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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 1/15

O João Sebastião Bar foi o máximo

Alaíde Costa  Tem que falar muito? Eu não sou muito…
Ricardo Tacioli – As entrevistas são com vários entrevistadores batendo papo, tomando cerveja…
Alaíde – É nessa mesa?
Tacioli – É nesta mesa! Fico aqui, a Roberta (Valente) fica ali, o Alexandre (Pavan); o Max (Eluard) participa também da entrevista, e o Jeff vai fotografando… A entrevista leva umas duas horas; é uma conversa.
Alaíde – Por que Gafieira?
Tacioli Gafieiras porque…
Alaíde – Gafieiras?
Tacioli Quando a gente colocou esse nome a intenção era o de entrevistar diversas pessoas que produzem música no Brasil independentemente do estilo. Colocar todo mundo num mesmo salão, num mesmo espaço, como se fosse uma gafieira. A gente quer ver a história de cada um relacionada à música…
Alaíde – Eu já cantei em gafieira! [risos] Crooner…
Tacioli Sim, no Dancing Avenida…
Alaíde – É!
Tacioli Vamos falar disso. Alaíde, você toma uísque, cerveja?
Alaíde – Um uísquinho.
Tacioli Com gelo ou sem gelo?
Alaíde – Deixa eu ver: sem gelo.

[silêncio]

Max Eluard – Você mora no Bonfiglioli?
Alaíde – Moro.
Max Eluard – Perto de onde?
Alaíde – Você conhece por ali?
Max Eluard – Conheço um pouco…
Alaíde – Sabe onde é o ponto final do ônibus Belém?
Max Eluard – Não.
Alaíde – Na Otacílio Tomanik…
Max Eluard – Ah, sei, sei…
Alaíde – Não tem o ponto final de ônibus ali? Em frente ao ponto de ônibus tem um prédio, eu moro na ruazinha ao lado do prédio. Moro numa rua que eu acho o nome muito bonito…
Max Eluard – Como que é?
Alaíde – Se chama Acalanto de Bartira. Bonito, né?
Max Eluard – Você sabe a origem desse nome?
Alaíde – Não, porque Bartira foi uma índia, né?
Max Eluard – É.
Alaíde – Então deve ser alguém que cantava pra índia, qualquer coisa assim.
Max Eluard – Ou o canto dela.
Alaíde – Ou o canto dela.
Max Eluard – Nome de rua costuma ser tão feio…
Alaíde – Eu morava na Capital Federal. Quando voltei do Rio, quis comprar a minha casa por aqui, mas não teve como, muito caro. Eu morava numa casa alugada. Mas como não teve como comprar por aqui, fui para o Jardim Bonfiglioli.
Max Eluard – Mas aqui está mudando muito, verticalizando, estão construindo muito prédio. [n.e. A entrevista foi realizada no Sumarezinho, bairro da zona oeste paulistana]
Alaíde – Até a casa que eu morei virou qualquer coisa de comércio.
Max Eluard – Quando você mudou pra cá a primeira vez, você morava aqui na Capital Federal?
Alaíde – Não, a primeira vez que eu vim, em 1961, morei ali na Martins Fontes. Não, Martins Fontes, não, na Martim Francisco, Santa Cecília. Fiquei lá alguns anos. Depois fui pro Alto de Pinheiros.
Max Eluard – Nessa época mesmo, anos 1960?
Alaíde – Década de 1960.
Max Eluard – Alto de Pinheiros devia ser uma chácara, né?
Alaíde – Era.
Max Eluard – A estrada da boiada.
Alaíde – A estrada da boiada, de terra ainda…
Max Eluard – Nossa! E era a Diógenes…
Alaíde – De terra…
Max Eluard – E ia até Sorocaba, né?
Alaíde – É? Eu não sei.
Max Eluard – É. Ia até Sorocaba, o pessoal levava os bois para Sorocaba ou de lá pra cá.
Alaíde – Depois de lá, eu mudei muito viu!
Max Eluard – Alma de cigano.
Alaíde – É, depois da Estrada da Boiada eu vim morar aqui no Sumaré de novo, na Apinajés, lá embaixo. Um prédio quase de esquina, pequenininho, eu acho que ainda existe. Depois eu me mudei pro Rio. Fui pro Rio Comprido. Olha como eu mudei! Do Rio Comprido eu voltei pra São Paulo e morei na Rua Augusta. [risos] Não, primeiro eu morei uns meses ali na Aclimação, na José Getúlio. Morei com o Zé Luiz. Conhece o José Luiz Mazziotti? [n.e. Cantor e compositor nascido em Rio Claro, 1948, parceiro de Sérgio Natureza]
Tacioli Sei, sei…
Alaíde – Então, ele me hospedou lá. Eu estava procurando casa, né? Fiquei uns meses lá. Aí achei esse apartamento na frente do Auditório Augusta, em um prediozinho pequenininho também.
Tacioli Quando que foi isso, Alaíde?
Alaíde – Foi em 1973.
Max Eluard Alaíde, a primeira vez que você mudou para cá foi em 1961, naquele boom da bossa nova, né?
Alaíde – Mas eu fiquei até 1969.
Max Eluard O cenário da bossa nova não era mais forte no Rio nessa época?
Alaíde – Era, mas aqui acontecia muito também.
Max Eluard Você veio pra cá em 1961 por qual motivo?
Alaíde – Porque eu casei com um paulistano. [risos]
Max Eluard Ah, sim!
Alaíde – Aí tive que vir.
Tacioli E ele aceitava a sua carreira?
Alaíde – Ele era locutor da Eldorado, era jornalista.
Max Eluard Então ele entendia…
Tacioli Esse foi o motivo da vinda… Pensei que já tivesse alguma coisa arquitetada, porque a Claudette (Soares) veio (antes)…
Alaíde – Não! Ela veio e daí eu vim. Vim mais porque ela ficou na minha cabeça “Vem, vem, vem!”. Aí um belo dia eu vim e conheci a peça! [risos] E acabei ficando! Mas ela vivia me chamando “Vem, está bom aqui!”. E realmente estava bom.
Tacioli Você frequentou o Jogral?
Alaíde – Frequentei, mas não por muito tempo, foi antes de eu voltar para o Rio, em 1968, 69, por aí.
Max Eluard Era ali na Avanhandava ainda?
Alaíde – Na Avanhandava.
Max Eluard O Luiz Carlos Paraná estava vivo ainda… [n.e. 1932-1970. Nascido em Ribeirão Claro, PR, o cantor e compositor foi o idealizador e dono do Jogral, importante boate paulistana dos anos 1960 e 1970. É autor de “Maria, Carnaval e cinzas”, gravada por Roberto Carlos, “De amor e paz” (com Adauto Santos), por Elza Soares, e “Flor do Cafezal”, por Cascatinha & Inhana]
Alaíde – Estava.
Tacioli Você lembra do Paraná? Como ele era?
Alaíde – Ele vivia lá. Ele morava no prédio ao lado (do Jogral) e vivia lá…
Tacioli Foi um bar importante.
Alaíde – Mas o mais importante pra nós foi o João Sebastião Bar. O João Sebastião foi o máximo, sabe? [n.e. De propriedade do jornalista Paulo Cotrim e localizada na Rua Major Sertório, na Vila Buarque, a casa foi um dos quartéis-generais da bossa nova em São Paulo nos anos 1960]
Tacioli  E o que é que ele tinha?
Alaíde – O Jogral era assim: não tem rodízio de comida, de churrasco? [risos] Lá era rodízio de…
Max Eluard De cantor…
Alaíde – De cantores, né? Já no João, não. Pra mim, pra Claudette, pra Ana Lúcia e para outros mais. O Jogral misturava muito.
Tacioli Quem que eram os donos do João Sebastião Bar?
Alaíde – Paulo Cotrim. Era jornalista também, já faleceu há muitos anos.
Tacioli Ficava ali na Veridiana?
Alaíde – Quase esquina. Major Sertório.

