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Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 6/26

Inventei um verbo: destribificar!

Max Eluard – Pra você, o que importa a música?
Abujamra – Eu respeito música porque respiro música. Eu, com três anos de idade, escutava uma sinfonia do Prokofiev [n.e. Sergey Prokofiev, 1891-1953, compositor erudito russo autor da ópera Guerra e paz e das trilhas sonoras de dois filmes do diretor Serguei Eisenstein, Alexandre Nevsky e Ivan, o Terrível] e já conhecia, sinceramente. Estudei na Faculdade de Música Erudita, e os caras lá são muito pentelhos. Eu não sabia escrever direito uma partitura e fiz uma música para quarteto de cordas. Aí o diretor da orquestra falou, “Está muito mal escrita!” “Eu não sei escrever, mas escute a música!” Aí a orquestra, bem ou mal, escutou e tocou, e a música era bonita. Então, eu tenho um pouco de rancor com música erudita e com todo músico que quer ser, quer estudar… Meu, tem que sair do coração! Pra mim música é como ler um livro e se emocionar, ou ver um filme e se emocionar. É isso pra mim! A minha anarquia não é porra-louca, não é um caos desorganizado. É uma anarquia pensada, sabe? Eu quero que as pessoas se emocionem… Quero transmitir amor, beleza… Estou cagando pra nego que diz que eu tenho que fazer isso ou aquilo… Tem que fazer o que quiser. Tem tanta gente diferente, meu! Eu odeio pimentão, mas de repente você gosta. Então, não quer dizer que pimentão é ruim, quer dizer apenas que eu não gosto. Eu tenho que tomar muito cuidado, tenho que lutar contra o preconceito. Sou muito mais arquiteto do que músico. Mas é muito perigoso eu falar desse meu anarquismo. É muito perigoso porque as pessoas acham que eu sou um porra-louca. Eu não sou um porra-louca. Sei muito bem onde estou pisando, sei muito bem o que eu faço da vida, eu sei pra quê eu faço música… O que importa é fazer a pessoa feliz…
Tacioli – Esse é o papel da música?
Abujamra – Da música, não! Da arte. Esse é o papel do ser humano. Pra mim, o papel do ser humano é tentar não ter preconceito, mas isso é impossível. Todo mundo tem preconceito… Preconceito de preto, de bicha, de gordo, de puta, de amarelo, de azul, de branco. Todo mundo tem preconceito. Isso é uma coisa contra a qual eu luto. Como é que eu luto na música? Meu, vou mostrar pra vocês aqui meus MP3. Vocês vão chapar, porque tem de tudo, música búlgara com country, com coisas como a “Éguinha Pocotó” [n.e. Funk carioca de muito sucesso lançado pela dupla MC Serginho e Lacraia]. Eu escuto de tudo mesmo! Não tenho preconceito. Escuto e misturo tudo! E não sou Frankstein!. Sou paulista e gosto! [risos] Gosto dessas coisas mesmo e gosto de misturar. E acho que o papel do ser humano é conviver com as pessoas. Eu inventei um verbo que eu tenho falado em tudo quanto é entrevista. É “destribificar”. O que quer dizer? Vocês sabem o que é isso? Por exemplo, você é punk, e o outro cara gosta de country. Esse daqui gosta somente de rock and roll. Então, a sua tribo é o rock, a dele é o punk e a do outro é o country. Destribificar é tirar um pouquinho a sua tribo e olhar para a do outro, e ver coisas que você gosta nessa tribo. O punk, de repente, tem um timbre que você pode utilizar… Isso é destribificar! Eu penso muito nisso e vendo esse texto.
Rosselli – Mas isso é uma tendência musical, né?
Abujamra – É, mas as pessoas não destribificam a cabeça. Tem que ir mais além. Por exemplo: eu adoro Sandy & Junior. Claro, não gosto muito da música que eles fazem, não gosto muito do jeito que eles são vendidos, não-sei-o-quê, mas a menina é afinada, tem uma cara bonita, é interessante, o menino toca… Então, você sempre tem que achar coisas bonitas em coisas feias, e achar coisas feias em coisas bonitas. Porque se você fosse simétrico, se seu lado direito fosse idêntico ao esquerdo, você seria feio pra caralho! A gente é bonito pela diferença. Esse lado aqui é diferente desse. Eu fui ver As horas [n.e. Filme dirigido por Stephen Daldry e lançado em 2002 com Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep], com a Nicole Kidman… Alguém viu?
Almeida – Eu fui.
Abujamra – Eu odiei, odiei. Falei para minha mulher, “Eu não vou agüentar, preciso ver alguma coisa…”. E ali tinha uma direção de arte estupenda, maravilhosa. Aí comecei a ver o filme e a gostar dele pela direção de arte. Então, vi alguma coisa bonita naquele filme. Vou ver X-Men [n.e. Filme de Bryan Singer baseado em personagens de quadrinhos e lançado em 2000, com uma seqüência em 2003], vou ver filme francês de cinco horas, vou ver tudo. Sempre consigo ver coisas boas. E a gente tem que ver coisas boas em coisas ruins.

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