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Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 3/26

Descobri que posso fazer tudo

Max Eluard – Então, André, você começou muito cedo e muito novo nos Mulheres. Quantos anos você tinha?
Abujamra – Puta, nos Mulheres eu tinha 21, 22 anos, cara.
Rosselli – Alguém já assistiu aos Mulheres ao vivo? Eu ia sempre aos shows de vocês no Mambembe, no Paraíso.
Abujamra – Que legal. Naquele teatro, né?
Rosselli – Eu tinha uma amiga que era louca por você! Íamos sempre porque ela gostava de você.
Abujamra –
Porra, ela era gostosa? [risos]
Rosselli – Gostosa, gostosa.
Abujamra – E eu me achava tão feio. Vejam como é a vida! Eu com o barrigão pra fora. [risos]
Rosselli – Ela tinha uma demo de vocês, uma fita.
Abujamra – Era pirata oficial.
Max Eluard – Eu tinha uma pirata também de um show de vocês na 89. [n.e. Rádio FM cuja sintonia é 89,1 e que se intitula a Rádio Rock]
Abujamra – Nossa, nesse show da 89 ligou um cara ao vivo e falou, “Porra, tira essa merda daí!”. [risos]
Almeida – Era o Max! [risos]
Rosselli – Foi ele!
Abujamra – Você tem essa fita?
Max Eluard – Cara, faz muito tempo que não a vejo, mas acho que eu ainda a tenho.
Abujamra – Putz! Que legal!
Max Eluard – Tem uma hora muito engraçada, quando o locutor falava com o Mauricio e vira pra você e “Então, viu o…”, e você, “Pô, o cara não sabe nem o meu nome!”. [risos]
Abujamra – Eu não lembro dessa história.
Max Eluard – Mas nessa época o Mulheres era muito intuitivo?
Abujamra – Olha, a intuição permeia minha vida, não somente com música, mas com tudo. As pessoas têm que usar a intuição para viver. Quando eu tinha 3 anos de idade entrei numa escola de música. Então, posso ser intuitivo com a arte. As pessoas que são somente intuitivas, quebram um pouco a perna. Existe a ciência. Eu odiava o Stravinski [n.e. Igor Stravinski, 1882-1971, compositor erudito russo autor de obras tão célebres quanto polêmicas em sua época, tais como “Pássaro de fogo” e “A sagração da primavera”], odiava. Aí, uma vez na faculdade tive que dissertar sobre a Sagração da Primavera, do Stravinski. Aí fiquei um ano inteiro estudando Stravinski. Quando acabou o ano, eu disse, “Esse cara é maravilhoso!”. Aí comecei a descobrir que a ciência e a técnica trazem também a beleza artística, trazem também a intuição. Sempre trabalhei com a intuição, mas também sempre estudei pra caralho. No começo da minha carreira, eu era um guitarrista que estudava 8 horas por dia. Hoje eu cago para a guitarra. Hoje eu cago para o estudo, mas eu já estudei muito. E acho que continuo estudando. Isso que estou fazendo da não-técnica é um estudo também. Eu falo pra caralho! Vocês me cortem…
Rosselli – Hoje em dia, é um ócio criativo?
Abujamra – Total. Eu preciso do nada. Eu preciso transar com a minha mulher na montanha. E quando volto da montanha, tenho 5 novas músicas na cabeça. Quando estou aqui, estou trampando.
Almeida – Mas, André, você não pára, como tem esse tempo pra meditar, refletir?
Abujamra – Eu paro, sim, eu paro. Eu consigo me dar essas coisas. Não é sempre, né? Mas de 15 em 15 dias, meu filho fica o fim de semana inteiro comigo. Eu raramente trabalho. Fico com ele. Cuido do Floquinho, que é o cachorro dele. As coisas não são assim… Eu não paro para quem é de fora, mas para quem é de dentro… Sou preguiçoso pra cacete! Nada como um DVD, uma pipoca e um – agora estou de regime [risos] – chocolate em volta da cama. E o nada! Eu preciso disso. Qualquer pessoa precisa disso.

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Os Mulheres Negras
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