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Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 10/26

Se o Tom Zé existe, quem não vai acreditar no ser humano?

Max Eluard – Sem ver a questão localizada e abrindo bastante o zoom, você vê um grande nome do mundo nessa questão política e social?
Abujamra – Sempre existiu. Há uma teoria que diz que os gays nunca foram nem mais, nem menos, a única coisa que muda é o marketing disso. Na Roma antiga havia gay pra caramba, e hoje falam que tem muito mais gay. Não, sempre foi a mesma quantidade. Violência? Sempre foi na mesma quantidade.
Rosselli – Só que ninguém via, né?
Abujamra – Por exemplo, hoje em dia, você nem vê muito o que acontece na guerra, mas você sabe que ela está lá, cai uma bombinha e você a vê explodindo… Sempre existiu isso. Sempre existiu o dominado e o dominador. Esse é um movimento peristáltico. Sabe movimento peristáltico? “Você consegue ver, não consegue ver, você consegue ver, não consegue ver…”. A luta da gente não é a de ser mais legal ou menos legal. A luta da gente é compreender o mundo num todo. Não vejo muita solução… Eu não levanto muito bandeiras. Com o Karnak no começo, eu falava,“Todos somos filhos de Deus, vamos nos unir…” Hoje eu falo, “A gente não vai se unir porra nenhuma, mas vamos tentar entender o outro”. Eu já mudei um pouco a cabeça. Acho que isso que é a vida.
Tacioli – Tolerância?
Abujamra – A gente tem que engolir… Mas quando eu era jovem, falava “Ah! Você é negro, você é azul, vocês se amem!” Se amem porra nenhuma! Ele não quer saber.
Max Eluard – Não precisam se amar.
Abujamra – Exatamente. Não precisam se amar. Basta o respeito. Não ache que ele é pior ou melhor que você. Fiz uma música nova para meu trabalho-solo, porque me incomoda muito essa coisa tanto do branco quanto do negro. Me incomoda muito o racismo da cor. Porque eu não sou branco, eu estou branco. Eu que acredito em várias encarnações, e vou ter outras, eu já fui branco, preto, alemão nazista, já fui o judeu que morreu… Esse papo é muito delicado pra você falar pra todo mundo… Pode colocar aí, mas eu acho que eu não sou branco, eu estou branco. E você está branco! Você está homem! Pode ser que você tenha sido uma puta na Rússia, meu! Eu luto muito por isso, mas é uma viagem tão metafísica que eu tenho que defender outra coisa também. Acho que a beleza é o que você não vê, não o que você vê. O que você vê, é bonito ou feio, mas a beleza verdadeira a gente não consegue ver. Não sei porque eu falei isso agora.
Almeida – Por causa de seu trabalho-solo…
Abujamra – Por causa da música… Eu tenho falado essas coisas, acho que tem a ver com os medos, sabe?
Rosselli – E como você tenta lidar com esses medos? Terapias?
Abujamra – No cadomblé, é lá. É uma religião. É a minha terapia…
Rosselli – Há um vínculo grande entre terapia e religião.
Abujamra – Tem, total.
Max Eluard – Mas você tem fé no ser humano? Você acha que a nossa civilização ainda vai dar certo?
Abujamra – Claro. Estou falando sério, eu acredito. Se vocês forem entrevistar meu pai, ele vai cagar em cima de vocês, vai falar que “Não, nada é possível!”. Sou um pessoa superotimista. Eu acredito no ser humano. Acredito muito no ser humano. Tem gente filha-da-puta, mas tem gente como o Gandhi, tem o Tom Zé. [risos] Se o Tom Zé existe, quem não vai acreditar no ser humano? [risos] Acredito, sim. E lá no budismo não tem muito esse papo de bem e mal, ou do feio e do bonito. O que é bonito pra você, poder ser feio pra ele, o que é legal pra você, pode ser horrível pra ele. Eu acredito sim, tenho muita esperança. Cara, o ser humano é maravilhoso. Por exemplo, quando fui para o Egito, vi que os caras têm todos os dentes podres, pretos, tudo fudido. Os caras não têm o que comer. Os caras são uns fudidos pra caralho. E aí você chega perto deles e eles te dão um sorriso [risos], não sabem falar inglês, mas te levam para as pirâmides, rindo, felizes… Eles não têm dinheiro, não têm o que comer, estão fudidos, mas felizes. Você quer aprender mais do que com um cara desse? Você vai para o Nordeste – eu adoro o Nordeste! -, e você vê um tiozinho velho sentadinho… Ele está vivendo, cara! É olhar pra ele e ele vai te passar uma porção de coisas… Imagina a vida desse cara, o que não está na cabeça de um sujeito, de um matuto como esse. É uma idéia velha achar que o mundo não vai dar certo. Os bostas que se fodam! Mas cedo ou mais tarde o Bush vai se fuder. Vai, não tem volta.
Tacioli – Você havia falado da música de seu trabalho-solo. Como ela é?
Abujamra – Ela fala assim, “Meu olho azul / É o negro diluído / Racismo é um rio poluído / Eu sou branco / Meu orixá me abençoou / Se me chamar de negro / Vou falar que também sou / Eu sou negro / O orixá me abençoou / Se me chamar de branco / Eu vou falar que também sou / Limpa o rio / Limpa o mar / E viva a diferença!”. É mais ou menos o que estou falando pra vocês.
Tacioli – Como se chama?
Abujamra – Não sei ainda… “Olho azul”, acabei de inventar. [risos]

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