gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 4/26

O orixá que me guia é o da transformação

Almeida – Você é um cara que trabalha em muitas frentes. Em algum momento isso te angustiou?
Abujamra – No final dos Mulheres Negras, a gente teve uma crise… O Mauricio Pereira é Escorpião com Escorpião, e eu sou Touro com Gêmeos. Tenho o pé no chão com a cabeça na Lua. Sou bem louco mas tenho o pé no chão. E o Mauricio, não. O Mauricio é um cara predestinado. Então, o Mulheres Negras era a vida dele. Era a minha vida, mas eu queria fazer trilha de teatro, queria pintar um quadro, queria fazer tudo. Isso me angustiou bastante, mas me descobri com a minha religião. A minha religião é o candomblé. Eu sou do candomblé. E cada pessoa no candomblé é regido por um orixá. O meu orixá é o Obaluaiê, aquele cara que tem as palhas…
Almeida – Aquele que era leproso?
Abujamra – É. Essse aí. Aquele é o orixá que me guia, é o meu pai, vamos supor. O seu deve ser Oxossi, e assim por diante. Cada um tem um orixá. E no candomblé comecei a estudar sobre isso e vi que o orixá que me guia é o orixá da transformação. Todo filho de Obaluaiê não consegue fazer somente uma coisa. Todo mundo. Se um dia você conhecer alguém de Obaluaiê, vai ver que ela gosta de pintar, namorar – namorar todo mundo gosta -, fazer vídeo, DVD, fazer um filme. Estou escrevendo um longa! Quando descobri isso, passei a relaxar, porque até então eu ficava “Aí, eu estou usando minha energia pra…”, mas depois falei, “Não, minha vida é essa!”. Vou contar uma história muito legal pra vocês. Se pedirem para eu fazer um castelo, eu vou fazer. Vou ligar para os caras que sabem fazer castelo e vou construir. Sou assim. Se pedir para eu fazer um negócio e tiver uma graninha, eu faço. É a história do puddle. Quando fui fazer o clipe do Charlie Brown Jr. – os caras me chamaram porque eu havia feito os do Karnak… Eles falaram, “Você quer fazer um clipe?”, “Quero!”. Um negócio meio profissional, eu não tinha muito a manha. Aí vem a história do puddle, que é assim: um cara muito rico, muito rico, que viajava demais, chegou e falou pra sua mulher, “Vou viajar para o Rio de Janeiro. O que você quer?”. “Eu quero um puddle!”. Aí ele foi para o Rio, para uma reunião de negócios. “Olha, vou para a reunião e você vai comprar um puddle para a minha mulher. Às 17h a gente se encontra aqui no aeroporto e volta para São Paulo’” E às cinco horas todo mundo se encontrou. “Cadê o puddle?!” “Não achei o puddle, meu!” “Puta, minha mulher vai me matar! A gente tem que comprar um puddle!” Aí tinha um judeuzinho escutando. Ele olhou e falou, “Eu tenho a melhor puddle pra vender pro senhor!” “É, é!” “É, mas custa muito caro!” “Quanto custa?!” “Trinta mil reais!” “Porra, mas é caro pra…” “Mas é a melhor puddle!” Aí o cara, rico pra caralho, falou, “Então vá pegar esse puddle!” “Um minuto. Vou até o morro de Santa Teresa e já volto!” Pegou um táxi, foi até o morro, bateu na porta da casa do irmão e “Jacob, Jacob!” “Que foi, que foi, Isaac?!” “Fiz o melhor negócio de nossas vidas! Vendi uma puddle por 30 mil reais!” “Que marravilha!” “‘Só tem um problema!” “O quê?” “O que é uma puddle?!” [risos] Quero dizer, eu vivo um pouco assim. Vamos lá, eu não sei pintar um quadro, mas a capa do Fat Marley foi um quadro que eu pintei. Mas a resposta para a sua pergunta é: eu descobri que eu posso fazer tudo. No começo eu ficava meio angustiado porque pensava que não iria fazer nada direito. Inclusive, uma das crises que eu tive com o Mauricio Pereira foi essa, porque ele falava “Você não está 100%”, e eu estava. Só que eu tava do meu jeito e ele do jeito dele. Tanto é que quando a gente faz show dos Mulheres, a gente não se encontra, não ensaia, e o show é maravilhoso.
Rosselli – E como vocês utilizam a tecnologia hoje?
Abujamra – A gente usa tudo velho. Tudo velho! Claro que tem um momento em que eu pego o laptop e faço uns arranjos modernos, mas mais para o fim do show. Mas é aquele velho equipamento, o cenário é um montão de fio… A gente está como antigamente… chapéu furado.

Tags
André Abujamra
Os Mulheres Negras
de 26