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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 11/15

Da minha geração tem poucas sobreviventes

Roberta – Ouvi em uma entrevista que você falou que em um desses festivais que você ganhou, o prêmio era um programa na TV Tupi.
Alaíde – É, foi esse da Record. Era assim: o público entrava e votava no cantor ou cantora que queria. Aí eu me lembro que o Geraldo Vandré e o Carlos Lyra ficaram empatados e eu ganhei sozinha. Era um programa chamado No balanço do samba, mas ficou somente três meses no ar. Foi uma coisa assim, relâmpago.
Roberta – Ah, entendi…
Tacioli – E com a sua timidez, como é que você lidava com a câmera, Alaíde?
Alaíde – Humn…
Tacioli – Programa mudo?
Alaíde – Não, falar mesmo eu não falava, hoje eu até que falo muito.
Tacioli – Alaíde, você se acha uma artista reconhecida por tudo o que você fez? Como é que você lida com o reconhecimento?
Alaíde – Ah, eu nem sei, não sei avaliar isso não. Uma coisa eu sei: as pessoas respeitam o meu trabalho, respeitam a forma como conduzo a minha carreira, de não entrar nessa de concessões. Mas eu não faço isso de não entrar nas concessões pra ser diferente, é porque o que me atrai é o que eu faço, então sigo meu caminho e pronto.
Pavan – E você tem bastante trabalho? Você consegue fazer os seus shows ou você poderia fazer mais?
Alaíde – Ah, poderia, de certo, acontece de eu ficar meses sem fazer uma…
Pavan – Sem fazer uma apresentação?
Alaíde – É.
Pavan  Para a classe artística é uma música tão rica, que deu tanta coisa pra economia brasileira e pra sociedade e ainda hoje não se tem um plano de aposentadoria decente para o músico. Se você tivesse seguido a carreira de professora sua situação não seria diferente. Você vê alguma evolução? Você tem uma carreira tão extensa, conhece tanta gente, acompanhou e tem amizades com todas as gerações, como você vê a sua geração em relação às anteriores?
Alaíde – Da minha geração tem poucas sobreviventes. Da minha geração somente a Claudette Soares, Dóris Monteiro… Acho que não tem mais ninguém, todas já se foram…
Pavan – E o reconhecimento da Claudette é maior do que o seu, não estou falando em relação…?
Alaíde – Eu sei, sei, mas isso eu não sei responder.
Pavan – Mas a sua geração, pela importância que teve, ela foi bastante reconhecida? Tem o reconhecimento que merece?
Alaíde – Bom, eu sei que, que quando faço as minhas apresentações, sou muito bem recebida e sempre tenho público. Então, o reconhecimento do público eu tenho. Acho que o (reconhecimento) da mídia é que eu não tenho, não falo de um modo geral, porque tem várias pessoas da mídia que me apoiam, mas de um modo geral a mídia está voltada para o modismo, para quem está aparecendo, e com isso, os outros, não estou falando somente de mim e da Claudette, muitos outros vão ficando para trás, quando há espaço para tudo, né?
Roberta – Você tem um empresário?
Alaíde – Eu tenho. [n.e. O produtor Nelson Valencia, que também empresariava Johnny Alf]
Tacioli – Quando se fala de bossa nova, algumas figuras que foram tão importantes quanto você e o Johnny Alf ficam a margem desse reconhecimento para a bossa, né? Como é isso? É difícil isso pra você isso, Alaíde?
Alaíde – Sabe o que eu acho? Quando eu cheguei ali naquelas reuniões, eu já era uma profissional. Então eu vi um pouco de interesse que eu levasse a coisa mais, sabe, como eu quis gravar e gravei muitos deles antes mesmo do João, entendeu? E aí depois esquecem, esquecem… Eu já era profissional, mas vivi aquilo tudo…
Tacioli – Você foi uma ponte quando interessava…
Alaíde – Humn, humn.
Tacioli – E quais são os seus planos?
Alaíde – Ah, planos eu tenho… Um deles é gravar as minhas composições.
Pavan – E você continua compondo?
Roberta – Quantas músicas você tem?
Alaíde – Ah, eu nem sei, não tenho muitas, mas um pouquinho; trinta eu tenho, né?
Roberta – Estão registradas?
Alaíde – Não.
Roberta – Não?!
Alaíde – Não, mas algumas estão em uma editora. É a mesma coisa, né?
Pavan – Mas estão na sua cabeça?
Roberta – Ou no papel?
Alaíde – Ah, sim, sim, uma vez eu fiz uma apresentação na UMES, aqui em São Paulo cantando só as minhas composições.
Roberta – Eles gravavam? Você não tem esse registro gravado?
Alaíde – Não. Ou melhor, eu tenho sim, mas aquela coisa que não chegou a ser um CD, sabe? Depois dessa minha apresentação é que começaram a fazer os CDs…
Pavan – Você continua tendo aula de música no CLAM?
Alaíde – Não. Eu tive bolsa, mas aí cortaram a minha bolsa… [risos] Contenção de despesas.
Tacioli – Cortaram a bolsa da Alaíde!
Pavan – Você que tem uma história que é inegável, que a gente só tem que aplaudir, você continua tendo aula de música ou continua querendo aprender, fazer coisa nova…
Alaíde – Ah, eu aprendo todo dia. Cada vez que eu vou cantar, eu aprendo um pouquinho, comigo mesma mas eu aprendo…

