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Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 15/26

Os Mulheres já fizeram show para uma pessoa

Max Eluard – Vi uns três, quatro shows do Karnak. Surpreendentes! A coisa cênica era muito forte. Era você quem pensava?
Abujamra – Eu pensava, mas no começo a gente tinha aula de mitologia grega [risos], a gente tinha ensaio de teatro. Depois de 10 anos, as coreografias saíam… Pô, eu nasci no teatro, nasci na coxia. Não concebo um espetáculo sem ter um… O guitarrista não está com um cigarrinho aqui fazendo solo. Ele está olhando para algum lugar, ele está pensando em alguma coisa.
Max Eluard – Isso para satisfazer um desejo seu ou para pensar no espectador, que se desloca de sua casa para um teatro para não ouvir um disco que já tem.
Abujamra – Exatamente. Artisticamente, eu tenho isso, por eu ser um sujeito de fazer muita coisa, pô! Quando vou fazer um espetáculo, ele tem que ter uma luz, um figurino… Pô, você não ficou com vergonha de mim pra perguntar, né? [dirigindo-se ao Daniel Almeida] [risos]
Almeida – Não, não, eu até vou falar um negócio…
Tacioli – Assisti o Karnak em Campinas, ali perto da Unicamp, numa casa chamada Rhodes, talvez.
Abujamra – Era você?
Tacioli – Havia somente o pessoal das Ciências Humanas, mais ninguém.
Abujamra – Não havia ninguém.
Tacioli –Umas cem, apenas.
Rosselli – Como é isso, depois de uma longa data fazer shows e não ter público? É brochante?
Abujamra – Porra! Teve um show em Taubaté que nós fizemos pra seis pessoas, cara!
Max Eluard – Havia mais gente no palco do que na platéia.
Rosselli – E como é isso um dia depois, ou logo à noite?
Abujamra – Na hora é uma merda! Depois, no fim do show, é maravilhoso, porque a gente toca pra caralho, velho!
Rosselli – Vira ensaio.
Abujamra – Tem uma história com os Mulheres Negras muito legal. Eu sou jovem mas tenho uma carreira. Fiz muita roubada com o Mauricio. A gente já fez show para uma pessoa, lá no Bexiga. O nome do cara era Vicente. Ele assistiu ao show inteiro. E depois dessa experiência tudo vale. Círculo Militar de Curitiba… Seis mil pessoas esperando o show. Replicantes, Ratos de Porão, Inocentes, Plebe Rude, Garotos Podres…
Almeida – E Os Mulheres Negras.
Abujamra – E Os Mulheres Negras. Seis mil pessoas. Nove horas era o show. Dez horas e nada. Começam a xingar a gente… Aí entramos no palco. Cara, eram seis mil pessoas assim “VAI EMBORA! VAI EMBORA!” [risos] Você já viu seis mil pessoas olhando pra você e falando “vai embora!”?
Almeida – Eu iria!
Abujamra – Meu, a gente não foi. Começamos a tocar e os caras atiravam de tudo, bolacha, fichinha telefônica (na época)… Ainda tenho umas marcas no corpo. [risos] Meu, porrada pra todo quanto era lado. Aí o Mauricio parou e falou “Vocês querem que a gente vá embora?” “QUEREMOS” “A gente não vai embora!” Aquele silêncio! “A gente vai tocar ‘Summertime’”. [risos] “VAI EMBORA! VAI EMBORA!” Aí tocamos e fomos embora. Depois dessa experiência, meu, tudo vale! Essa experiência foi maravilhosa.
Almeida – Mas vocês não sabiam que poderiam passar por isso vendo a programação?
Abujamra – Mas foi importante a gente passar por isso.
Almeida – Lógico, é uma história para contar.
Abujamra – Seis mil pessoas me odiando. Mas depois a gente fez muito sucesso em Curitiba. Foi um dos lugares onde a gente mais fez sucesso.

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