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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 3/15

Eu gostava de uma música diferente

Tacioli – Alaíde, você vem do Meyer, né?
Alaíde – Nasci no Meyer mas fui criada na Água Santa. Eu não tenho nenhuma lembrança do Meyer. Fui pequena pra Água Santa.
Tacioli E como era Água Santa?
Alaíde – Água Santa era um lugar bem tranquilo, bem mato mesmo. Foi muito legal pra mim. Tive várias amiguinhas por lá e conheci uma moça que, depois de muitos anos que virei cantora, e ela também, eu passava por lá e ela dava varadas da minha perna! [risos] Não sei o porquê, ela dava varadas na minha perna. Acredita em um negócio desse?
Pavan – Você disse que você virou cantora e ela também…
Alaíde – E ela também! Mas eu não vou falar o nome dela…
Pavan – Fala! [risos]
Alaíde – Ela mesma conta essa história, a Elza Soares!
Roberta – Nossa, na mesma época vocês se tornam cantoras?
Alaíde – É.
Tacioli – Você passava e ela só com a varinha de marmelo…
Max Eluard – Vocês não eram amigas?
Alaíde – Não, éramos conhecidas… Aliás, eu conheci a Elza quando comecei a cantar mesmo, que eu ia lá pra Rádio Nacional e ela ia também. Tinha um grupinho de meninas amigas dela, eu passava, elas me vaiavam. [risos] Já tinha essa coisa.
Roberta – De torcida?
Alaíde – Tinha essa coisa da torcida. Eu não tinha torcida, mas ela tinha… Aí eu passava e uma delas falava “Eu sou Alaíde Costa!”, e as outras “Uuuuuuuh!” [risos] Aí a outra falava “Eu sou a Elza Soares!”, daí todas (aplaudiam). [risos] E eu, coitadinha, passava ouvindo aquilo… Muito engraçado, muito engraçado! Eu me lembro até o nome da mãe delas: Durvalina. As filhas de Durvalina! Vocês me devem! [risos]

Elza Soares (esq.) e Alaíde Costa em foto publicada na Revista do Rádio, 1959. Foto: reprodução

