É.
Pavan – Como era a sua rotina? Numa semana em um determinado dia você ia para o estúdio gravar, tinha uma agenda, um cronograma de gravação…? Como era?
Angela Maria – Eles marcavam: “Tal dia tem gravação!”. Era pra fazer quatro, cinco faixas, só que eu nunca quis gravar três ou quatro faixas, eu quero gravar o disco inteiro. Eu tinha compromisso fora da Copacabana, mas tinha que terminar (o contrato) com a Copacabana. Eu devia para a Copacabana dois LPs: um de bolero e outro de fados e tangos. Eu tive de conseguir esses tangos, boleros e fados em poucos dias, letra e música, e gravar em uma semana esses dois LPs. E eu gravei.
Lia Machado Alvim – Quem escolhe o repertório numa hora dessa?
Angela Maria – Eu mesma
Lia Machado Alvim – Você?
Angela Maria – Eu mesma. Às vezes, é claro, pego opinião do meu produtor ou do meu diretor, marido e produtor Daniel. Eles sempre me dão uma opinião, “Essa vai ser boa, essa vai ser sucesso, essa não vai!”. Como aconteceu nesse último disco que nós fizemos agora, nesse último CD com o Cauby Peixoto, demos um pouco de trabalho ao Thiago, porque ele escolheu uma porção de músicas, aí fomos ouvir as músicas, eu e o Cauby, algumas músicas eu gostei, outras mais ou menos, e outras, não, e ele (Cauby) achou que estava tudo certo para gravar. [risos] Depois eu disse que não gostei e ele ficou louco! [ri] Mas, mesmo assim, eu gravei e deu certo, as músicas geralmente depois de gravadas e interpretadas pelo Cauby ficam muito bonitas, com arranjos do Daniel, muito bem feito, muito bonito, e o disco está fazendo sucesso. Às vezes é bom a gente ouvir a opinião de outros, nem sempre a gente está certo. Eu aprendi isso: tem de ouvir a opinião de outros também, que são ouvintes.
Tacioli – Que outros momentos você lembra na sua trajetória que a opinião dos outros tinha razão confirmada pelo tempo?
Angela Maria – Até então a minha opinião sempre prevaleceu. Eu sempre tive razão, porque esses sucessos que eu fiz foram todos sucessos escolhidos por mim. Fui na gravadora e disse “Vou gravar isso” e eles não falavam nada, “se você acha que ai dar certo, quem somos, vamos gravar”, como “Lábios de mel”, “Orgulho”, “Vida de bailarina” e “Babalu”, e “Babalu” foi um acontecimento raro. Eu fui atender a um pedido de um colega, de um amigo, e pra mim se fizesse sucesso ou não não tinha problema porque o disco não era meu, era dele, mas arrebentou, tanto que depois eu tive que passar para uma disco meu. “Ave Maria no morro”, todas essas músicas foram eu que escolhi.
Max Eluard – E para essas escolhas você era guiada pelo o quê, pelo feeling, pelo desejo de cantar, por uma questão técnica? O que você levava em consideração?
Angela Maria – Eu escuto a música, gosto da letra, sinto muito a letra e a melodia como se fossem uma coisa feita pra mim, como aconteceu com “Gente humilde”. Eu estava escolhendo o repertório pra fazer um LP e fui ouvir umas gravações do Chico (Buarque). Estava ouvindo na própria gravadora, na Copacabana. E eu ouvi a última gravação dele, que era “Gente humilde”. “Nossa, essa música é minha! É linda demais! A letra parece comigo, é quase a minha história, vou gravá-la!” Gravei e foi aquele sucesso! E até hoje!
Tacioli – Que é do Garoto, com letra do Vinicius e do Chico, né?
Angela Maria – É, Garoto, Chico e Vinicius.
Tacioli – Você conheceu o Garoto?
Angela Maria – Conheci na Rádio Nacional.
Tacioli – Como ele era?
Angela Maria – Uma pessoa muito tímida; ele era muito educado, muito triste. Mas, assim, nos corredores, na hora do programa, ele não falava muito, era quietão.
Tacioli – Tocava bem?
Angela Maria – Muito! [risos]
Pavan – Vocês trabalharam juntos?
Angela Maria – Não, somente na Rádio Nacional.

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