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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 13/15

Fui estudar com o Moacir Santos

Tacioli – Alaíde, são quase 11 horas, senão a gente começa uma outra entrevista. Tem um monte de capítulo que a gente nem passou por cima…
Roberta – Nem falamos do Vinicius, da história do piano… Se você foi apaixonada pelo Vinicius ou não…
Alaíde – Fiz um Ensaio que vai passar dia 29. Eu te falei, né?
Tacioli – Falou.
Alaíde – Aí o Faro [n.e. Fernando Faro, produtor e diretor do programa Ensaio, da TV Cultura] fica “Fala do Vinicius. E aí…?” [risos]
Tacioli – Mas, Alaíde, e o Vinicius?
Alaíde – Todo mundo quer saber o que é que o Vinicius fez para me dar o piano. Ah, pelo amor de Deus! O que o Vinicius fez, não, o que eu fiz!
Roberta – Não, eu não ia fazer essa pergunta.
Alaíde – Não, mas querem saber.
Roberta Eu ia perguntar da música “Amigo amado” que ele fez a letra e te deu.
Alaíde – É. Em 1960 eu fui levada pelo Baden à casa do Vinicius que ele queria me conhecer. Me ouviu, gostou muito e não-sei-o-quê… Lá fui eu pra casa do Vinicius. Quase todo dia tinha reunião na casa de Vinicius. E todo mundo ia lá pra casa de Vinicius. E eu sentava lá ao piano e mexia aqui, mexia ali. O Moacir Santos de vez em quando aparecia lá. Ele falou assim: “Por que você não vai estudar com o Moacir?”. “Mas, Vinicius, eu não posso estudar com o Moacir. Como é que vou estudar com o Moacir? Pra começar, eu não tenho piano.” “Ah, você vai estudar com ele. Você sai de lá e vem estudar aqui.” O Moacir morava ali na Glória. Não tem a Taberna, naquela rua que sobe? Então, Moacir morava ali e o Vinicius lá no Parque Guinle. Falei assim: “Eu vou falar com o Moacir, pode deixar por minha conta”. Daí fui estudar com o Moacir. O Moacir tem aquele esquema que o CLAM tem: são dois pianos, um para o aluno e outro do professor. O Moacir já tinha esse método. Comecei mas infelizmente (durou) poucos meses, porque ele já estava para ir para os Estados Unidos. E quando ele já estava com tudo certo para ir, falou assim: “Você não quer comprar o piano?”. “Ah, Moacir, eu não tenho condições de comprar o seu piano.” “Conversa com o Vinicius. Ele é tão seu amigo, conversa com ele. Ele paga o piano pra mim e você vai pagando pra ele.” “Ai, Moacir, eu não vou…” E não falei nada com o Vinicius, mas ele mesmo foi e falou: “Ó, eu estou querendo vender o piano pra Alaíde e ela disse que não tem condições, mas como ela gosta tanto e leva muito jeito, eu achava que este piano devia ficar com ela”. Eu sei que o piano foi pra mim. Antes eu saía e ia pra casa dele para estudar. O Vinicius falou assim: “Você é uma boba mesmo, né? Por que que não falou que o Moacir queria vender o piano e que você não podia comprar? Nós somos amigos ou não somos?”. Todo mundo acha que ele tinha interesse em mim, mas não tinha, ele gostava de mim. Do jeito que ele era, não sairia em tudo quanto era manchete? Todas saíram, não foi? Não é verdade?
Tacioli – Não sei. Mas ele tinha uma conversa boa, né?
Alaíde – Ah, se tinha! [risos]
Roberta – Nossa, devia ser um perigo!
Alaíde – Mas ele era uma pessoa muito legal! Daí deu nisso! No piano! O Moacir foi embora e eu comecei a me virar sozinha lá, tentando fazer as minhas composições. Aí um dia eu cheguei na casa dele e falei: “Vinicius, olha a música que eu fiz”. Daí ele sentou do meu lado, na época ainda tinha um daqueles gravadorzinhos… Aí ele falou: “Bonita! Eu vou gravar. Posso gravar?”. “Pode, lógico!” E ele gravou as duas que eu tinha feito. Ele tomava todas, vocês sabem [risos], mas ele se cuidava muito, né? Ele mesmo ia pra clínica.
Roberta Ele se internava.
Alaíde – Um dia ele foi para a Clínica São Vicente. Ele ligou: “Alaidinha, vem cá. Vem aqui me fazer uma visita que eu tenho um presente pra dar pra você”. Aí eu cheguei lá. “Abra a gaveta. Tem um presente pra você.” Eu procurei, procurei, não vi embrulho nenhum… [risos] Já pensei num presente. “Vinicius, eu não achei!” “Mulher, não tem um papelzinho dobrado? Pega ele!”. Eu peguei e eram as duas letras das duas músicas que eu tinha feito. Uma se chama “Amigo amado” e a outra “Tudo que é meu”. Presentão, hein?
Roberta Nossa Senhora!
Tacioli – É isso aí.
Alaíde – Aí a história do piano. [risos] Não terminei a história do piano… É o calmante, é o calmante que solta a língua! [risos] Olha a vergonha que eu já passei: cada vez que eu encontrava, não ganhava dinheiro. Naquela época era amor a arte mesmo! Não se ganhava dinheiro não, gente! Fazia, fazia aqueles shows de graça, ia para a televisão de graça, tudo de graça… para aparecer, mas não ganhava dinheiro. Quando ganhava era uma miséria que mal dava pra…