Roberta – Olha só! E você lembrou essa história com a Elza muitos anos depois?
Alaíde – Ah, sim, ela conta pras pessoas que me batia, batia na minha (perna)… Eu era magrinha, muito magra, sabe?! Eu passava e “pá!”. Ela com as filhas de Durvalina.
Roberta – Mas você não batia também?
Alaíde – Não! [risos]
Tacioli – E o que mais você lembra de Água Santa?
Alaíde – De Água Santa? Ah! Eu lembro que primeiro morei numa rua chamada Leandro Pinto que é perto da rua em que moravam as filhas de Durvalina e a Elza morava um pouquinho mais pra cima, num largo que eu não me lembro do nome. Largo da Água Santa! Acho que sou andarilha por causa da minha mãe, a minha mãe adorava mudar (de casa). Ela mudou para a rua Bórgia Reis. Foi ali que eu conheci as meninas, né? Eram cinco irmãs e eram minhas amigas. Ou foi o contrário? Não, primeiro foi na Bórgia Reis e depois foi na Leandro Pinto, onde eu me tornei cantora. Também é tanta coisa pra lembrar, né? Você esquece…
Tacioli – Mas você tem uma memória boa…
Alaíde – É?
Tacioli – É, você fala nome de rua, agora há pouco você estava lembrando um monte de números…
Roberta – O nome das meninas!
Pavan – E os seus pais eram do Rio? Como era a sua família?
Alaíde – A minha mãe nasceu em Vassouras.
Pavan – Interior…
Alaíde – É, e o meu pai era gaúcho.
Pavan – E eles se conheceram no Rio?
Alaíde – Acho que sim, né? Eles devem ter se conhecido no Rio.
Tacioli – E eles faziam o quê?
Alaíde – O meu pai era forneiro, que cuida dos fornos grandes. E minha mãe cuidava da casa, lavava uma roupinha pra ajudar…
Pavan – Gostavam ou tinham alguma relação com música?
Alaíde – Não muito, né? Depois que os meus pais se separaram, minha mãe casou de novo. O meu padrasto era ligado em música. Aí já tinha um rádio em casa.
Tacioli – Antes não tinha rádio?
Alaíde – Não tinha rádio. Eu era bem menina, né?
Roberta – Você tinha quantos anos quando eles se separaram?
Alaíde – Nove. E daí eu comecei a ouvir rádio e comecei a gostar de música. Mas eu sei lá, acho que sou meio doida: desde aquela época eu já gostava de uma música diferente, sabe? E foi bem difícil pra mim…
Tacioli – E o que era uma música diferente ali, Alaíde?
Alaíde – Isso foi de 11 para 12 anos. O meu irmão, mais moço que eu, me inscreveu num programa de calouros num circo, porque eu vivia cantarolando em casa. “Ah, você vai, porque todo mundo fala que você canta bem, e eu te inscrevi”. “Mas eu não vou!” Eu era muito tímida. “Se você não for, a polícia vem te prender!” [risos] “Então eu vou!” Daí eu fui, mas era adulto misturado com criança, não-sei-o-quê, e eu acabei ganhando o prêmio.
Tacioli – Você lembra o que você cantou?
Alaíde – Eu cantei uma música que Vicente Celestino cantava, que era o que tocava, né? Uma música até muito bonita, chamada “Minha terra”, que não era aquele dramalhão e tal. [n.e. Um dos artistas mais populares do país na primeira metade do século XX, conhecido como A Voz Orgulho do Brasil, o tenor, compositor e ator Vicente Celestino (1894-1968) eternizou temas autorais como “Coração materno”, “Pensando em ti”, “Mia Gioconda”e “O ébrio”] Daí eu cantei a “Minha terra” e ganhei o prêmio. E lá no bairro mesmo, na rua onde eu morava, na Bórgia Reis, um senhor resolveu montar um palco, um palanque no quintal da casa dele e fazer o programa de calouros lá. Aí toda semana eu ia e ganhava! [risos]
Tacioli – Tinha prêmio, Alaíde?
Alaíde – Tinha prêmio, mas era bobagem, né? Eram prendas! Dinheiro mesmo que era bom, (nada)… [risos] Só no circo eu ganhei um dinheirinho. Que mais? Eu estava falando do Seu Álvaro, do palanque do Seu Álvaro… Eu ia toda semana, toda semana, até que aos meus 13 anos, uma mulher que era vizinha da minha mãe resolveu me inscrever na Rádio Tupi. “Mas o que eu vou fazer na Rádio Tupi?” Era um concurso que o Paulo Gracindo fez pra escolher uma menina pra cantar com um menino. E o nome do menino? Chuvisco! [risos] Aí era a dupla Chuvisco e Chuvisca! [risos] E eu ganhei o concurso. Eu me lembro que eu cantei uma música que era sucesso de Carnaval da Linda Batista: “Confesse”. [n.e. Na verdade, o samba de Sátiro de Melo e Nelson Trigueiro chama-se “Confesso”. Foi lançado por Linda Batista em 1949 em um disco de 78 rotações que ainda trazia outro samba, “Se me der na cabeça”, de Jorge Tavares e Nestor de Hollanda] É bonita! Naquela época era a chance que os compositores tinham através do Carnaval. Então eu cantei essa música “Confesse” e acabei ganhando o concurso. Aí fui várias vezes (à Rádio), disputei com outras meninas, e cantei outras músicas…
Tacioli Você tinha um ídolo nessa época? Você, tão menina, 12, 13 anos, gostava de algum cantor, alguma cantora?
Alaíde – Eu gostava muito… Peraí, com 12, 13 anos? Não, ainda não.
Roberta – O Vicente Celestino era uma referência?
Alaíde – Não, não era. Era o que eu ouvia.
Tacioli – E o que você não gostava, Alaíde?
Alaíde – Ah, não digo! [risos]
Tacioli – Começa com qual letra? [risos]
Alaíde – Ah, não digo. Tinha muita gente que eu não gostava…
Tacioli – Mas eles já se foram.
Alaíde – Não, é por isso mesmo.
Roberta – Eles, os filhos…
Alaíde – É por isso mesmo.
Tacioli – Então vamos falar dos vivos. [risos]
Alaíde – Já com os meus 15, 16 anos comecei a ouvir a Rádio Clube do Brasil. O Silvio Caldas tinha um programa semanal na Rádio Clube. Um dia ele cantou uma música chamada “Noturno (Em tempo de samba)” e eu falei “É essa música que eu quero pra mim! Noturno (Em tempo de samba)”… [n.e. Samba de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy lançado por Sílvio Caldas (1908-1998) em 1944 e regravada por Elizeth Cardoso, Jamelão, Áurea Martins e pela própria Alaíde em 1973 no disco Alaíde Costa & Oscar Castro-Neves] Daí, toda vez que ele cantava – ele não cantava sempre, né? – eu escrevia a letra, escrevia um trecho da letra, porque não dava tempo também de escrever tudo, e ia memorizando a música. Aí aquela ficou (sendo) a minha música predileta, “Noturno (Em tempo de samba)”. Eu já havia começado a cantar em programas de rádio porque a tal da dupla não deu certo.
Roberta – Chuvisco e Chuvisca?
Alaíde – Não, não deu… Aliás, fizeram até uma música ridícula para a dupla! [risos] A letra era do Paulo Gracindo e a música do Claudionor Cruz.
Roberta – Oh!
Alaíde – Veja bem como era, eu não vou cantar, vou dizer a letra do Paulo Gracindo: “De onde vem essa pretinha / Parece que levou chuva / Não gosto de preta feia / Mas esta preta é uma uva”. [risos]
Roberta – Meu Deus!
Alaíde – Isso ele cantava pra mim! [risos]
Tacioli – Nossa!
Alaíde – Eu respondia uma coisa doida, sabe? Muito louco, muito louco, mas não deu certo a dupla. Aí eu comecei a cantar em tudo que era programa de calouros. Cheguei a cantar no Arraiá mineiro que era um programa que a Claudette (Soares) também cantou. Cantei no Papel carbono com o Baden (Powell), no Pescando estrelas… O Baden também participava. “Na hora do papo, pescando estrelas…” e não-sei-o-quê… Aí, de repente, resolvi que não ia mais cantar. [n.e. O programa de calouros Papel carbono foi criado e conduzido por Renato Murce (1900-1987) e revelou nomes como Dóris Monteiro, Ângela Maria, Roberto Carlos, Ivon Cury, Agnaldo Rayol e Ellen de Lima]
Pavan – Por que?
Alaíde – Ah, sei lá, sei lá, não quis mais cantar…
Max Eluard – Mas isso menina ainda.
Alaíde – Isso com os meus 15 para 16 anos.
Tacioli – A sua mãe aprovava você…
Alaíde – Ah, todo mundo queria que eu cantasse, menos eu. Era sempre empurrada. Depois que eu ganhei esse programa que eu vou contar cantando “Noturno (Em tempo de samba)”, eu me animei.
Roberta – Tomou gosto!
Alaíde – Eu fui no (programa do) Ary Barroso, ele era crítico! Foi assim a história: a minha mãe lavava roupa para uma professora. Um dia essa senhora falou “Ah, Manuela – era o nome da minha mãe – por que você não traz a Alaíde pra ficar com as meninas e ir pra escola. Eu dou uma ajuda e não-sei-o-quê, ajudo nos estudos, ela fica com as meninas à tarde, e quando eu voltar ela vai pra casa”. Longe pra caramba da escola que eu estudava. Eu estudava no Encantado. Ia do Encantado para a Praça da Bandeira. Longe, muito longe, só tinha bonde, né? Um dia eu comecei a cantar, cantarolar, ela estava em casa e ouviu. “Por que você não vai ao Ary Barroso? Você canta bem!”. “Ah, Dona Vanda, eu tenho medo do Ary Barroso”. “Que medo o quê? Vai lá!” Eu já sabia o “Noturno (Em tempo de samba)” e de tanto a mulher falar eu fui. Aí eu fui no Bandolim de Ouro, comprei a partitura e me inscrevi. Aí me chamaram. Eu cheguei lá e não pude cantar no dia que eu fui chamada porque a partitura estava em outro tom. É uma música muito elaborada.
Roberta – Tinha que levar a partitura para os músicos lerem lá, é isso?
Alaíde – Para um pianista, né? Ele falou assim: “Não vai dar! Vou falar com o Ary e você volta na próxima semana porque vou passar para o seu tom”. E ele fez isso…

