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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

parte 9/15

Minha bossa nova parece rumba

Pavan Essa sua vinda pra São Paulo foi sua primeira saída do Rio pra trabalhar fora?
Alaíde Não, eu já tinha vindo várias vezes nesse (programa) Brasil. Era em que ano? Eu acho que era em 1958.
Pavan Nessa época a bossa nova estava começando…
Alaíde Tava começando…
Tacioli Mas já se chamava de bossa nova?
Alaíde Em 1958 já era bossa nova.
Tacioli Mas se falava bossa nova como um estilo? Como se identificava?
Alaíde Quando começou essa história de bossa nova, que eu comecei a frequentar as reuniões de bossa nova nos apartamentos, que não eram só o apartamento da Nara Leão, era o da mãe do Nelson Motta… Por exemplo, a primeira reunião que eu fui foi na casa do Bené Nunes, pianista. Eram em vários lugares. Tinha um compositor chamado Nilo Queiroz que dava reuniões na casa dele.
Roberta Ele foi do Trio de Ouro?
Alaíde Não.
Tacioli Não, aquele era o Nilo Chagas.
Roberta Nilo Chagas era Trio de Ouro.
Alaíde – Onde nós estávamos?
Tacioli Nas reuniões…
Roberta Nos apartamentos…
Alaíde – Não, isso eu sei, a perguntar anterior.
Roberta Se já era chamada de bossa nova…
Alaíde – Não, pois é, não era, não tinha nome quando começaram essas reuniões que o João falou que tinha uns meninos fazendo uma música diferente, que achava que eu tinha tudo haver com aquilo.
Tacioli Mas o João frequentava essas reuniões?
Alaíde – De vez em quando, muito de vez em quando ele aparecia, mas era muito raro.
Tacioli Falou “Vá lá!” mas ele não foi.
Alaíde – É, eu fui e não conhecia ninguém.
Roberta E como você foi recebida?
Alaíde – Muito bem porque inclusive o Bené já tinha cruzado comigo na Rádio Nacional. Ele era casado com a Dulce Nunes. Ela me tratou bem, ela muito simpática e foi ali que eu conheci a turma toda: Oscar Castro-Neves, Carlinhos Lyra, Menescal, Ronaldo Bôscoli, Nara, que ainda não cantava, só era namoradinha… Mas não tinha nome, não. Aí, um belo dia, surgiu esse nome aí: bossa nova! Esquisito!
Max Eluard Você lembra a primeira vez que você ouviu esse nome?
Alaíde – É, eu ouvi: “Bossa nova não-sei-o-quê!”; “Festival de bossa nova”,vai ter um show de bossa nova. O primeiro show mesmo que houve foi na Escola Naval em 1959… Teve um aqui também, em São Paulo, no Teatro Record, quando veio uma turma grande do Rio. Vieram a Silvinha, eu, o Carlos Lyra, a Nara, quem mais? Uma menina chamada Laís Bezerra…
Pavan Esse (programa) que você está falando é do Walter Silva?
Alaíde – Não, não, não.
Roberta Foi na Record…
Alaíde – Um show no Teatro Record só de bossa nova. Participaram o Juca Chaves, a Elza Soares, o Geraldo Vandré…
Tacioli Sérgio Ricardo participou também?
Alaíde – Não, nesse não! E quem mais que estava ali que eu me lembre? Não me lembro de mais ninguém… Acho que a Norma Bengell estava.
Tacioli Alaíde, se não me engano, o LP Canção do amor demais foi lançado em 1958 com a Elizeth Cardoso. Você lembra da sua impressão quando você ouviu aquele disco?
Alaíde – Nossa, fiquei louca!
Tacioli Louca de raiva ou de… [risos]
Alaíde – Nossa, louca pelas composições, por tudo, né? Muito lindo, nossa! Fiquei apaixonada!
Tacioli Você chegou a acompanhar o processo (do disco graças à) proximidade com alguém?
Alaíde – Não.
Roberta Você já conhecia a Elizeth?
Alaíde – Já.
Roberta Como vocês se conheceram?
Alaíde – Na Rádio Nacional. A Rádio Nacional era praticamente o ponto de encontro de todos, de todas. E Canção do amor demais é muito lindo.
Pavan E o João Gilberto, como que vocês se conheceram? Você falou que ele pediu para que você fosse até (o apartamento) mas ele não foi. Então vocês já se conheciam?
Alaíde – Não, não conhecia. Foi assim: conheci (o João) por telefone. Eu estava lá fazendo meu segundo 78 rotações na Odeon e não sei porque o João estava lá. Mas eu não vi João. Aí ele mandou o Aloysio (de Oliveira) falar comigo, que tinha os meninos fazendo uma música diferente, que achava que meu jeito de cantar tinha tudo a ver e tal; que a música que eu havia escolhido era bem assim, não era bossa nova, mas estava ali próxima, né? Aí ele gostou e o Aloysio falou assim: “Tem um moço, o João Gilberto, aquele que tocou no disco da Elizeth…”. Não, foi antes do disco da Elizeth! É, foi antes, foi antes do disco da Elizeth. “É um moço assim, assim…”. Ele citou o violonista do disco, até então os outros não tinham aparecido, não é isso mesmo? Carlos Lyra, Oscar Castro-Neves. Foi depois, sim… E daí um belo dia ele ligou lá, eu nem tinha telefone em casa, foi uma vizinha que deu o telefone, aí eu fui atender e era ele. “É o João! Tem um lugarzinho assim…”; e “pa-pa-pá”, eu anotei num papelzinho e fui da Água Santa para o Jardim Botânico. Pensa bem, é longe pra caramba. Naquela época era tudo muito longe, né? E aí chego lá e nada de João. Eu também não tinha visto o João. Falei assim: “O João está?”. Achei engraçado que todo mundo riu, não, não deu risada, não, um olhou pro outro assim e riu.

