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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 4/15

Cantei com o pai do Taiguara

Pavan – E nesse começo de carreira de cantora, Alaíde, você não havia tido nem uma aula de música? Na escola você tinha aprendido alguma coisa de música ou era somente de ouvir o rádio?
Alaíde – Não, tudo de ouvido.
Pavan – Em algum momento você estudou música, pegou algum professor?
Alaíde – Muito tempo depois. Eu não sei, mas eu não tinha piano em casa, mas eu chegava nos estúdios, sentava lá e mexia no piano e saia alguma coisa. Foi uma coisa de intuição mesmo. E depois na Rádio Clube do Brasil tinha um grande compositor e pianista que sempre me dava umas dicas, o José Maria de Abreu. Ele falava “Faz assim!”, me dava umas dicas. Vim estudar um pouquinho muitos anos depois, porque (antes) eu não tinha condições, né? [n.e. Compositor paulista de Jacareí, José Maria de Abreu (1911-1966) é autor de clássicos da era de ouro do rádio, como “Boa noite, amor” (com Francisco Matoso), “Você” e “Alguém como tu” (ambas com Jair Amorim)]
Roberta – Considero uma audácia você ir ao Ary Barroso cantar “Noturno (Em tempo de samba)”, que é a música difícil para qualquer cantor. É linda essa música!
Alaíde – É linda, né? Fiquei anos pra conseguir gravar essa música, mas muito tempo, muito tempo, ninguém aceitava…
Roberta – Pois é, e pouca gente a conhece. Eu a conheci num tributo ao Custódio Mesquita, com a Rosana Toledo. Depois, pesquisando, descobri que você a tinha gravado também. Fui atrás da sua gravação e fiquei ouvindo, ouvindo, ouvindo…
Alaíde – Com o Oscar Castro-Neves. Arranjo bonito, né? [n.e. O violonista e compositor carioca Oscar Castro-Neves (1940-2013) é um dos nomes importantes da primeira geração bossa-novista. Participou do famoso Festival de Bossa Nova do Carnegie Hall, em Nova York, 1962, e radicou-se a partir de 1966 nos Estados Unidos, onde tocou com Sérgio Mendes, Flora Purim e Quincy Jones]
Roberta – Lindo!
Tacioli Alaíde, você falou que nessa época você não tinha muito a ver com o jeito que as cantoras da época cantavam…
Alaíde – É, por isso que eu cantava…
Tacioli – Como elas cantavam?
Alaíde – Elas cantavam bem, mas era assim, aqueles vozeirões. Era isso que o povo, os produtores queriam e eu não tinha pra dar. Então me davam a nota máxima. Eu ganhava os programas de calouro, mas não tinha chance profissional.
Max Eluard – Pra gravar ninguém queria…
Alaíde E daí em 1956 um músico da Rádio Clube do Brasil, não, já era Mundial – a Rádio Clube fechou, pegou fogo, alguma coisa assim, e abriu como Mundial – me convidou pra fazer um teste no Dancing Avenida. Fui fazer o teste. Ele ainda falou assim: “Ó, é um teste, eu não sei se vão te aprovar!”. Fui e me aprovaram, mas aí eu tinha que cantar de tudo, tudo o que você pode imaginar, porque ia trocando de ritmo o tempo todo, né?
Max Eluard E nesse momento qual foi a coisa mais estranha que você cantou, mais fora daquilo que você gostaria de cantar?
Alaíde – Eu não cantava, tive que aprender muita coisa…
Roberta – Bolero, por exemplo?
Alaíde – Meu primeiro 78 rotações tem um bolero de um lado. [n.e. O primeiro disco de Alaíde Costa é um 78 rotações lançado em 1956 pelo selo Mocambo. Trazia dois sambas-canções, “Tens que pagar”, de Airton Amorim e da própria Alaíde, e “Nosso dilema”, de Hélio Costa e Anita Andrade. Em 1957, já pela Odeon, em outro 78 rotações, gravou o bolero “Tarde demais”, de Hélio Costa e Raul Sampaio] Na época era o auge dos boleros. E acho que o do tango também, né, porque tive que aprender muito tango e não versões, né? Tinha as versões, mas cada versão esquisita… [risos] Eu sempre preferi o original.