Capa do álbum Sucessos com Lauro Paiva (Copacabana, 1961), com Lauro Paiva e Conjunto. Foto: reprodução

Roberta – Você lembra o nome do pianista?
Alaíde – Lauro Paiva. E aí eu voltei na semana seguinte com aquele medo, né? Eu tinha medo mesmo dele! [n.e. Pianista, organista e compositor baiano, Lauro Paiva radicou-se no Rio de Janeiro nos anos 1950 e lançou diversos discos até meados dos anos 1960]
Roberta – Claro, ele era uma fera, né?
Alaíde – Ele: “O que você vai cantar?”. “Noturno (Em tempo de samba)!” “De quem é?” “Custódio de Mesquita e Evaldo Ruy”. “Vai cantar?” “Vou!””Vamos ver!” Eu cantei e ele me deu a nota máxima, que era cinco. Aí eu tomei gostinho… Na semana seguinte, já me inscrevi no Papel carbono. Aí entra a pessoa que eu admirava, uma cantora chamada Neuza Maria. Ela cantava assim, bem diferente das cantoras da época. Eu gostava de todas, mas ela, nossa! Eu aprendi muito com Dalva de Oliveira. Embora eu cante assim, de uma forma bem diferente da dela, aprendi muito com ela, mas não tinha muito a ver com a Dalva.
Roberta – Você gostava da Carmen Miranda?
Alaíde – Eu era muito menina. Eu gostava, gostava, mas não cheguei a acompanhar muito né?
Roberta – E a Aracy de Almeida?
Alaíde – Gostava. Quando eu estudava no Encantado, muitas vezes eu ia até o Meyer porque a minha mãe já tinha separado do meu pai e eu ia visitá-lo. Ele morava no Caxambi, aí eu descia no Meyer. Eu passava pela porta dela na rua Dias da Cruz…
Roberta – Você passava de propósito pra encontrá-lo?
Alaíde – Não, eu passava porque pegava o ônibus ali. Eu parava pra ver se a via, né? [risos] E muitas vezes eu a vi.
Tacioli – E você chegou a ter alguma história com ela, de cantar junto, encontro de bastidores ou de programa?
Alaíde – Não, de cantar junto, não. A primeira vez que eu falei com a Aracy, ela me apresentou a quem? Ao Herminio Bello de Carvalho!
Roberta – Foi ela que te apresentou ao Herminio?
Alaíde – No Jogral, ali da Avanhandava. Ela levou o Herminio lá e foi ali que a gente se conheceu.

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