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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 7/15

A gente dava parceria pra radialista

Tacioli – Antes de pensar em ser artista, quais eram as opções (profissionais) que você vislumbrava?
Alaíde – Com toda a minha timidez eu queria ser professora. Adoro ler e escrever até hoje. E era uma coisa que eu pensava. Eu tinha uma senhora que dava aula particular, né? Aí eu arrumei um caderno e um lápis e fui pra lá. Aí minha mãe me procurando, me procurando, me procurando, até que alguém tinha me visto entrar na casa e falou pra ela: “Ela tá lá na Dona França”. Ela foi lá. E a Dona França: “Não, deixa a menina, deixa a menina!”. “Mas eu não posso pagar, Dona França!” Aí a Dona França começou a me ensinar. Eu tinha uns seis pra sete anos.
Pavan A Dona França foi sua primeira professora?
Alaíde – Minha primeira professora.
Max Eluard Então você não ia na escola nessa época ainda? (A Dona França) foi antes de começar a escola?
Roberta Ela te ensinou a ler?
Alaíde – É, é uma história muito longa, essa história da minha alfabetização, porque eu queria estudar, mas deixa pra lá…
Max Eluard Conta!
Tacioli Fala, Alaíde, faz parte.
Alaíde – Eu falei que não ia contar nada.
Roberta Conta.
Alaíde – Só essa. O meu pai fez o favor de não me registrar, não registrou nenhum dos filhos. Eu só fui ser registrada pelo meu padrasto. Já tinha nove anos quando eu entrei no colégio municipal, estadual, não sei. Acho que na época também mulher não podia ir sozinha registrar (o filho). Então foi isso que aconteceu…
Pavan Então você não podia estudar porque você não tinha registro (de nascimento) para ser matriculada. Mas quando você entrou no colégio as noções básicas você já tinha…
Alaíde – Era a primeira da turma, era a primeira!
Pavan Você já sabia ler?
Alaíde – Sabia, mas eu não fiquei tanto tempo com a Dona França, porque a coitada morreu, né? Não fiquei muito tempo, mas fui alfabetizada por ela.
Tacioli E esse gosto pelo magistério também se deve à Dona França?
Alaíde – Ah, sim. Eu tinha vontade mesmo, achava bonito ser professora. Hoje eu não acho bonito, não, porque é tanta luta. É muito difícil!
Roberta Acho até mais difícil do que ser cantor.
Alaíde É, mas naquela época os professores eram bem…
Pavan – Respeitados.
Alaíde – E ganhavam bem.
Roberta – Eram tão respeitados quanto um advogado ou um médico.
Alaíde – É.
Max Eluard – Esse gosto pelo diferente era consciente? Você pensava “Eu quero diferente!”? Ou não, era o seu gosto que não coincidia com o gosto da maioria?
Alaíde – Acho que era o meu gosto que não coincidia. Não é que eu quisesse o diferente, eu só achava que eu não queria aquilo que acontecia. Então em casa era uma luta, “Canta isso, canta aquilo, canta uma coisa mais animadinha!”. [risos]

Fã e ídolo: Alaíde Costa e Dalva de Oliveira em 1957. Foto: reprodução

Roberta – Uma marchinha de Carnaval!
Alaíde – “Canta uma coisa mais animadinha, canta uma música que tenha agudo!” Tinha que ter agudo para mostrar que tinha voz, aquelas coisas, né? E eu “Não, não vou, não quero!”. Era muito engraçado. A minha mãe me infernizava. Ela falava: “Você só fica cantando essas músicas. Canta uma música que tenha agudo, que você mostre a sua voz!”. “Mãe, eu não tenho voz!”, falava pra ela.
Tacioli Mas a sua mãe tinha um gosto por um tipo de artista ou por uma música que você pensa e lembra dela?
Alaíde Não, ela gostava de qualquer coisa que tivesse muita alegria ou muito agudo! [risos]
Tacioli – Ou os dois juntos!
Alaíde – Ou os dois juntos. Não, sério mesmo. Na realidade, da família quem me curtia era o meu irmão mais moço. Ele sempre me apoiou. A família queria que eu cantasse o que ela gostava.
Tacioli – Esse irmão é o Adilson?
Alaíde – Isso.
Tacioli – Se não me engano, esse primeiro disco, da Mocambo, já tinha música sua?
Alaíde – Isso, chama “Tens que pagar”. Desde cedo eu mexia no piano, compunha as minhas músicas e tal, e daí, agora eu posso falar, né? [risos] Agora eu posso falar, mas é verdade mesmo, antigamente se dava parceria. A gente dava parceria pra radialista, discotecário, pra música entrar (na programação). Ainda mais euzinha que vinha no comecinho (de carreira). Eu fiz letra e música. Uma letra boba, mas foi eu que fiz.
Roberta Você lembra de ter dado parceria para quem?
Alaíde – Um discotecário chamando Airton Amorim.
Roberta Ele não é parceiro do Monsueto (de Menezes) em “Me deixa em paz”? [n.e. Samba lançado em 1951 por Linda Batista e regravado 20 anos depois por Alaíde e Milton Nascimento em compacto simples do cantor e, no ano seguinte, como faixa do disco Clube da esquina]
Max Eluard Deve ter sido nesse esquema também.
Roberta Também? Eu não sabia!
Max Eluard “Põe meu nome aí senão não toco a sua música!” [risos]
Alaíde – Os próprios autores ofereciam a parceria,. E foi o que me aconselharam. Eu cheguei com a música que era minha e aí falaram: “Dá a parceria para alguém, dá pro Airton Amorim”…
Tacioli Qual foi a motivação para esse título “Tens que pagar”?
Alaíde Uma bobagem. [risos]
Max Eluard Era acerto de contas…
Alaíde Vingança! [risos]
Max Eluard E ele pagou?
Alaíde Sei lá!

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