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Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 8/26

Uma laranja em cima de um tubo de ensaio vira obra de arte

Tacioli – Você não acha que essa visão da arte e do mundo que você tem pode esbaçar seu poder crítico, tanto para se criar, quanto para se colocar dentro de um meio?
Abujamra – Eu acho que tudo na vida tem um limite. Eu não vou pedir para o Chitãozinho & Xororó fazer o que eles quiserem, porque vai dar merda, pra eles mesmos. Pra mim você pode pedir, entendeu? Porque eu já nasci com essa coisa. Então, o que eu quero dizer é que não vai me atrapalhar porque eu já vivo assim. Mas há limites. É claro que você não vai pedir para uma pessoa como o Karajan [n.e.Herbert Von Karajan, 1908-1989, um dos maestros mais famosos da música clássica] fazer uma disco music. Ele não vai conseguir, porque não nasceu pra isso. Ele nasceu para outra coisa. É por isso que existe muito racismo, muito preconceito, porque existe muito o jeito que a pessoa nasceu pra ser. Você nasceu pra ser… O que você faz além do Gafieiras?
Tacioli – [silêncio] Boa pergunta. [risos]
Abujamra – Ué, você escreve, e isso é seu. A resposta da sua pergunta é: tudo tem um limite. Essa crítica que você falou vai existir na criação se isso ficar um bundalelê, porque mesmo o meu bundalelê não é um bundalelê, é um bundalelê descoberto. A minha não-ciência tem uma ciência animal por trás, tem escopo. Modéstia à parte, eu estudei muito. Não é gratuito. Acho que nada é gratuito, não pode ser, nada é por acaso. Tem que ter um limite, não é uma festa na floresta.
Tacioli – Existe muita coisa gratuita.
Abujamra – Existe, é claro que existe.
Tacioli – E você identifica isso?
Abujamra – Ô. Muito, muito. Uma vez eu fui a Nova York no Guggenheim, museu de arte moderna. Você já foram lá? E um dia antes eu fui ao Metropolitan, no Museu, que é maravilhoso. Eu chorava! Via Van Gogh e chorava! Você vê a tinta, a mão do cara está ali. Aí eu fui no Museu de Arte Moderno. Meu, achei tudo uma bosta, tudo uma merda! [risos] Sabe, uma laranja em cima de um tubo de ensaio vira uma obra de arte. Eu achei uma merda! E, de repente, vi um negócio estranhíssimo, que era um móbile muito estranho. “Nossa, que coisa bonita!”, e era tão estranho quanto as outras. E eu cheguei perto, olhei e… “Pablo Picasso”. Eu tinha achado bonito sem saber que era dele. Então, nada é gratuito. Você vê que atrás daquela coisa esquisita do Pablo – ele já tinha pintado coisas tão legais antes. No começo da carreira, ele pintava coisas realistas. E chegou uma hora em que falou “Pô, vou destruir tudo isso daqui!” E tem as “Cinco Meninas de Veneza”, vocês conhecem esse quadro? São cinco mulheres que ele começa a pintar de forma realista, mas quando chega no meio do quadro, começa a destorcê-las. É lindo aquilo! É seu momento de transição. Parece até que estou me gabando, mas não sou Pablo Picasso, não sou Prokof’ev, não sou nada, mas estudei bastante, nasci músico, escrevi muita partitura, estudei muita guitarra pra eu falar “Meu, não é a minha. A minha viagem é o Fat Marley. A minha viagem é o Karnak. É poesia.” Essa é a minha viagem.
Almeida – André…
Abujamra – Vocês querem água?
Almeida – Eu quero.
Abujamra – Vamos parar um pouquinho…
Tacioli – Sim, sim…

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