[Toca o interfone]

Tacioli – Alô! Fale para subir, por favor! (…) É a Roberta! (…) Quando a gente fez a exposição Pioneiras, aquela em que o João Correia foi fotografá-la no salão de beleza, o Jeff foi para o Rio fotografar a Dóris Monteiro, a Claudette também foi fotografada e ela falou também bastante do João…
Alaíde – A Claudette cantava sentada em cima do piano… [risos] Era muito engraçada…
Max Eluard Femme fatale.
Alaíde – Hein?
Max Eluard Fazendo o papel da femme fatale.
Alaíde – É! Um piano de cauda e ela sentada em cima. [risos]
Tacioli – Tem saudade desse período?
Alaíde – Ah, a gente sempre tem, né? Ah, mudou muito, né? Tudo! [silencia] Tinha coisas boas naquela época…
Tacioli E hoje está mais difícil ter espaço para cantar?
Alaíde – Ah, eu acho. Eu digo, casas noturnas, né? Ou tem as grandes casas ou não tem! [ri] E naquela época tinham muitas.
Tacioli Tinha vida noturna.
Max Eluard – Havia muitas casas, não era somente um ou dois lugares, casas de show, né? Todos os lugares…
Alaíde – É! Igrejinha, Ela, Cravo e Canela, tinha muita coisa. [n.e. Duas importantes boates paulistanas dos anos 1960 e 1970, ao lado de outras casas de música como O Jogral, Cambridge, João Sebastião Bar, Catedral do Samba e Baiúca. Ela, Cravo e Canela foi inaugurada por Claudette Soares e Pedrinho Mattar em 1967] E tinha bastante programas de televisão.

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