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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 10/15

Lá fui eu buscar o Geraldo Vandré

Tacioli Alaíde, além do Stênio e do João Gilberto, tiveram outros anjos, nomes importantes que abriram portas pra você?
Alaíde – Ah, sim, sim. Por exemplo, o Moacyr Machado, que era diretor da Odeon aqui em São Paulo. Ele me viu cantando com o Milton (Nascimento). O Milton fez o lançamento de um desses discos dele no Teatro Municipal e sabia que eu estava lá e me chamou para dar canja, né? Eu já havia gravado com ele no Clube da esquina e estava sem gravar havia muitos anos. Daí fui assistir ao show do Milton e ele me convidou pra cantar. Eu estava lá na plateia. Ele sabia que eu estava. Aí fui lá e cantei o “Me deixa em paz” com ele. E pediram bis, aquela coisa toda. Ele falou: “Agora é com você!”. Aí eu cantei “Primavera” com o Wagner Tiso. [n.e. Música de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes gravada por Alaíde pela primeira vez em 1974] E esse Moacyr estava lá e falou assim: “Passa lá um dia desses pra gente conversar” e aí eu voltei a gravar.
Pavan O Milton falou “Vamos gravar o ‘Me deixa em paz'” ou foi sua a sugestão da música? Quem a escolheu? [n.e. Samba de Monsueto de Menezes e Airton Amorim lançado em 1951 por Linda Batista]
Alaíde – Não. Foi assim: eu estava num programa chamado Almoço com as estrelas e ele estava também. Ele se apresentou antes de mim e daí o Airton, como é…?
Tacioli Airton Rodrigues.
Alaíde – O Airton Rodrigues falou assim: “Milton, agora você fica aí que eu vou chamar uma pessoa que eu gosto muito e eu sei que você gosta muito também. Fica aí que você vai tocar com ela.” Mas eu não havia ensaiado com ele. Eu cantei com o trio com quem eu estava me apresentando em um lugar chamado Casa Forte, que era o Luiz Mello e seu trio. E lá no Casa Forte eu cantava o “Me deixe em paz” e fazia o maior sucesso.
Roberta Mas em ritmo de samba ou já lento?
Alaíde – Não, já daquele jeito que foi gravado. Daí, quando terminou, o Milton ficou lá, ele não conhecia essa música. Depois ele falou: “Desculpa, eu não conhecia (a música). Olha, nós vamos gravar essa música”. Falei assim: “Ah, é? Que bom!”. Aí passou o tempo, passou, passou: “Esqueceu!”. [risos] Um belo dia eu recebi uma ligação da Odeon. Não era o Moacyr Machado, era uma outra pessoa me convidando pra ir até o Rio pra gravar com o Milton “Me deixa em paz”.
Roberta – Você considera o Milton um desses anjos?
Alaíde – Sim, porque foi ele que praticamente me fez voltar ao disco. Antes foi um período de muita mudança. Tive até proposta para gravar “Serenata do adeus” em ritmo de iê-iê-iê. [risos] Juro, juro mesmo! Sabe essas coisas que estavam acontecendo. E música de protesto, que não é a minha praia.
Tacioli Pelo que vi, esse período sem gravar foi de 1966 a 72. Foi isso mesmo?
Alaíde – Foi de 1965. A última vez que eu gravei foi em 1965. [n.e. Neste ano, a cantora lançou Alaíde Costa, álbum de 12 faixas que reunia “Sonho de um Carnaval”, de Chico Buarque, “Estou só”, de Johnny Alf, “Terra de ninguém”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, “Diz”, de Walter Santos e Teresa Sousa, além da autoral “Tudo o que é meu”, parceria com Vinicius de Moraes. O disco contou com orquestrações dos maestros Erlon Chaves e Oscar Castro-Neves]
Tacioli Então nesse período de sete anos ficou recebendo propostas que não tinham a ver…
Alaíde – Indecorosas.
Roberta E não teve nada a ver com seu problema de audição…
Alaíde – Não! Eu só operei depois do Clube da esquina, depois do meu LP com Oscar Castro-Neves. [n.e. O disco Alaíde Costa & Oscar Castro-Neves, lançado pela Odeon em 1973, marcou o retorno da cantora aos estúdios para trabalhos individuais]
Pavan E que problema de audição foi esse?
Alaíde – Eu tive um problema chamado otoesclerose. O otorrino falou que a pessoa já nasce com o problema e quando atinge uma certa idade é que começa a aparecer. E apareceu justamente numa época muito difícil de trabalho, de tudo… E sem gravação a coisa ficava mais difícil.
Pavan E quais são sintomas da doença? Doía o ouvido?
Alaíde – Dor nenhuma.
Pavan Mas o que é?
Alaíde – É um zumbido. Quando eu deitava parecia que tinha uma pessoa cansada no meu ouvido, sabe? E quando tinha lugar muito silencioso, eu também sentia muito (isso).
