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Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 16/26

Vou fazer um disco com 800 milhões de músicos

Almeida – Os Mulheres faziam sucesso fora das grandes cidades? Sei lá, em Ribeirão parecia que rolava…
Abujamra – A gente estava numa época legal. Os Mulheres Negras tocavam na rádio.
Rosselli – É que não tinha nada parecido com isso, né?
Abujamra – Na época, você não tinha que pagar 300 mil reais para tocar numa rádio. Não havia jabá desse jeito que há hoje.
Tacioli – Havia, mas não desse jeito.
Abujamra – Mas não desse jeito. Cara, pra você tocar em uma rádio hoje você precisa pagar 300, 500 paus. Vai tomar no cu! Eu não quero pagar! Tô afim de escrever uma carta para o Gil, sabia? Meu, alguma coisa está errada, não está certo.
Dafne – Mas está rolando uma lei…
Max Eluard – E é uma sacanagem com as pessoas ao privá-las de ouvirem…
Abujamra – Aí eles fazem aquela camisa “Contra CD pirata”… CD pirata o caralho! Você paga 28 reais em um CD?
Tacioli – André, em entrevistas anteriores, você falou da utopia do Karnak, que em 1995 havia uma utopia. Qual foi a utopia do Karnak e a dos Mulheres? E qual é a sua atualmente?
Abujamra – A utopia eu conquistei. É a utopia conquistada. A utopia era antes de fazer o Karnak. Quando fizemos Os Mulheres Negras, todo mundo tinha banda de cinco, seis e oito integrantes. E a gente tinha uma banda de dois. Quando fiz o Karnak, todo mundo tinha banda de dois, porque não dava dinheiro. Eu fiz uma de quinze. Então, é uma utopia você conseguir fazer. Eu consegui, dez anos, meu! Três discos, várias viagens… A utopia é antes da conquista. Utopia é uma coisa que você não vai conseguir. Eu diria que eu consegui várias utopias que pensei, porque sou chato, me atiro de cabeça, acredito em uma merda e vou até o fim. A minha utopia agora é fazer um disco novo – isso aí é primeira mão mesmo, se vocês quiserem escrever… Como vou fazer? Vou gravar meu disco com todos os músicos do mundo que eu conseguir. Do mundo mesmo! Vou mandar uma base lá pra Bélgica, mesmo para músicos que eu não conheço. E eles vão enviar pra mim e vou fazer um disco com 800 milhões de músicos. O show será eu e o laptop, somente. E todos vão aparecer em slides, vídeos… Essa é a minha utopia, que é uma puta utopia! Mas vou conquistá-la. Acho que não se deve chamar utopia. Utopia que você conquista deve ter um outro nome. É uma a-utopia. Acabei de inventar. A destribificação e a a-utopia, “a” é não, negação…

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Os Mulheres Negras
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