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Entrevistas de música brasileira

Angela Maria

Ângela Maria por Thaís Taverna

Angela Maria

parte 10/11

Não acredito que sou eu cantando

Pavan – Você ainda tem algum sonho na música não realizado? Ou algum cantor com quem você gostaria de ter gravado e, infelizmente, não deu tempo, ou um compositor que você gostaria de ter gravado…
Angela Maria – Ah, meu filho, você diz cantar com ele? Já cantei com todo mundo, até com o Roberto. Já cantei com todos eles, menos com os novos de agora que estão aparecendo. Mas, fora isso, já cantei com todos os cantores. Com Altemar, com Roberto, com Timóteo, com Cauby. Tem mais, mas eu não me lembro no momento.
Tacioli – João Bosco também.
Angela Maria – Também. [ri] “Miss Suéter”. [ri] [n.e. Angela divide os vocais com João Bosco na composição dele com Aldir Blanc e integrante do álbum Galos de briga, de 1976]
Lia Machado Alvim – Aliás, o repertório do João Bosco cai como uma luva pra você. Não tem muita coisa dele que tem a ver com você?
Angela Maria – “Miss Suéter”. Foi muito engraçado. Ele pediu para eu fazer esse número com ele. Ele começou tocando violão e eu tenho essas loucuras, aí invento as coisas na hora e, de repente, agrada, a pessoa gosta. Ele começou a cantar e quando passou a solar o violão aí eu entrei com aquela voz. Ele falou: “Que legal!”. “Posso fazer isso?!” “Pode fazer, vai ficar lindo!” Aí nos fizemos. Como em “Babalu” também. Foi a mesma coisa. Seria (canta): “Babalu / Babalu”. Só isso e eu achei chato. “Vou entrar com alguma coisa aí por cima” e aí foi, entrei fazendo vocalise. Ficou bonito, ficou ótimo! Tem que inventar!

Pavan – Essas ideias surgem de repente?
Angela Maria – De repente.
Lia Machado Alvim – Com o Disco de ouro você gravou músicas que nunca tinha gravado mas que já estavam por aí tocando há muito tempo. Foi gostoso tomar pra si esse repertório? Você cantou Djavan, Melodia…
Angela Maria – Foi gostoso, foi muito bom.
Tacioli – Angela, olhando para a sua discografia, quais discos ou momentos você percebe que tem voos mais ousados em relação ao seu estilo, àquilo que você sempre gravou?
Angela Maria – Eu tenho gravações que às vezes não acredito que sou eu (cantando). “Mas eu fiz isso?! Impossível! Eu não acredito, meu Deus, como eu tive coragem de fazer isso?!” Coisa bem feita, tão bem feita, tão perfeita que não acredito que fui eu que fiz. “Será que se eu for fazer isso eu faço exatamente igual? Não!”
Tacioli – Você se lembra de alguma?
Angela Maria – Eu me lembro de uma gravação, de um vídeo, um DVD que está lá em casa que o meu fã clube do Facebook mandou pra mim. Escreveram assim: “Você é uma louca. Olha o que você fazia com a voz!”. O Daniel às vezes ouvindo as minhas músicas, as minhas gravações antigas, ele diz que eu era uma doida pela maneira como eu cantava. “Mas que loucura, como se faz isso com a voz?!” Eu também fico boba como eu fazia tudo aquilo. Ainda bem que era bem feito, pior se não fosse. [risos]
Tacioli – Eu ouvi há pouco uma gravação chamada “Estereofonia”.
Angela Maria – Essa é outra loucura, em que eu faço jazz, né?
Tacioli – É, um samba-jazz.
Angela Maria – Doida, completamente.
Tacioli – Mas essas loucuras não te atraiam para fazer um disco assim?
Angela Maria – Na época, sim, mas agora, não. Essa (“Estereofonia”) foi uma das minhas loucuras, a começar pelo nome, né? Muito louca essa gravação. [n.e. “Estereofonia” é uma versão assinada por Hélio Justo para “Stéréophonie”, de Buck Bentley e Eddy Marnay, e gravada no álbum Angela a maior Maria, de 1964]

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