gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 2/26

O Babenco te deixa nas trevas pra você criar melhor

Almeida – André, falando em sobra de música e que não foi aceita, como foi trabalhar com o Babenco? Não deve ter sido fácil, não.
Abujamra – Cara, não foi fácil trabalhar com ele porque tem gente que te faz trabalhar pelo sofrimento. Eu sofri muito para trabalhar com ele. A primeira trilha que eu mandei, ele olhou pra mim e falou “Essa trilha está uma merda!”. Bicho, eu tenho ego também, sou artista! Quem não é artista tem ego, quem é tem ainda mais. Eu fiquei puto, mas respirei fundo e falei “Vou até o fim. Carandiru [n.e. Filme do cineasta Hector Babenco lançado em 2003 e baseado no livro Estação Carandiru, de Dráuzio Varella] é um trabalho importante pra mim.” E no decorrer eu saquei que o negócio dele é te deixar lá nas trevas pra você criar melhor. É verdade, fiz um trabalho bonito. Não concordo muito, mas participei disso. Como artista, como ser humano, você tem que experimentar de tudo na vida. Eu experimentei em ir até o fundo do poço para criar. Pra mim, criar é uma brincadeira, é conversar com vocês aqui… É tudo na leveza. Com o Babenco foi no pesado. Não estou falando mal dele, estou falando que o processo de trabalho dele é um negócio mais duro. O cara mais velho, quase morreu, então é um negócio pesado, é um negócio difícil. O resultado ficou leve, mas o processo foi pesado.
Almeida – E isso foi longo?
Abujamra – Cinco meses, cara!
Almeida – E normalmente leva quanto tempo?
Abujamra – Eu fiz o filme do Vicente Amorim em 40 dias [n.e. Caminho das Nuvens, com Claudia Abreu e Wagner Moura]. Gravei orquestra, gravei todos os instrumentos, fiz tudo. Foi um vômito! Geralmente em um longa-metragem levo um mês e meio, dois, três meses até. É um trampo fazer longa-metragem, um puta trampo! Não são 30 segundos. São duas horas, meu!
Almeida – Perguntei isso porque ficou muito claro, principalmente depois da gravação do DVD do Mauricio Pereira em que a gente fez junto [n.e. Gravação no Itaú Cultural, realizada em junho de 2003 em São Paulo, do show “Canções que um dia você já assobiou – Volume 1”, baseado em disco homônimo de Mauricio Pereira], ops, que você dirigiu…
Abujamra – Que a gente fez junto…
Almeida – [ri] E me pareceu isso mesmo, já que você estava fazendo o show do Fat Marley na FNAC com o DVD do Mauricio, e tudo num astral…
Abujamra – Tá tudo bem, cara. A disciplina e o exercício, a disciplina e o esmero – trabalhar, estudar – são muito importantes. Apesar de ser jovem, estou na carreira desde que nasci. Eu posso me considerar uma puta velha, porque quando você já sabe o que quer, e já estudou e trabalhou muito, relaxa e deixa as coisas fluirem. Eu não te conhecia, não conhecia ninguém que estava filmando o DVD, e você, “Meu, o que eu faço?!” Olhei pra você e “Faça o que quiser”. Já olhei na sua cara, já sabia que com seis câmeras lá, mesmo que você fosse um bosta, 10 segundos da sua imagem eu iria pegar. Claro, tenho rabo com a vida, eu sabia que você não era um bosta, mas se eu chegasse pra você e falasse, “Não, eu quero que você…”. Você iria ficar tenso, eu iria ficar tenso, todo mundo iria ficar tenso, e a gente não iria conseguir fazer nada. Então, tem que relaxar, tem que deixar fluir. Quando é do metier da pessoa, não tem problema, cara. Não sei se vocês foram ver o show do Fat Marley… [n.e. Personagem criado por Abujamra que participou do filme Durval Discos e lançou o disco New old world/Future sun] O Fat Marley é um exercício de liberdade em que as pessoas ficam extremamente presas. Chegou o baterista, o baixista, o DJ, que é o Juliano. Tem sempre uma base pronta, mas na hora do show, os caras perguntam, “O que eu faço?” “O que você quiser! Como você quiser! E quando você quiser!” Se você dá essa liberdade para a pessoa, bicho, ela fica extremamente sem liberdade. [risos] Se você chegar para uma gostosa e ela falar assim, “Faz o que você quiser comigo!”, você não sabe nem por onde começar. Mas se ela falar, “Só pode beijar a minha boca!”, aí você vai na boca. Mas se tem a liberdade, ela é uma coisa muito… Não estou dizendo que eu sou contra a técnica, o estudo. Eu nunca disse isso. Sou um pentelho profissionalmente. Mas você tem que saber o movimento do mundo. Você tem que liberar a energia… As coisas se encaixam. Nada é tão importante assim. O DVD do Mauricio vai ficar muito bonito.

Tags
André Abujamra
Os Mulheres Negras
de 26