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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 8/15

Johnny Alf era tão tímido quanto eu

Tacioli Como você vê sua trajetória como compositora, dessa primeira música até hoje?
Pavan E, complementando, como é esse processo de criação? Você falou que brincava no piano mais com a cabeça…
Alaíde Ah, a cabeça, né? Vem a intuição, aí eu sento lá, vou procurando os acordes, não-sei-o-quê, aí faz…
Pavan E aí você decora a música na sua cabeça ou grava tudo num gravador?
Alaíde Não, eu vou decorando, eu escrevo pra não esquecer.
Roberta Mas você compunha sem instrumento?
Alaíde Não, desde sempre mexendo no piano.
Tacioli Você vê uma evolução, um caminho, desse momento pra hoje? Você acha que amadureceu como compositora?
Alaíde Ah, com certeza.
Tacioli – Tem momentos mais importantes?
Alaíde Com muita certeza. Eu acho que eu gostaria de conseguir, antes de partir daqui, fazer um CD só com as minhas composições. Eu sou muito crítica, então pra eu querer fazer isso é porque eu sei que as coisas são legais, são bonitas… [n.e. Nos dias 20 e 21 de abril de 2013, a cantora apresentou o show Canções de Alaíde no teatro do Sesc Santana, em São Paulo. No ano seguinte, lançou finalmente seu primeiro disco de autora, de mesmo nome do show, com produção de Thiago Marques Luiz]
Pavan E você tem alguns bons parceiros?
Alaíde Tenho.
Tacioli Tem outros do quilate do Airton Amorim que não fizeram nada?
Alaíde Não.
Tacioli Só ele?
Alaíde – Só ele.
Tacioli Foi o primeiro…
Alaíde Primeiro e único!
Roberta Mas ele divulgou bastante.
Alaíde Mas essa música não, porque eu não falei que o disco…
Tacioli Falou que o disco não saiu…
Alaíde Anos depois que eu fui tomar conhecimento dele.
Roberta Entendi.
Tacioli – Como o Pavan mencionou, quais são os parceiros com quem você tem uma construção mais profícua?
Alaíde Ah, tenho uma composição com o Herminio (Bello de Carvalho) que eu renego hoje. Sabe por que? Assim, inconscientemente, fiz um plágio e, meu Deus do céu, meu Deus do céu, um dia ouvindo, acho que a (rádio) Eldorado, que tem ou tinha um programa de músicas clássicas às seis da tarde, tocou o início (da música) igualzinho, igual, igual… Falei: “Meu Deus!” É um prelúdio! Não sei se é do Chopin, eu não sei, mas é igual, mas somente o comecinho… Assim, logo de cara! Se fosse lá pelo meio… [risos]
Tacioli Põe ele na parceria também: Chopin, Alaíde e Herminio. [risos]
Max Eluard Depois que você ouviu essa música, que você a identificou, você adquiriu consciência de que já tinha a ouvido antes de compor a sua música?
Alaíde Não, não.
Max Eluard Foi coincidência?
Alaíde Isso! Olha, como eu acho também que foi coincidência com uma música do Piazzolla, que é daquele LP Maria de Buenos Aires. [n.e. Com música de Piazzolla e libreto de Horacio Ferrer, este tango-ópera estreou na capital argentina em 1968] Eu sou fanzoca do Piazzolla! Tem poesias e músicas cantadas e instrumentais. Enquanto o parceiro dele, não lembro o sobrenome, falava, ele ficava ao fundo com a orquestra… Sabe “Folhas secas”, do Nelson do Cavaquinho? O comecinho é igual. Eu não acredito que o Nelson tenha chegado lá no Piazzolla para fazer isso, né?
Tacioli E isso tirou o seu sono…
Roberta Ela renegou a música… [ri]
Alaíde Cada vez que falam: “A sua música com o Herminio…” me dá uma vontade de sumir!
Roberta Como chama a música?
Pavan – “Cadarços”?
Alaíde – “Cadarços”. E o Herminio falou: “O Maurício Carrilho é doido por essa música! Ele ainda não ouviu o prelúdio!” [risos] [n.e. Composição de Alaíde Costa com Herminio Bello de Carvalho, “Cadarços” é a faixa 10 do LP Águas vivas – Alaíde Costa canta Herminio Bello de Carvalho, de 1982]

Nos apartamentos da zona sul carioca, a bossa nova (esq. p/ dir.): Alaíde Costa, Ayres de Carvalho, André Spitzman Jordan, Oscar Castro-Neves, Luizinho Eça, Roberto Menescal, Climene e Dulce Nunes. Foto: reprodução

