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Entrevistas de música brasileira

Alaíde Costa

Alaíde Costa. Foto: Jeff Dias/Gafieiras

Alaíde Costa

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A voz e o verbo

Alaíde cresceu ouvindo vozeirões, sambas, baiões e boleros. Cresceu sonhando ser professora e virou cantora que não cantava o que queriam, “coisas mais animadas e com agudo”. Trincou a moldura “artista negro é para cantar sambão”. Gostava de uma “música esquisita”, como afirma, e que naquele Rio de Janeiro dos anos 1950 estava para ganhar forma, nome e fama.

De sua estreia profissional em 1954 como crooner da orquestra do Dancing Avenida, onde marmanjos pagavam para dançar e beber, até seu primeiro LP, Gosto de você (1959), a jovem carioca forjou seu estilo musical: sambas-canções, bossas e jazz de temática romântica. Sua interpretação macia, seu timbre e sua precisão a tornaram uma cantora de câmara, a “cantora dos músicos”. Basta ouvir seu álbum de 1995 com o pianista João Carlos Assis Brasil. Mínimo e máximo.

A moça tímida que saiu do Rio de Janeiro em 1962 para se casar em São Paulo não ficou somente na música popular: nessa mesma década dividiu o palco com o violonista Turíbio Santos e protagonizou no Teatro Municipal de São Paulo o show de canções renascentistas Alaíde alaúde, dirigido pelo maestro Diogo Pacheco. No entanto, viu o sucesso de perto apenas em dois momentos: quando calou o Teatro Paramount (SP) com “Onde está você” no show O fino da bossa – que lhe garantiu espaço no rádio e contrato de dois anos com a TV Record – e ao dividir o microfone com Milton Nascimento em “Me deixa em paz”, faixa do LP Clube da esquina (1972).

Fitando sua pequena e emblemática discografia, nota-se a coerência musical e de interpretação. Saltam registros valiosos, como o álbum de 1965, homônimo, e Coração (1976), produzido por Milton Nascimento e instrumental com figuras como João Donato, Toninho Horta e Robertinho Silva.

Os anos 2000 foram mais generosos, pelo menos no que se refere ao número de discos gravados. De todos, o mais recente, Canções de Alaíde (2014), é motivo de orgulho por se tratar do primeiro que traz exclusivamente suas músicas solo ou em parceria com Vinicius, Jobim, Geraldo Vandré e Herminio Bello de Carvalho.

Então com 76 anos de idade, a fã de Dalva de Oliveira reencontrou o Gafieiras na noite de 23 de julho de 2012. A primeira vez havia sido em 2009, quando posou para João Correia, um dos sete fotógrafos da exposição Pioneiras, organizada por este site. Alaíde chegou sozinha, e depois de escanear o ambiente, esparramou gargalhadas, frases curtas e um pouco de sua história. Em três horas e meia não hesitou em falar da infância, racismo, Vandré e do amigo e parceiro Johnny Alf, também negro, precursor da bossa nova e pouco celebrado.

Ao lado de suas contemporâneas Dolores Duran e Maysa, Alaíde é uma das responsáveis em dar letra feminina – e não somente voz – à música brasileira. Tarefa que nunca deixou de cumprir.

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