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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 14/15

Cantora negra tem que rebolar, cantar sambão

Tacioli Querida, muito obrigado pela entrevista. Não foi dolorida, não? Correu fácil, né?
Alaíde Humn, humn. Tem entrevistas que a gente faz, ai meu Deus, que deixa a gente tão assim, aqui foi fácil.
Tacioli Mas conta aquele segredinho para terminar, que você não falou para ninguém e quer falar pra gente? [risos]
Alaíde Que segredo? Segredo é para quatro paredes! [risos]
Tacioli É isso, obrigado. A gente pode continuar conversando aqui, mas somente para finalizarmos.
Alaíde Não estava gravando, não, né?
Tacioli Esse foi só o treino. Vamos começar agora.
Alaíde Não, essa última parte agora.
Tacioli Tem algum show marcado?
Alaíde No momento, nada.
Tacioli E quando você se apresenta, quem vai contigo, quais são os músicos? Tem um time fixo?
Alaíde Depende da situação. Às vezes posso ir com quatro, às vezes ir com três, às vezes posso ir com dois, às vezes com um. [ri] No Ensaio eu fui com quatro. Giba, Fernando Correia, conhece?
Roberta Conheço, adoro.
Alaíde Conrado Paulino e Vitor Alcântara.
Roberta O Conrado foi quem gravou o outro programa Ensaio com você.
Alaíde É.
Roberta O Vitor também.
Alaíde O Giba começou tocar profissionalmente comigo. E os meninos, também. Eu conheci o Giba, ele ia fazer 22 anos, já está com 45. Muito tempo juntos. E os meninos também, mas na maioria das vezes eu me apresento só com o Giba, porque pedem um. Aí vou com o piano que é mais completo. Ou se pedem um violão, vou com o Conrado ou com o Fernando. É sempre com esse grupo quando é escolha minha, porque eu faço muito shows, apresentações por aí em que eu não tenho escolha.
Tacioli E sobre o racismo, vi em uma entrevista sua ao site Entrecantos. Você mesma citou em diversas oportunidades…
Alaíde Na bossa aconteceu isso.
Tacioli Teve um momento em que o racismo foi muito…
Alaíde Aconteceu isso, não é pessimismo, não! Acho porque eu e o Johnny ficamos discriminados. Acontecia tudo lá, não sei quantos anos de bossa nova, e…
Pavan E ninguém chamava…
Alaíde Os dois fora. E depois eu fiquei sabendo que mesmo no comecinho, na minha ausência, me chamavam de ameixa. “Ameixa não vem hoje, não?”.
Roberta Você contou isso em uma entrevista, mas contou isso rindo.
Alaíde É! Eu contei rindo, mas é uma discriminação. Porque não falar “A Alaíde! A Lalá não vem”, mas “Ameixa!”? Como tinha a Ângela Maria como Sapoti, eu tinha de ser a Ameixa.
Max Eluard E isso te magoava?
Alaíde Não, não! Eu não sabia que me chamavam assim, eu fiquei sabendo muito depois.
Roberta Como você descobriu?
Alaíde Por um livro do Ruy Castro.
Roberta Você descobriu no livro?
Alaíde É! Se bem que ele pegou muito o bonde andando. Fala tantas coisas ali que não são verdadeiras.
Tacioli Teve um outro momento (de racismo) além desse da bossa nova, Alaíde?
Alaíde Não, não, não. Sentia que torciam um pouco o nariz, é chato falar isso, mas eu aparecia mais que eles, gostavam mais de mim, vou fazer o quê?!

Registro do casamento em 1960 da atriz May Britt com o cantor, ator e dançarino Sammy Davis Jr. Foto: Photofest/Running Press

Pavan Eles ficavam incomodados?
Alaíde Ficavam. Nos 20 anos de bossa nova eu fui convidada. Foi aqui no Teatro Municipal organizado pelo Zuza Homem de Mello. E lá fui eu. Cada um cantava duas ou três músicas. O povo adora “Onde está você”. Bis, bis, bis! Eu saí e o povo não parava de chamar. “Mais um!”. Voltei, dei o bis. E no dia seguinte, o Zuza veio falar comigo: “Vamos ter uma reunião”. [ri] Teve a reunião. “Em hipótese alguma pode ter bis!” Porque o único bis… Fulanas virando a cara pra mim, juro por Deus! Foi engraçado! A carapuça já serviu, né? Não prestou, né? E bis de novo! Aí eu saí. Depois de mim entrava o Trio Tamba. E ele entrou e o povo “Mais um, mais um!”. E o Trio Tamba saiu. Se não fosse o Dick Farney eu não dava esse bis. O Dick Farney falou: “Deixa a mulher entrar, gente! Que palhaçada é essa!”. Daí o Zuza deixou eu entrar para dar o bis, porque o Dick Farney bateu o pé. Barra-pesada! Uma vez, sobre esse negócio de racismo, ninguém falou, eu ouvi: não tinha um tal de Vicente Leporace, que tinha um programa de rádio na Bandeirantes? Aí ouvindo o rádio lá, entrou o programa dele, de vez em quando eu ouvia. No dia seguinte, o “Onde está você” já estava tocando nas rádios; a RGE estava gravando lá (no Teatro). Foi um LP com vários participantes. Alguém levou uma fita, porque não deu tempo de fazer o LP, e ele tocou. “É, uma crioula com mil anos de samba dando uma de May Britt agora!”. May Britt era uma atriz loura, de cabelo comprido, francesa. Falou isso! Eu ouvi!
Roberta Você respondeu?
Alaíde Responder o quê pra ele? O que tem a cor com a música? As grandes cantoras americanas são negras. A maioria, não? Aqui não pode ser cantora negra, ser cantora negra tem que sambar, tem que rebolar, cantar sambão, não pode! Aliás, acho que somente eu canto esse tipo de música, não tem uma outra que cante. Não tem, não! Não pode, é proibido!
Pavan É impressionante. (O racismo) está tão arraigado… Outro dia, alguns anos atrás, um ator de novela no Faustão [n.e. Rodrigo Lombardi que participava como jurado do quadro Dança dos famosos], perguntado sobre um ídolo que ele tinha, fala do Sammy Davis Jr. “Quando ele abria a boca ele virava um loiro de olhos azuis!” E você vê o que ele fala e ele não percebe o que falou. “Ele era baixinho e tal, quando ele começava a dançar e abria a boca virava um escandinavo de olhos azuis!”
Max Eluard Aí melhorava.
Pavan É um absurdo, é um absurdo!
Alaíde É complicado.

Pavan Você falou de cantoras americanas. Tem alguma que você gosta?
Alaíde Tem várias. A primeira que eu ouvi e que me tocou foi a Sarah (Vaughan), mas muita gente acha que eu tenho muito da Billie (Holiday). Sei lá, tenho da Billie, ela é a Billie e eu sou a Alaíde. [risos] “Quando eu ouço a Billie eu lembro de você.”
Pavan Você conheceu a Sarah pessoalmente?
Alaíde Não. Conheci a Ella (Fitzgerald). Assisti a um show dela.

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