Roberta Será que ele já tinha aquela fama?
Alaíde
 Já. [ri]
Tacioli E como foi o primeiro encontro mesmo?
Alaíde – Com o João?
Tacioli É.
Alaíde – O primeiro encontro já foi assim: eu estava pra fazer o meu primeiro LP na RCA e o João estava numa dessas reuniões que foi na casa de um fotógrafo chamado Chico Pereira. Ele adorava música, sabe? E recebia gente sempre. E eu tinha um amigo que conhecia bem o João e falou assim: “Ah, você podia ir dar uma força e fazer um violão pra ela”. Aí ele se animou e foi pra fazer esse tal de violão, né? Chegou lá, a gravadora não aceitou, porque não acreditava ainda na bossa. Tinha lá um violonista, aliás, um fantástico violonista, mas que não sabia aquela coisa da bossa nova, não sabia mesmo, somente aqueles meninos lá.
Tacioli Quem que era esse violinista?
Alaíde – O Zé Menezes! [n.e. O multi-instrumentista das cordas José Menezes de França (1921-2014), cearense de Jardim, trabalhou na Rádio Nacional, onde teve um programa com Garoto, foi integrante do Sexteto Radamés Gnattali, fundou nos anos 1960 o grupo Os Velhinhos Transviados, e a partir de 1970 assumiu a direção musical da TV Globo. Assinou a trilha sonora de programas como Os Trapalhões, Chico City e Viva o Gordo]
Roberta Ah, o Zé Menezes!
Alaíde – Fantástico, né? Mas ele não sabia, na época não sabia. Aí, o João, milagre, mas milagre, milagre, às dez horas da manhã estava lá na RCA, mas não deixaram (ele gravar). Conclusão: a minha bossa nova parece rumba. [risos] Sério! Põe lá pra vocês ouvirem.

Tacioli E com o João você nunca gravou?
Alaíde – Não.
Pavan Graças a RCA.
Alaíde – E depois encontrei com ele na Nacional. Tem uma foto histórica, né?

João Gilberto, um dos "anjos" de Alaíde Costa. Foto: reprodução

Pavan É, tem uma série de fotos em que vocês estão na praia. Tem um banco…
Alaíde – Não, ali é a Praça Mauá.
Pavan Ah, é a Praça Mauá.
Alaíde – A Praça Mauá, em frente a Rádio Nacional. Então, nunca mais, nunca mais encontrei o João.
Pavan Mas essas fotos em que vocês estão juntos foram (produzidas) por quê?
Alaíde – Porque a gente saiu junto da Rádio e tinha um fotógrafo da Radiolândia, qualquer uma daquelas (revistas), fotografou e acabei tendo a foto.
Pavan O registro que a RCA não fez o fotógrafo fez, né?
Roberta E você não o viu mais desde quando?
Alaíde – Aí, não vi mais. Uma vez, ou melhor, eu o vi uma vez em que ele já morava nos Estados Unidos e veio fazer uma apresentação aqui na Record, no Teatro Record. Aí eu fui assisti-lo… Isso tem muito tempo!
Tacioli  E nos últimos 20 anos…
Alaíde – Não, nunca mais, 40 anos…
Roberta Nem ver e se nem falar?
Alaíde – Nem falar, nada, nada. E ele fala?! [risos]
Tacioli E eu sempre achei que vocês fossem amigos…
Alaíde – Não, não! Assim como o técnico de som da Odeon, ele também foi um anjo na minha vida, né?
Roberta E você também nunca mais o viu?
Alaíde – Quem? O técnico? Eu o vi no dia do teste, no dia da gravação; quando eu voltei ele havia sumido, sumiu, nem a Odeon soube me explicar o que que aconteceu com o moço. Alguns anos atrás um dos filhos dele ligou pra mim, alguém deu o telefone. Ele ligou, disse que gostaria muito de me conhecer, de conversar, que ele havia lido uma entrevista minha em que eu falava do pai deles, nem eles sabiam do pai.
Tacioli Como ele chamava mesmo?
Alaíde – Stênio. Nem eles sabiam do pai, sumiu assim…
Roberta Que loucura! E aí você o conheceu, você o recebeu.
Alaíde – O menino? Ele ficou de me ligar de volta pra gente se encontrar, mas acabou…

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