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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 12/15

Sabe quem me convidou? Oscar Peterson

Roberta – Além das suas músicas, tem alguma que você gostaria de ter gravado e não gravou?
Alaíde – Tem, tem muitas.
Roberta – Sou apaixonada por pelo menos metade da sua obra.
Alaíde – Obrigada.
Roberta – E eu tenho uma música que imagino que ficaria incrível com você que é a “Obra-prima”, do Lúcio Cardim. Você conhece? “Levar você de mim é mais fácil que trazer / Difícil é fazer você feliz…”.
Alaíde – Ah, conheço…
Roberta – E fiquei imaginando se você conhecia.
Alaíde – Não, nunca me passou pela cabeça.
Roberta – Essa é uma que eu gostaria de ouvir você cantar. [risos]
Alaíde – Hum, sabe “A dama de vermelho”, do meu disco com o Oscar Castro-Neves?
Roberta – Sei…
Alaíde – Já ouviu?
Roberta – Já, mas não me lembro…
Alaíde – Quem cantava era o Chico Alves.
Roberta – Do repertório dele?
Alaíde – Eu adorava.

Roberta – Essas músicas do Oscar, do Luverci, essas que você gravou, considero tudo uma obra-prima. Você conheceu o Bom Motivo, aquele bar que ficava na rua Lacerda Franco em Pinheiros?
Alaíde – Fui lá uma vez, mas como júri de um festival.
Roberta – De um festival de música que eles fizeram… Eu estava lá! O dono desse bar cantava todas essas músicas que ele conheceu por seu intermédio. Era uma das poucas pessoas na noite que cantava suas músicas, que são dificílimas.
Tacioli – Alaíde, foi difícil (a entrevista)?
Alaíde – Não.
Tacioli – Não, né?
Roberta – A gente podia caprichar mais nas perguntas…
Tacioli – Agora vai começar a parte difícil… [risos]
Pavan – A próxima meia hora vai ser…
Tacioli – Alaíde, vou fazer minha pergunta faixa-bônus: qual momento de sua carreira que você considera seu auge artístico?
Alaíde – Foi o “Onde está você” no Teatro Paramount, porque foi um festival que teve, mas não um desses competitivos.
Roberta – Era uma mostra.
Alaíde – É, tinham várias cantoras. Deixa eu ver se eu lembro: Ana Lucia, minha amiga que faleceu há pouco tempo, Paulinho Nogueira, Claudette, Oscar, Nara, Wanda Sá, muita gente, né? O Oscar sempre foi meu companheiro desde a bossa; ele ligou pra mim: “Vou fazer os arranjos pra você. Chego amanhã”. Ele chegava um dia antes do show. “E o que você vai cantar?” Eu havia escolhido “Tristeza de amar”, do Luís Roberto e Geraldo Vandré, e eu nem me lembro da outra música que escolhi. Acho que foi “Lágrima”, que era uma música dele. Aí ele falou assim: “Lalica” – ele me chama de Lalica – “acabei de compor uma música com o Luverci” – o Oscar só teve parceria com o Luverci. “Eu acabei de compor com Luverci e da próxima vez você vai cantar, tá?”. “Ah, é? Tá bom. Deixa eu ver.” Depois que eu havia cantado com ele, falei “Não vai ser da próxima vez, vai ser amanhã!”. Aí aprendi a música, fui lá e cantei. No meio da música, o pessoal ficou em pé e começou a aplaudir uma música inédita! E eu comecei a chorar! Eu chorava tanto, mas eu chorava tanto! Foi um momento…
Roberta – O auge.
Alaíde – É. E foi dali que começou aquela moda de aplaudir no meio. Começou comigo ali no Paramount.
Roberta – O Oscar mora há muitos anos fora do Brasil, né?
Alaíde – Em Los Angeles.
Roberta – Você já pensou em ir pra lá trabalhar com ele? Você teve convites?
Alaíde – Eu tive convites. Dá vontade de bater na minha cara. Sabe quem me convidou? Oscar Peterson! E eu não fui!

O pianista canadense de jazz Oscar Peterson (1925-2007). Foto: reprodução

Roberta – Por que?
Alaíde – Ah, eu estava com dois filhos pequenos, casada, aquelas coisas, né? Ele veio fazer uma apresentação ali no que agora é Cultura Artística. Era a TV Excelsior. Ele veio fazer uma apresentação ali e tinha um moço que o apelido dele é Paulo Dana. Esse Paulo Dana pegava os artistas estrangeiros, americanos, franceses e levava nos lugares que ele sabia que tinha boa música. Eu estava fazendo um show com o Johnny, a Ana Lucia e Paulinho Nogueira em um lugar chamado Canto Terço, que era do lado do João Sebastião Bar. Eu estava cantando “Insensatez”. De repente, eu vi que mudou o som do Johnny. Era o Johnny que me acompanhava e mudou o som. Eu olhei e era o Oscar Peterson! Ele pediu licença pro Johnny! Saiu nos jornais no dia seguinte: eu e ele tocando, me acompanhando. Tenho os recortes de jornais. Já pensou? Não falo inglês, não entendo nada. Ele conversou com o pessoal, (disse) que era pra eu ir no Cultura Artística, que ele ia me convidar para cantar, mas aí o marido não deixou porque era um show, era mesmo, um show montadinho. Um saindo já fazia diferença, mas eu acho que os meus amigos iam entender, né? Mas o meu marido ficou no meu pé.
Max Eluard – Ficou morrendo de medo…
Alaíde – Ficou morrendo de medo… [risos] Aí (o Oscar Peterson) falou para o Johnny que queria me levar…
Roberta – Você acha que o casamento atrapalhou sua carreira?
Alaíde – Não, não… Foi somente nessa situação, mas também eu não iria mesmo, porque largar dois filhos pequenos, sei lá, eu não iria mesmo… Mas ele cortou a chance de eu cantar com ele (Oscar Peterson) naquele teatro.

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