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Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 23/26

O que pegou foi essa sonoridade pop com world music

Tacioli – O Mauricio [Pereira] falou na entrevista que ele concedeu pra gente de um show de vocês em que o palco…
Abujamra – … Que o teclado caía? Foi maravilhoso, sensacional! A gente ficava muito puto porque o pessoal ria da nossa cara e a gente fazia um trabalho instrumental sério pra caralho. Aí o teclado caía e o pessoal achava que era de propósito… O teclado saía tocando. Mas aí eu notei que a gente era engraçado mesmo, e quando notei isso, relaxei. O Mauricio, não! [risos] A gente tava no Off uma vez e eu mexia muito no pedal. Aí fui colocar a mão no pedal e, juro, uma mulher começou a rir. Ela riu disso, juro! Aí achei engraçado que ela achou engraçado e olhei pra ela sério. Aí quando o pessoal viu minha cara, todo mundo caiu numa puta risada. Eles não paravam de rir. Meu, eu não fiz nada e era engraçado. A gente era engraçado sem fazer nada. Aí relaxamos, quero dizer, eu. O Mauricio, nunca… Somente agora que ele relaxou. Fala tanta besteira nos shows que dá vontade de dar porrada! [risos]
Dafne – No show do Itaú [n.e. Apresentação em que Mauricio Pereira gravou o disco Canções que um dia você já assobiou – Vol. 1], ele tava soltinho, dançando, fazendo micagens [Abujamra cai na gargalhada]…
Tacioli – André, você fez com o Karnak vários shows no exterior… Rolou um certo sucesso externo…
Abujamra – Muito, muito.
Tacioli – Como esse sucesso se materializava?
Abujamra – Cara, era maravilhoso. A gente fazia shows em lugares grandes com som muito bom. Eu falava em russo do começo ao fim do show e todo mundo entendia, todo mundo cantava… A gente se sentia astros de Hollywood, os Rolling Stones… Hotel bom, comida boa, grana boa… Chegava em casa em São Paulo e ficava deprimidíssimo.
Dafne – No exterior onde?
Abujamra – Estados Unidos, cara!
Max Eluard – E o que você acha que pegava pra eles?
Tacioli – Era exótico?
Abujamra – Era super exótico, era world music, mas era pop… A molecadinha de universidade gosta de R.E.M., essas coisas, e o Karnak tem uma sonoridade pop, a gente toca bem, e é aquela língua que ninguém entende, né? Tem aquele gordão que morreu, o Nusrafat [n.e. Nusrat Fateh Ali Khan, cantor, eu não entendia nada do que ele falava, mas adorava… Acho que o que pegou foi essa sonoridade pop com world music, sabe? O que pegou foi isso.
Almeida – Era circuito universitário?
Abujamra – Era. Total. Tocava em rádio. Ficamos em primeiro lugar durante seis semanas numa rádio de lá. E lá é US$ 12.000 dólares o cachê do show. Então, pagávamos avião e tudo.
Max Eluard – Havia diferença do show que vocês faziam lá para aquele que vocês faziam aqui?
Abujamra – A única diferença é que tava um pouco atrasado. Então, quando aqui a gente estava no terceiro disco, lá a gente tocava o segundo e o primeiro.
Max Eluard – Mas era o mesmo show?
Abujamra – A gente misturava muito. Não era o mesmo show, não. Havia coisas antigas. Era legal porque teve uma época em que a gente ensaiava as músicas antigas pra tocar lá, e isso dava uma refrescada na cabeça.
Max Eluard – Mas as piadas eram as mesmas?
Abujamra – O meu inglês é terrível. Falo inglês, mas é meu inglês é macarrônico. Então…
Tacioli – O russo não é? [risos]
Abujamra – O russo, não. As pessoas cantavam, era maravilhoso. Tem coisas muito legais do Karnak lá. Tem uma história maravilhosa em Quebec [n.e. Cidade do Canadá onde a língua predominante é o francês], bicho. Acabou o show e chegou um cara búlgaro pra mim… “Meu, você fala russo?”. “Não, eu falo inventando”… “Meu, eu quase entendi o que você falou” [risos]… “Você quase entendeu?”… “É que eu falo russo, não entendi porra nenhuma, mas quase entendi”… Meu, achei tão legal isso. [ri]
Tacioli – E as críticas?
Abujamra – Meu, a gente é…
Almeida – Popstar?
Abujamra Se você procurar sobre o Karnak na Internet, nessas universidades, vai ver que a gente fez umas… Tocamos em San Francisco num lugar que dá dois [Teatro] Municipal. Era gigantesco. E com tudo perfeito, equipe, som… Não tava caindo a ficha.
Tacioli – Tem muito material, então.
Abujamra – Muito.
Rosselli –Em digital?
Abujamra – Tudo digital.

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