Álbuns de dois músicos importantes para Alaíde: Quincas e Ubirajara. Fotos: reprodução

Roberta – Você cantava foxtrote?
Alaíde – Tudo, minha filha! Baião e tudo mais! [risos]
Pavan – Qual era a orquestra do Avenida nessa época, Alaíde?
Alaíde – Era um quinteto: Quincas e seu quinteto, que se chamava Os Cariocas, não…
Tacioli – Os Copacabanas.
Alaíde – É isso mesmo, Os Copacabanas! [n.e. Trata-se do grupo Quincas e Os Copacabanas, liderado pelo saxofonista e maestro Quincas] E depois eu saí de lá, fui para o (Dancing) Brasil, aí cantei com o Ubirajara Silva, o pai do Taiguara. [n.e. Maestro de orquestras de dancing e bandoneonista morto em 2012] Depois voltei pro Brasil e fui lá que eu já cantava com outro grupo, que era d’O Gaúcho do Acordeom. Foi lá que surgiu a minha chance de gravação.
Pavan – A gente está falando da época do Dancing Avenida?
Alaíde – Finalzinho de 1956 ou começo de 1957, por aí.
Pavan – É nessa época que você começa a circular mais entre os músicos, porque até então você era muito nova, né?
Tacioli – Você já tinha 20 anos?
Alaíde – É, espera aí: em 1952 eu tinha 16, então 20, né?
Tacioli – É, em 1956.
Alaíde – Vinte.
Pavan – Quem você conhece de músicos na noite?
Alaíde – Havia os intervalos, tinha o descanso, aí saía pra fazer um lanche ali na Cinelândia, onde se podia andar à vontade, né? Era bem light. Aí eu conversava muito com Ataulfo Alves, ele tinha um ponto de encontro de compositores na Cinelândia, embaixo daquele hotel que pegou fogo, Serrador. Hotel Serrador! Não tem o Rival? Era lá na esquina…
Pavan – Do outro lado?
Alaíde – Não, saindo do Rival, indo sentido daquele parque…
Pavan – Sentido Aterro?
Alaíde – Isso! Na esquina, não faz uma curva assim? Ali era um hotel chamado Hotel Serrador. Tinha, não lembro bem o nome, uma a boate que o Grande Otelo trabalhava lá. Tinha a Norma Bengell… Muita gente passou por aquela boate do Serrador… [n.e. Boate Night and Day] E embaixo era um ponto de encontro de músicos, de compositores… Ali eu conheci o Erasmo Silva. [n.e. Cantor e compositor baiano (1911-1985) radicado no Rio de Janeiro onde fez a dupla Verde e Amarelo com Wilson Batista. É autor do samba-canção “Dá-me tuas mãos”, gravado por Elizeth Cardoso e Nelson Gonçalves. Trabalhou no departamento de divulgação da gravadora Odeon] A gente conversava, porque eles também iam lá no Dancing, dançavam de vez em quando. Aí conversava muito, né? Mas o Ataulfo eu já conhecia, ele morava próximo à Água Santa, né? E eu sempre passava na rua que ele morava.
Tacioli – Elegante?
Alaíde – Muito elegante.
Roberta – Era gente boa?
Alaíde – Gente finíssima! Aliás há pouco tempo a Lua Music fez uma homenagem a ele.
Roberta – Um álbum triplo.
Alaíde – Por sugestão minha: “Vamos fazer Ataulfo!”.
Roberta – Que maravilha! Eu gravei.
Alaíde – Foi sugestão minha, pode perguntar para o Thiago. [n.e. O jornalista e produtor musical Thiago Marques Luiz]
Roberta – Que maravilha!
Alaíde – Aliás, eu cantei uma música dele que as pessoas não conhecem. O Thiago ficou doido! É muito linda! E aí, ali no Dancing, um técnico de som da Odeon mandou um cartãozinho que queria falar comigo. Fui falar com ele. Ele falou assim: “Olha, gostei muito da sua voz, você tem um jeito de cantar bem diferente e o diretor da Odeon é um moço assim muito avançado e tal. Eu vou pedir um teste pra você. Quem está gravando lá é a Sylvinha Telles. [n.e. Uma das pioneiras da bossa nova, a cantora e compositora carioca (1934-1966) lançou em 1956 a canção “Foi a noite”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, um dos marcos do novo estilo] Ele tem a cabeça aberta pra todos os tipos de música.”. Que bom, pensei. Aí eu fui lá, fiz o teste e fui aceita. E esse diretor era o Aloysio de Oliveira, né? E daí fui aceita e comecei na luta. [n.e. Um dos mais importantes produtores musicais brasileiros, o cantor e compositor carioca (1914-1995) integrou o Bando da Lua – grupo de apoio de Carmen Miranda –, e foi parceiro de Tom Jobim. Criou a gravadora Elenco nos anos 1960, época em que foi casado com a cantora Sylvia Telles]

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