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Entrevistas de música brasileira

Angela Maria

Ângela Maria por Thaís Taverna

Angela Maria

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O samba de cada dia

O porteiro bem que desconfiou. Acompanhada do marido, ela entrou no condomínio e seguiu até o elevador. Uma das cantoras mais populares do Brasil, Angela Maria se dirigia para mais uma entrevista. Poder repetir sua história com o frescor de quem a conta pela primeira vez fazia parte do pacote que havia aceitado décadas atrás: o de ser artista. E assim, prestes a estrear um novo espetáculo aos 84 anos de idade, um enxuto “voz e violão”, inédito em sua trajetória, Angela Maria comentou suas lembranças e cedeu ao silêncio as respostas que não vieram.

Admiradora de Dalva de Oliveira (1917-1972), a quem imitava no começo da vida profissional, Angela Maria não se cansa de afirmar que o seu estilo é o romântico. Seu extenso patrimônio musical de sambas-canções, tangos, boleros e baladas sempre foi alvo de diferentes avaliações. Sua fase de ouro foi a década de 1950 e início da seguinte. No auge de sua voz potente e delicada, a intérprete nascida em Conceição de Macabu (RJ), em 1929, acumulou todos os louros que uma artista poderia sonhar: sucesso já no primeiro disco (1951), adorada pelo público e crítica, rica e bonita. Um período em que era imbatível, com registros tão diversos que incluíam Dorival Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Vinicius e Tom Jobim, de quem foi uma das primeiras a gravar, como também Othon Russo, Waldir Rocha e Chocolate. Naquele tempo, não havia espaço para Elizeth Cardoso, Dalva ou Marlene, a voz era a de Angela Maria. Foi a última grande intérprete popularizada exclusivamente pelo rádio.

Já a partir dos anos 1960, a música brasileira deu uma pirueta com a bossa nova, o rock e os festivais, valorizaram-se outros cantos, gêneros e ídolos. Angela continuou sua trilha romântica, exacerbada por meio de autores vitoriosos, como Adelino Moreira. Sua música passou a ser considerada cafona. Salvaram-se gravações de “Gente humilde” (Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque) e “Tango pra Teresa” (Evaldo Gouveia e Jair Amorim), além de seus primeiros discos em duo, um com o discípulo e seu ex-chofer Agnaldo Timóteo, e outro com o amigo Cauby Peixoto.

Mas para chegar ao sucesso, Angela pagou caro por seu pioneirismo profissional. Filha de pastor batista e dona de casa, acumulou surras ao fugir da escola e da igreja para ir às rádios cantar em programas de calouros. Buscando sua independência, tentou se manter com ofícios diversos, como o de tecelã e inspetora de lâmpadas em uma fábrica da General Electric. Já consagrada, Angela Maria também recebeu outros crediários: enfrentou uma série de casamentos frustrados e se viu enganada por empresários e produtores. Somente no início da década de 1980, ao conhecer Daniel D’Angelo, um rapaz 30 anos mais novo, sua vida sentimental e financeira se aprumaram.

Sessenta anos depois de ser coroada Rainha do Rádio, Angela Maria vencia mais um dia de trabalho: na Zona Oeste paulistana, encarou um bate-papo com a equipe do Gafieiras, que incluía a radialista Lia Machado Alvim, o jornalista Alexandre Pavan e a fotógrafa Thaís Taverna. O ponto final dessa entrevista foi dado pelo porteiro logo após o táxi partir para a Zona Sul. “Era a Angela Maria?”. Para manter a coroa, a menina que fascinou Ary Barroso tem de sambar todo dia.

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