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Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 9/26

Antes do meu filho nascer, eu tinha medo do escuro

Rosselli – Tá gravando?
Tacioli – Tá, sim.
Max Eluard – André, é engraçado, estou achando um pouco difícil te entrevistar.
Abujamra – Por quê? [risos]
Max Eluard – Pelo sentimento de que é difícil fazer uma pergunta, sacumé?
Abujamra – Pode perguntar.
Max Eluard – Não, não… [risos] Sabe essa coisa de você olhar e já saber a resposta, sem precisar ouvi-la? É meio transparente, é muito claro o que você quer com a música, o que você quer com seu trabalho…
Abujamra – Basicamente, eu quero mostrar para as pessoas que não existe problema. O único problema é a morte, e que não é um problema pra mim.
Max Eluard – Aliás, é o que você falou no show de despedida do Karnak, “Não é o fim, é o começo…”
Abujamra – É a renovação. Mas é isso, eu tenho resposta, sim. É só perguntar que eu respondo.
Tacioli – Você tem medo de quê, André?
Abujamra – Do que eu tenho medo? Meu, antes do meu filho nascer, eu tinha medo do escuro. Agora eu não tenho mais. Cara, não é bem medo, mas sou um cara meio indignado… Eu tenho vários defeitos, e um deles é ser… por exemplo, vamos supor que eu sou um puta amigo dele, e você é amigo dele também mas deve uma grana pra ele. Aí você não paga. Ele fica puto com você e fala pra mim, “Eu tô puto com ele, caralho!”. Aí eu fico puto com você! Aí vocês ficam amigos de novo, e eu nunca mais vou falar com você. [risos] Eu tenho esse problema. Eu tenho um pouco de medo de ser assim. Sou uma pessoa rancorosa. Tenho medo das pessoas malvadas. Existe o malvado e o verdadeiro, né? Eu tenho medo dessas pessoas.
Tacioli – E esses medos te estimulam a criar?
Abujamra – As minhas composições falam das injustiças sociais. Componho muito com as coisas que eu sinto. Eu tenho essa coisa política. Sou uma pessoa política. Todo artista tem que ser político. Se você não é político, você aceita a política que fazem com você. Sou um pouco político. Eu faço minhas músicas em cima desses meus medos.

[ encabulada, Zequinha se aproxima ]

Zequinha – Quantos querem água? [risos]
Max Eluard – Todo mundo.
Zequinha – A água estava quente, mas eu pus um gelinho.
Abujamra – Ó, garota!

[distribui os copos com água]

Abujamra – Obrigado, Zequinha!
Zequinha – De nada.
Abujamra – A Dani saiu?
Zequinha – Não, taí.

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