O violonista Turíbio Santos e Alaíde Costa no Projeto Pixinguinha de 1977. Foto: Funarte

Roberta – Lembrei de uma coisa: um amigo meu alagoano que é violonista e mora em Brasília me contou que uma vez estava no camarim com o Raphael Rabello, com você e com um grupo, e que aí o Raphael falou assim: “Alaíde, dá um Lá!”. E aí você deu um Lá e o grupo inteiro afinou em cima do seu Lá. [risos] Você lembra disso?
Alaíde – Não, não lembro. Ah, acho que foi em um daqueles projetos do Herminio, Projeto Pixinguinha, que fiz com o Raphael Rabello, Turíbio Santos e Copinha.
Tacioli – Alaíde, se deixar a gente vai madrugada afora…
Roberta – Tem mais alguma coisa que você quer contar pra gente que não foi perguntada?
Alaíde – Não.
Roberta – Às vezes o entrevistador peca, né?
Pavan – O Herminio passa muito trote em você?
Alaíde – Passa. [risos]
Tacioli – Qual foi o último?
Alaíde – Ah, tem um tempinho que ele não passa.
Tacioli – Mas teve um clássico? Um que você não esquece, que você lembra e fala “Eu ainda vou pegar esse Herminio!”?
Alaíde – Ele passa muitos.
Roberta – Como assim, por telefone?
Alaíde – É.
Roberta – Ele liga falando que é outra pessoa.
Alaíde – Não, ele muda a voz. Aí eu caio… [risos]
Pavan – E você já deu o troco nele?
Alaíde – Não.
Pavan – Dá o troco nele, mas com a sua voz vai ser difícil, né? [risos]
Alaíde – Num outro dia eu mesma ri, porque liguei para um amigo meu e falei assim: “Sabe quem está falando?”. [risos] Ele falou: “Larga mão de ser boba!” [risos] Uma vez eu fui a uma reunião, num desses programas que tinha na Record que era do Eduardo Moreira, você conheceu o Eduardo Moreira?
Tacioli – Não, eu não conheci. [n.e. Adolfo Eduardo Moreira, produtor de programas de música brasileira da TV Record]
Alaíde – O Paulinho Nogueira falou assim: “Ah, vai ter uma reunião na casa do Eduardo e ele está te convidando. Vamos lá!”. O Eduardo era o produtor. Aí eu fui. Cheguei lá, uma mulher me olhava, mas ela me olhava com uma cara esquisita do tipo “Ih, quem é essa aí?”. E eu não tinha feito nada pra ela. De repente, alguém me apresentou. Daí eu comecei a conversar com ela e ela falou assim: “Eu não gostava de você!”. “É?” “Não, não você a cantora, você a pessoa.” “Ué? Por que? Eu não te conhecia.” Aí ela falou assim: “Porque o meu marido falava assim pra mim: ‘Isso que é delicadeza! Essa mulher que fala assim, fala assado…’. E eu não gostava mesmo, eu achava que você falava assim para fazer charme!”. [risos] Ai meu Deus! Louca, né? Quem é que consegue fazer charme tantos anos assim?

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