Tacioli O fato de viver na noite, de viver cantando, da amplificação sonora, isso prejudicava mais ainda, intensificava o problema?
Alaíde – Humn, humn.
Pavan  Agora nesse período de sete anos o que você fez?
Alaíde – Cantei!
Pavan E sem gravar…
Alaíde – Continuei cantando por aí afora mesmo sem gravar, né?
Roberta Você já estava em São Paulo, né?
Alaíde – Já. Aí, cantei no Igrejinha, no Jogral, esses lugares assim.
Max Eluard E nesse período teve o AI-5, época em que a ditadura recrudesceu, e você falou que essa música de protesto não te atraía, não era a sua praia.
Alaíde – Não.
Max Eluard Mas como que era a sua relação, Alaíde? Você era cobrada? Tinha um policiamento
por parte dos músicos?
Alaíde – Não, não.
Max Eluard Tinha espaço para você fazer a sua música…
Alaíde – Ah, claro, claro! Eu me lembro que, acho que foi em 70, a situação mais complicada que eu passei na vida artística. Foi em 71 em que eu fui convidada para cantar no Festival Internacional da Canção uma música do Hermeto Pascoal. O Hermeto Pascoal, sabe como é que é, né? [risos] Daí ele fez um arranjo, a música bonita, sabe?
Roberta Qual era a música, você lembra?
Alaíde – Chama-se “Serearei”. É toda com umas palavras, uns dialetos, umas coisas assim, mas a música era muito bonita. Ele fez um arranjo todo cheio de coisas, aí, pá e pá, quase dez minutos só de introdução. [risos] E eu lá parada e o povo “Uuuuuh!” [risos] O Maracanãzinho inteiro…
Roberta Nossa, que situação! [risos]
Alaíde – O Maracanãzinho em peso me vaiando… [risos]
Max Eluard E você não tinha ainda aberto a boca…
Alaíde – E eu lá paradona! Dez minutos também é exagero, mas uns cinco… Mas um arranjo, aliás, dificílimo para entrar na música… Ai meu Deus, que sufoco! E ainda com aquele povo todo vaiando… Meu Deus!

Roberta Mas você conseguiu?!
Alaíde – Aí eu entrei e o povo vaiava… E o povo vaiava! Mas era o Festival Internacional da Canção e tinha um júri bem selecionado, e a música foi classificada! [risos] Aí lá fui eu para a final.
Pavan Garantia de mais vaias.
Alaíde – Eu acho que era a segunda. Aí eu entrei, começou a vaia, aquela vaia toda… E daí cortaram o meu som. Falaram que teve um problema técnico, que não-sei-o-quê, que eu tinha que sair, os músicos saíram… Aí foi todo mundo preso lá pra dentro do Maracanãzinho, não tinha camarim, eram aqueles lavatórios. Todo mundo preso.
Roberta E aí?
Alaíde – Ouviram que no meio da música o Hermeto ia colocar uns porcos… [risos] “Vai colocar uns porcos lá no palco!” [risos] Foram pesquisar e não tinha porco nenhum. E eu tinha que voltar no final da música, no final, porque, se eu não entrasse, o Hermeto teria que pagar uma multa de não-sei-quanto. E eu não queria. “Não entro mais! Não vou, não vou!” E o Hermeto: “Ah, eu vou pagar multa!”. Aí tá, lá fui eu. Vaia de novo! [risos] Aí menino, chegou uma hora que me deu um nervoso tão grande que eu peguei e falei assim: “Gente!”, no que eu falei “Gente!” cortaram o som. Aí eu joguei o microfone longe…
Pavan – Baixou o Sérgio Ricardo…
Alaíde – Hã?
Pavan – Baixou o Sérgio Ricardo.
Alaíde – É! Joguei o microfone longe!
Max Eluard – Pra cima da plateia?
Alaíde – Joguei longe… Não, era distante da plateia, joguei o microfone… Aí o povo, bah! [risos]
Tacioli – Me dá mais microfone!
Alaíde – Aí começaram a me aplaudir! [risos] Daí sim, quando voltamos tinha mais polícia, gente presa, o Roberto Freire, lembra do Roberto Freire, né?
Pavan – Ele estava como jurado.
Alaíde – Estava. Ele foi lá saber o que estava acontecendo e foi preso! Sabe, foi um auê! Inventaram que eu ia ler um manifesto subversivo [risos] só porque eu falei “Gente!”. Ó, deu pancadaria e tudo! Eu não apanhei, não, mas pelo amor de Deus!
Tacioli – Alaíde, você é ou era amiga do Geraldo Vandré?
Alaíde – Sou.
Tacioli – E desde quando?
Alaíde – Ah, desde os programas de calouros, como o Pescando estrelas. Ele cantava com o nome de Carlos Dias, depois ele mudou para Geraldo Vandré, que não sei se é o nome verdadeiro, né?