Pavan Você tem uma parceria com o Tom Jobim também, não é?
Alaíde Eu tenho uma com o Tom Jobim, duas com o Vinicius…
Roberta Com o João Gilberto também?
Alaíde Não! Ah, mas foi o João que me levou para conhecer os meninos da bossa nova. Me levou, não, me deu o bolo, mas eu fui. [risos]
Roberta Deu o caminho.
Alaíde É, me deu o caminho. A última parceria que eu tive foi com o Johnny. Mas foi ao contrário: o Johnny só faz música, né, aí eu estava fazendo um show com ele no Sesc Pompeia e no segundo dia ele chegou com um papelzinho assim, dobrado. Ele era tão tímido quanto eu. Até que hoje eu estou bem solta, né?
Pavan Os dois juntos não conversavam… [risos] Faziam músicas e eram tão tímidos que…
Alaíde Aí ele chegou com um papelzinho dobrado e colocou na minha mão. “O que é Johnny?” “Leva e leia!” “O que será? Leva e leia?!” [risos] Aí no trajeto eu fui lendo. Era uma letra bonita, não tinha título, nada. No dia seguinte, no domingo, eu falei assim: “Johnny, que poesia bonita!” “É pra você musicar!”. “Johnny, para eu musicar pra você?” “É, pra você musicar!” Eu falei de novo: “Mas, Johnny, para eu musicar pra você?” “É, vire-se!” [risos] Aí eu me virei. Nessa época eu estava tendo aulas lá no CLAM com o Giba Estebez, que é o meu pianista. [n.e. Criado em São Paulo em 1973 pelo pianista e ex-Zimbo Trio Amilton Godoy, o Centro Livre de Aprendizagem Musical, CLAM, é uma escola de música popular e de jazz] Eu cheguei lá e “Giba, me ajuda aqui nesse acorde. Giba me ajuda aqui!”. Aí eu acabei musicando e ele (Johnny) adorou. Como não tinha nome, eu coloquei “Meu sonho”, que a letra vai por esse caminho de sonhos, né?
Pavan Quando foi isso?
Alaíde Foi há uns sete anos, mais ou menos.
Pavan E você sempre manteve contato com o Johnny?
Alaíde Não, eu não sei se você lembra de um show comigo, o Johnny e a Nana? Foi um final de semana, acho que há uns sete anos, por aí…
Pavan Você falou que sempre estiveram juntos. Vocês vieram pra São Paulo na mesma época ou ele veio um pouquinho antes?
Alaíde Eu acho que ele veio antes, mas até então eu não tinha me aproximado dele.
Tacioli Você divulgava as músicas dele, mas…
Alaíde É…
Pavan Mas não tinha uma amizade.
Alaíde Não. Aí um dia eu fiz um programa chamado Brasil 60 e não-sei-o-quê, nos anos 50, 58 ou 59. Eu vim fazer esse programa que era apresentado pela Bibi Ferreira e daí a Ana Lúcia, lembra da Ana Lúcia…? [n.e. O programa Brasil 60, da atriz e cantora Bibi Ferreira (1922), inaugurou em 1960 a TV Excelsior e foi inovador por utilizar pela primeira vez o videotape. O sucesso do musical televisivo foi responsável pelas edições em anos posteriores, como Brasil 61, Brasil 62]
Roberta  Que gravou com o Geraldo Vandré?
Alaíde É! A Ana Lúcia falou assim: “Sabe quem é que está cantando no Lancaster? O Johnny! Vamos lá?”. Eu já tinha gravado (o programa) e ele já tinha me visto em televisão. Aí eu fui lá no Lancaster. Tinha que subir umas escadas lá em cima na Augusta e eu me sentei com a Ana. Aí, de repente, ele anunciou a minha presença. “Ai, meu Deus do céu!” [risos] “Ai meu Deus do céu!” Ele me chamou para dar canja! Ele pediu pra eu cantar “Dindi”, que havia acabado de gravar. “Mas meu tom, Johnny, é complicado! Eu canto em Si maior!” Agora, de tanto falarem que o tom era difícil, passei pra Dó!” [risos] Não, passei porque eu tinha dificuldade porque Si maior é um tom difícil para piano. Tem uns tons que são complicados. Aí ele: “Não, vamos lá” e me acompanhou! E saiu bonitinho, saiu direito. É por isso que eu comecei a amizade com ele…
Pavan  Ó, e que começo, hein?!
Alaíde É.

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