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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 5/15

Ary Barroso me deu a nota máxima

Tacioli Mas antes teve o disco da Mocambo?
Alaíde – Pois é, esse disco da Mocambo foi em 1956 enquanto eu ainda no (Dancing) Brasil, no Dancing Avenida. Gravei e falaram pra mim que o disco não ia sair, que a gravadora ia fechar, que não-sei-o-quê. Só tomei conhecimento desse disco anos depois. Não tinha (o disco), aliás, não tenho.
Pavan – Faliu? [n.e. Mocambo foi um selo da fábrica pernambucana de discos Rozenblit, inaugurada em Recife em 1953]
Alaíde – É, falaram que ia fechar mas continuou lá em Recife, né? E eu fiquei sem saber.
Tacioli – E, Alaíde, como foi a primeira vez que você entrou em um estúdio para gravar? Você cantava no Dancing, em rádio. Tinha alguma diferença ou expectativa entrar no estúdio? Havia glamour? O que tinha?
Alaíde – Era muito esquisito. Sabe por que? Era muito diferente do que é hoje. Era assim: aqui ficava o grupo que tocava e ali o cantor; só tinha um biombo separando e se errasse (a música) parava tudo. Tinha que recomeçar e não tinha aquela coisa de arrumar e não-sei-o-quê. Era tudo ao vivo, não tinha essa coisa de colocar a voz depois. Aliás, eu acho muito melhor, eu não gosto de colocar a voz em nada, eu gosto de já gravar, fui acostumada assim, fica mais autêntico.
Roberta Respira junto…
Alaíde –
 É. Então, achei esquisito, né? Fiquei muito tensa, ainda não tomava calmante naquela época… [risos]
Roberta Uisquinho nem pensar.
Alaíde – Não, não tomava calmante… [risos]
Roberta Ah, esse calmante!
Alaíde – Aí, nervosa pra caramba…
Tacioli Você tinha algum ritual para espantar esse nervosismo?
Alaíde – Não, não tinha nada, inexperiente mesmo.
Tacioli Mas você chegou a pensar que sua timidez pudesse ser um obstáculo na sua carreira nesse momento em que você estava começando a vida profissional?
Alaíde – Não, eu não pensei, não, mas as pessoas diziam: “Ah, você precisa ser menos tímida”. Mas é uma coisa que até hoje (eu tenho). Eu estou descontraída aqui, mas me põe em um lugar assim…
Max Eluard Cheio de gente desconhecida…
Alaíde – É, eita! Eu fico muito inibida mesmo. E quando eu vou cantar? Ah, é um suplício até hoje!
Max Eluard Você sofre?
Alaíde – É sério! Eu entro lá e aí meu Deus! É uma coisa!
Max Eluard – Mas o que é?
Alaíde – Eu não sei o que é, é timidez mesmo… Quando eu estou sozinha, eu só me solto depois da segunda, terceira música, mas é difícil.
Max Eluard Só voltando um pouco, Alaíde, quando você falou que sentiu o gosto de cantar logo no começo, você era levada, era empurrada…
Alaíde – Era empurrada mesmo.

Capa do álbum Convite ao romance (Sinter, 1953), de Mary Gonçalves. Foto: reprodução

Max Eluard Mas qual foi o sentimento de pegar o gosto? Você lembra o que bateu na hora?
Alaíde – Foi quando eu fui ao Ary (Barroso), que ele me deu (a nota máxima). Ele era muito crítico.
Max Eluard – Mas foi somente por ele ter gostado ou teve alguma outra coisa?
Alaíde – Ah, acho que foi porque eu escolhi uma música difícil e era aquilo que eu queria pra mim.
Roberta Um desafio.
Alaíde – É, isso, era aquilo que eu queria pra mim. E daí, lá na Rádio Clube do Brasil, eu conheci uma pessoa incrível: Johnny Alf. Olha como eu sou louca: uma cantora chamada Mary Gonçalves gravou um LP de 10 polegadas com algumas músicas dele. Eu aprendi e ia cantar em programas de calouros. [risos] Sério mesmo! [n.e. Convite ao romance, disco lançado pela gravadora Sinter em 1953, com oito faixas, sendo quatro sambas-canções de Johnny Alf. Com acompanhamento instrumental de Quincas (sax), Zé Menezes (guitarra), Ari Ferreira (flauta) e Irany Pinto (violino); direção musical e arranjos do maestro Lyrio Panicali]
Pavan Já era uma divulgadora do Johnny.
Alaíde – Isso! Mas falavam assim: “Mas, menina, essa música?! Por que você não canta aquela que está fazendo sucesso, você tem mais chance?”.
Roberta Claro, ninguém sabia acompanhar! [risos] Imagino o pianista com “Noturno (Em tempo de samba)”.
Alaíde – Não, mas naquela época você ia às lojas e comprava as partituras. Era mais fácil.

Tacioli Nesse período dos anos 1950 tinha muito samba-canção, né?
Alaíde – Muito samba-canção. Eu cantei muito samba-canção, lógico. Muita Dalva de Oliveira, que eu adoro! Dalva de Oliveira, Dircinha Batista, Linda Batista, todas elas, eu cantava o repertório delas. Ângela Maria… Eu não tinha um repertório próprio, e por mais que eu tivesse, como crooner não dava, tinha que cantar tudo.

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