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Entrevistas de música brasileira

André Abujamra

André Abujamra por Dafne Sampaio

André Abujamra

parte 0/26

A supermáquina de destribificar

Já se vão 14 meses desde que baixamos ali na Lapa, num casarão espaçoso, próximo ao trânsito maluco da Cerro Corá, mas com alma de morada do interior. Nesse breve período, três matrimônios gafieirenses foram pro brejo, a trilha de um filme que estava sendo fornida por nosso entrevistado já entrou e saiu de cartaz, conduzindo seqüências de A caminho das nuvens, de Vicente Amorim. Uma peça, na qual respondeu pela mesma posição de trilheiro, regida por seu pai, Antônio, está em cartaz nos palcos da FIESP há semanas. Um daqueles matrimônios sepultados volta a dar sinais de vida. Deu tempo, inclusive, de nosso entrevistado colocar na rua seu primeiro disco-solo, O infinito de pé, descoberto durante a entrevista com urgência de furo jornalístico…

Por outro lado, essa é a diferença de uma entrevista que não se atem somente aos fatos do dia, do momento, mas que faz da linha do tempo uma elástica tripa-de-mico.

E, acima de tudo, uma desculpa muito da sem-vergonha também…

Mas, como tinha conhecido o André nas filmagens do DVD ao vivo do Mauricio Pereira, no Itaú Cultural, fiquei incumbido de marcar a entrevista no bar que mais lhe agradasse. À noite, umas geladas pra soltar a língua, molhar a palavra, enfim, bem na proposta do site. Pura inocência. O cara tinha apenas uma manhã livre e foi essa mesma que aproveitamos. Às nove e meia estávamos pendurados em sua campainha. A conversa rolou em seu estúdio, nos fundos do comprido quintal.

Cadeiras da cozinha e da copa se enfiaram no cômodo juntas de cinco entrevistadores e de um feixe de perguntas tão magro quanto um buquê de R$ 5. Sorte nossa – e sua – que os assuntos pinçados com o ex-Mulheres Negras resvalaram no cinema e debandaram pro candomblé; começaram nas turnês gringas a bordo do Karnak e se ajustaram ao naufrágio da indústria fonográfica; fizeram cócegas na recém-arquitetada carreira-solo e pularam pra paixão pelo Corinthians. Tudo no mesmo espaço de tempo, tudo na mesma cabeça anarquista, “mas não porra-louca”. Ele também cunhou um novo verbo: destribificar. Seria a ação de olhar pro jardim do outro e ver o que tem de bonito e de feio ali. Verbo bom, esse. Melhor ainda quando se torna ação de fato. Se o André trouxesse um aviso de advertência, como os cigarros ou remédios, seria algo como: papear com este sujeito pode causar encorajamento e leveza pra se safar de desafios espinhentos de um modo geral.

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