Tacioli – E como você acompanhou esse percurso dele: primeiro nos programas de calouros, depois para o “Caminhando e cantando”?
Alaíde – O “Caminhando e cantando” veio depois, porque ele chegou a participar de algumas reuniões de bossa nova, chegou a compor com o Carlos Lyra. Daí o “Caminhando e cantando” veio depois, sei lá o que deu nele, na cabeça dele, que ele resolveu mudar o perfil…
Tacioli – Acho que há uns dois anos ele voltou a dar uma entrevista, ele reapareceu. Você tem contato com ele ainda? [n.e. Em 2010, Geraldo Vandré foi entrevistado pelo jornalista Geneton Moraes Neto, da GloboNews]
Alaíde – De vez em quando, né? Mas ele faz umas propostas assim: “Vamos fazer um show?!”; “Vamos, Geraldo, vamos sim!”; “Mas não aqui no Brasil!”; “E aí, fazer show onde, hein?” [risos] “Aqui no Brasil eu não canto!” Aí teve uma história do Geraldo: houve um show ali no Pacaembu na posse da (Luíza) Erundina como prefeita (1o de janeiro de 1989), estava o Suplicy, não-sei-quem… Aí o Sérgio Ricardo ligou pra mim: “Alaíde, estamos com um problema aqui: o Geraldo Vandré disse que só vai se você for buscá-lo”. Lá fui eu buscar o Geraldo. Ele tinha, não sei se tem ainda, um apartamento na Martins Fontes.
Roberta – Tem ainda.
Alaíde – Aí lá fui eu buscar o Geraldo. E lá foi ele. Chegou lá e já deu um problema: um segurança não queria deixá-lo entrar. Veio o Suplicy: “Não, pode deixar entrar!”. Ele estava injuriado por causa disso. E cheguei lá e cantei. A atrevida aqui cantou as “Bachianas n° 5”, de Villa-Lobos. Eu não tinha quem me acompanhasse, aí cantei a capella. [risos] Foi tudo muito bem. Aí eu anunciei o Geraldo Vandré. Todo mundo feliz, nossa, Geraldo Vandré! Aquela praça veio abaixo, sabe? Aí ele falou assim: “Eu vou apresentar a vocês a última composição minha, que se chama ‘Fabiana’, para a Força Aérea Brasileira”. Aí recitou a tal da “Fabiana”. Ai meu Deus, não tinha nada a ver, né? Todo mundo ficou decepcionado, sabe?
Tacioli – Mas não foi vaiado?
Alaíde – Não, não foi mas…
Tacioli – Foi um constrangimento geral.
Alaíde – É. Daí, de vez em quando, a gente se fala, mas ele com aquelas manias de cantar fora do Brasil estragou tudo.
Roberta – Você o conheceu no comecinho da carreira. Há quem diga que ele não foi torturado. Ele mesmo deu um depoimento negando tudo, né?
Alaíde – Ah, eu não sei, porque ele ficou muito tempo fora do país. Eu não sei, mas ele tem uma cicatriz que ele não tinha antes… Não sei, de repente tem os acordos…
Roberta – Mudando de assunto, você conheceu o Mário Reis?
Alaíde – Ah, tá me tirando? [risos] Não, não tinha como, eu era muito criança.
Roberta – Mas o Mário Reis viveu no Copacabana Palace até a década de 1970, né?
Alaíde – 1970? Ah é?
Tacioli – E gravou Chico Buarque.
Alaíde – Ah, é mesmo? Desculpe a vergonha que eu passei… [risos]
Pavan – Pensei que você não gostava dele…
Alaíde – Ah, não, eu entendi a pergunta se eu conheci pessoalmente, foi isso.
Roberta – Foi isso…
Alaíde – Foi isso?
Roberta – Mas você gostava?
Alaíde – Gostava, gostava… Ele cantava bem diferente também.
Roberta – Por isso que eu perguntei.
Tacioli – E quem canta diferente hoje? Ou quem compõe que você gosta?
Alaíde – Ah, meu Deus! Tem tanta gente legal, mas eu prefiro não citar quando me fazem esse tipo de pergunta porque, como diz a gíria, é uma saia muito justa pra nós. Cita uma, aí você encontra a pessoa: “Ah, você falou de fulano e não falou de mim”. “E as cantoras da nova geração, o que você acha?” Eu não acho porque é uma situação muito complicada. Prefiro não falar.
Roberta – Você só vai falar depois que desligarem a câmera?
Alaíde – Não! [risos] Mas não é? Aí fala de uma, tem uma que é tanto sua amiga e você gosta mais da outra que não é tão sua amiga e aí fica aquela situação. Ou amigo mesmo, né?
Tacioli – Olha, a gente está caminhando para o finalmente, somente pra não estender demais…
Alaíde – Então deixa eu molhar a palavra.

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