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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 2/15

Não parei, deram uma parada em mim

[Roberta Valente entra no apartamento]

Roberta Valente – Com licença! Oi, boa noite, tudo bem?
Alaíde Oi, tudo bom, e você?
Roberta – A gente se conheceu quando te dei uma carona.
Alaíde – Ah foi?!
Roberta – Foi. Do (bar) Genésio, Vou Vivendo, um desses aí.
Alaíde – Ah! Eu vi que te conhecia. Vou Vivendo com certeza não foi. Deve ter sido o Genésio ou Filial, um deles.
Tacioli – Rô, cerveja, uísque…
Roberta – Eu não bebo! [risos]
Alaíde – Ah, é?! Deixa eu fazer uma brincadeira que uma moça fez uma vez comigo. Eu cheguei na casa dela, toda cheia de cerimônia e não-sei-o-quê. Era a primeira vez que eu ia lá, né? Uma vizinha minha. Aí ela: “Quer uma cervejinha?”. E eu toda sem jeito: “Ah, não, não quero, não!” Aí ela fez assim: “Graças a Deus! Eu quero mais é que sobre pra mim!” [risos]
Roberta – Acabou a cerimônia ali.
Alaíde – Aí eu fiquei tão sem graça e ela começou a rir de mim, né?
Roberta – Você teve que aceitar.
Tacioli – Alaíde, aqui não tem nove horas, não!
Roberta – Eu quero uma cerveja! Só faltava eu?
Tacioli – Falta o Pavan.
Roberta – Pavan!
Tacioli Alaíde, você fala com o Herminio de vez em quando? [n.e. Referência ao poeta, compositor e provocador cultural carioca Herminio Bello de Carvalho]
Alaíde – Falo.
Tacioli – Falei do Pavan e você na hora, “Eu conheço!”. Mas o conhece pelo Herminio?
Alaíde – Pelo Herminio.
Tacioli – Acho que a gente pode começar, né? O Pavan já conhece o ritmo e aí se enquadra…
Roberta – Trouxe uma colinha de perguntas malígnas. [risos]
Alaíde – Ah, é? Não vem, não, hein!
Tacioli – Eu também sempre tenho a minha colinha, mas nunca uso.
Roberta – Eu também não, mas em todo o caso.
Tacioli – Não está nervosa, não, né, Alaíde?
Alaíde – Não! [risos]

[Toca o interfone]

Tacioli – Fale para ele subir, por favor. Pronto, o Alexandre Pavan chegou. Alaíde, tudo o que a gente vai perguntar, você já respondeu.
Alaíde – Olha lá, hein! [risos]
Roberta – As perguntas mais íntimas vamos deixar para mais tarde. [risos]
Alaíde – Mas eu não conto!
Tacioli – São 50 anos de carreira, né? Você começou em 1954.
Alaíde – Não! Eu começo a contar a minha carreira a partir de 1956, quando foi o meu primeiro trabalho profissional. Até então eu cantava em programas de calouros. Em 1956 eu tive convite pra cantar no Dancing Avenida. Esse foi meu primeiro trabalho profissional [n.e. A casa noturna Dancing Avenida funcionava nos anos 1940 e 1950 como táxi-dancing, em que os frequentadores pagavam para dançar com as bailarinas da casa ao som das orquestras. O tempo da dança era anotado em uma ficha  ou cartão. Essa espécie de casa foi comum não somente no Brasil, mas em países como o México, onde ficaram conhecidas como Las Ficheras. Localizado na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, o Dancing Avenida foi responsável pelo início profissional de cantoras como Elizeth Cardoso, Ângela Maria e Alaíde Costa, todas como crooner de orquestras]
Tacioli  Foi o tiro de largada.
Alaíde – Humn, humn! E eu sou meio surda, sabia, né? [risos]
Roberta – Nós também somos.
Alaíde – Não, mas eu sou mesmo!
Roberta – Ah, é?
Alaíde – Já operei os dois ouvidos. Um operei duas vezes.
Max Eluard – Mas qual é a causa, Alaíde?
Alaíde – Otosclerose.
Roberta – E eu li que você deu um tempo na carreira antes do Clube da esquina. Foi por causa disso?

[Chega Alexandre Pavan]

Alaíde – Oi, Pavan!
Alexandre Pavan – Há quanto tempo!
Alaíde – Tudo bem?
Pavan – Tudo bom!
Alaíde – Não é bem que eu dei uma parada, deram uma parada em mim, porque sem gravar, você quase não aparece, né? E naquela época o disco era muito importante, né? Agora é mais fácil gravar, tem as produções independentes, aquela coisa toda…
Roberta – É, hoje você grava um disco em casa.
Alaíde – É, mas aquela época era…
Roberta – Era bem mais complicado.
Alaíde – A cada movimento (musical) era um convite maluco, né? E eu não aceitava. Então ficava fora…
Roberta – Entendi. Em algumas matérias que eu li atribuem essa pausa de uns três, quatro anos ao seu problema auditivo.
Alaíde – Não, mas eu operei os ouvidos depois do Clube da esquina, que está completando 40 anos agora.

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Tacioli – A Alaíde está nervosa, ela falou! [risos]
Roberta  Mas são perguntas fáceis. Você sabe responder todas!
Tacioli  Você tem resposta pra todas!
Alaíde – Certo. [risos]

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