Professor e dono do piano - O compositor, instrumentista e maestro pernambucano Moacir Santos (1926-2006). Foto: reprodução

Roberta Pagar a condução…
Alaíde Pra suas despesas. E eu cantava na noite, aqui e ali, para sobrevivência mesmo. Como eu já tinha o piano, já não ia mais ao Vinicius. E quando tinha alguma reunião, me convidava, e eu chegava: “Ai, Vinicius, não tenho nenhum dinheiro para te dar, estou envergonhada”. “Ah, deixa isso pra lá!” Passaram-se acho que quase dois anos e eu sem um tostão! [risos]
Pavan Nenhuma parcela!
Alaíde Não! Nenhuma parcela! Eu não ganhava. Ou eu pagava o piano ou morria de fome. Ou pagava o piano e ia para o meio da rua com o piano e tudo. Aí um belo dia, sei lá o que deu nele, eu falei “Vinicius, e aí, não tô podendo pagar o piano!”. Ele falou assim (gritando): “Para de falar nesse diabo deste piano! O piano é seu, fica com esse diabo desse piano!”. [risos]
Roberta Ele ficou bravo?
Alaíde Ficou bravo. E aí eu fiquei com o diabo do piano até hoje. [risos]
Tacioli É aquele que foi fotografado (para a exposição Pioneiras)?
Alaíde É.
Roberta Aquele em que você está ao piano, com as fotos na parede?
Alaíde É. Só que era marfim.
Roberta E agora?
Alaíde Agora escureceu. Houve um tempo em que ele deu cupim, lá no Rio ainda, foi difícil arrumar um lugar para consertar porque ele é de uma marca, Delarue, francesa, e só tem um lugar no Rio, lá em Piedade. Ele foi para lá, mas voltou marfim. Quando eu vim para cá, que eu precisei arrumar, aí eu consegui um moço na Aclimação e escureceu tudo gratuitamente para mim. Ele é bem antigo. Comigo ele está há quantos anos? Sessenta?
Tacioli Uns cinquenta e pouco?
Alaíde Não, não, meu filho, eu estou com 76. Comigo ele está há quanto tempo?Pavan Uns cinquenta e pouco. Ele te quando em quem ano?
Alaíde Sessenta e um.
Pavan Cinquenta e um anos.
Alaíde Não, não, sessenta.
Pavan Cinquenta e dois anos contigo. Nada mal, um piano que foi do Moacir Santos, dado pelo Vinicius e agora é seu. Pedigree melhor que esse!
Roberta Você falou que tem dois filhos.
Alaíde Três. Três filhos, quatro netos e um bisneto.
Roberta Alguém seguiu a carreira?
Alaíde Tem um filho que é bom, viu?
Roberta É?
Alaíde Você não conhece o Marcelo?
Pavan Conheço.
Alaíde O Marcelo já fez produção até para o George Benson.
Roberta Nossa! [risos] Marcelo Lima. E ele canta?
Alaíde Canta e toca bem. Eu sou crítica, se não fosse bom…
Roberta Mas ele seguiu a carreira de músico ou não?
Alaíde Está seguindo.
Roberta Queria ouvir. Quantos anos ele tem?
Alaíde Que idade o Marcelo tem? [ri]
Pavan Faz tempo que não o vejo.
Alaíde Mas ele não aparenta a idade que tem. Quarenta e…
Roberta Vendo por você, eu imagino, né? [risos] Parece mais nova que eu. [risos]
Alaíde Mas é da raça, né? Quarenta e… Ele é de 1966.
Roberta Quarenta e cinco.
Alaíde Mas não aparenta. Parece um meninão, ele se sente… [ri] O bisneto é dele.

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