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Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 7/26

Eu queria ter feito a ‘Eguinha Pocotó’!

Tacioli – Mas quando você diz que gosta da Sandy & Junior, o que é gostar? É pegar o disco e curti-lo ou é simplesmente respeitá-lo?
Abujamra – Não, eu gosto. Mas o meu gostar como músico… se você fosse minha namorada, você iria me bater, porque quando a gente fosse ouvir uma música, eu escutaria cinco segundos dela apenas. Eu não consigo curtir… Nada! Eu não tenho som. Eu tenho aqui 500 milhões de MP3 e não tenho uma música inteira. Não escuto uma música do começo ao fim. Não vou jantar em restaurante que tenha música ambiente. A minha relação com música deve ser diferente da sua. Não posso transar ouvindo música. Música é uma coisa muito louca pra mim. É claro que existem casos e casos. Não vou pegar um disco da Sandy & Junior e escutar. Caras que eu amo, como o Zeca Pagodinho, não pego o disco deles para escutar.
Tacioli – E em shows, como é sua relação?
Abujamra – Eu fico assim, parado. Podem estar os Tribalistas, pode estar todo mundo pulando, mas eu fico assim, parado… “Legal o timbre da guitarra, o baixo…”. Sou um pentelho! Um dia a minha ex-mulher disse que eu estava surdo, que eu estava falando muito alto. “Vá fazer um teste de audiometria!” Aí, o resultado… Tenho ouvido de neném. [risos] Era perfeito! Então, eu treino muito o ouvido como um atleta treina correndo. Sou muito obsessivo – a palavra não é obsessivo… Se você fosse um pintor, você não veria um quadro somente, veria a tinta usada… Eu sou assim… Você não é fotógrafo? Você olha uma fotografia somente pela fotografia? Há filmes em que consigo… Daí eu amo e falo “Esse é o filme da minha vida!” Delicatessen [n.e. Filme de 1991 dirigido por Jean Pierre Jeunet e Marc Caro ], por exemplo. Nesse eu consegui entrar com tudo. Não fiquei “Ah! O figurino não-sei-o-quê, que coreografia mal feita…” Há coisas que eu lembro mesmo, aí é top de linha pra mim…
Rosselli – Cite mais um.
Abujamra – Era uma vez na América [n.e. Último filme de Sérgio Leone, com Robert de Niro encabeçando o elenco]. Tem quatro horas e você quer mais. Mas isso é raro pra mim. Apesar de ser um anarquista, eu me considero um pentelho com arte.
Tacioli – E nacional?
Abujamra – Nacional… Olha, todos os que faço eu não odeio. [risos] Porque você tem que entrar para poder fazer. Dos que eu fiz, o que eu mais gosto é o Ação entre amigos [n.e. Segundo longa do cineasta Beto Brant, lançado em 1998]. Tecnicamente é um filme muito legal. Do Glauber Rocha eu gosto de tudo. Gosto de tudo que incomoda no começo e depois fica lindo. Por exemplo, a primeira vez que eu coloquei para tocar o Õ blésq blom, disco dos Titãs, falei, “Que disco chato!”. Aí tive vontade de ouvir de novo. E hoje a coisa que eu mais gosto deles é o Õ blésq blom. É que nem sushi. Quem gosta de sushi? Você não gosta? Eu odiava também. Aí, um dia eu falei, “Vou experimentar de novo!”. “Nossa, é muito ruim, cara!” [risos] E hoje não consigo viver sem comer comida japonesa. Isso é legal, porque eu vou morrer e vou querer um sushi ou um sashimi. Eu entendo quando você fala da Sandy & Junior. Eu tento defendê-los ou algumas coisas que não são destribificadas. É claro que eu não pego um disco da Sandy & Junior e escuto. É claro. Mas eu acho que existem coisas legais neles… Eu acho o menino foda, ele está tocando agora com o Davi Moraes [n.e.Guitarrista, cantor e compositor, filho de Moraes Moreira e atual marido de Ivete Sangalo]. Ele é um menino legal. Eu os conheci. Eles não estão brincando, não estão mais… As pessoas me matam, mas vocês conhecem essa eguinha pocotó? Eu acho muito legal, cara, me desculpa.
Tacioli – O que é legal na “Eguinha”?
Abujamra – O ritmo, o som, o jeito, o timbre da voz do cara, a autenticidade da Lacraia… Eu gosto, desculpa, não me batam, mas eu gosto. É claro que eu acho o funk carioca uma merda porque incita o sexo, incita a violência. Eu não estou generalizando o funk, mas essa musiquinha do pocotó é o máximo. Eu queria ter feito isso aí! [risos] Mas eu entendi a sua pergunta… A minha resposta é: achar coisas belas em coisas feias.

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