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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 7/38

Somos ainda muito pautados pelo mercado

Matias  Hoje tenho a tranquilidade de falar “Não, não quero fazer essa pauta”, saca? Só que bem ou mal você está sendo pautado, existe, sim, um processo de escolha que vem do mercado. Eu não vou falar de um disco que descobri essa semana, a não que o Ricardo está editando a Bizz e eu fale, “Esse aqui é uma Discoteca Básica foda!”. [n.e. Seção da Bizz que tratava de discos clássicos, mais ou menos conhecidos] Normalmente não posso chegar na Rolling Stone e “Vamos falar sobre esse disco de 79 que eu escutei ontem?”. Somos ainda muito pautados pelo mercado, mas acho que isso também está mudando. É uma coisa em transição. Gosto sempre de citar o exemplo do Cansei de Ser Sexy [n.e. Banda paulistana que estourou mundialmente ao ser lançada pelo mesmo selo de bandas como Franz Ferdinand e Arctic Monkeys], não pelo fato de ter feito sucesso na internet, isso é um outro aspecto, mas pelo fato de ser uma espécie reality show. O pessoal acompanhou a formação da banda. O pessoal foi lá e viu no Tim Festival. “Que absurdo essa banda no Tim Festival.” E agora os caras estão cotados para o Tim Festival deste ano. [n.e. A entrevista foi realizada antes de se anunciar que o grupo havia sido escalado para o festival Planeta Terra]
Pedro Alexandre  E o cara que falava isso não mudou de idéia até hoje. Ele continua com o mesmo grau de intransigência. Dá vontade de falar “Dá algum valor para os meninos que alguma coisa eles conseguiram!”.
Matias  Pois é!
Ricardo Alexandre – Então, Matias, somente para fazer um colchete na sua frase. [risos] Mesmo quando a revista é pautada pelo mercado, isso pode ser o discurso dela. “Nós somos uma revista do mercado”, “Nós somos a voz do big business”, entendeu? “Só quero saber do que pode dar certo”, como cantava o Titãs. [risos] Mas a mensagem dos caras é essa: “Nós somos grandes”, “Nós somos o mainstream”.
Matias  Em cima disso: a Rolling Stone só publica resenhas de coisas lançadas no Brasil, ou seja, se saiu um disco agora, não tem como resenhá-lo porque não existe ainda no Brasil. Não existe na loja, mas qualquer um já baixou. Dali a seis meses, quando o disco for lançado, o leitor vai pegar a revista e “Agora que esses putos estão falando desse disco, quando o disco já esvaziou lá fora”. Estamos vivendo a transição entre as duas épocas. Vai chegar uma outra em que a referência do passado não existirá mais.
Ricardo Alexandre  E por outro lado as revistas gringas só falam do que sai lá. Se você pegar as resenhas do NME (New Musical Express), elas falam somente do que saiu no mercado inglês.
Matias – Sim, sim.
Pedro Alexandre  Na verdade, somos iguais nisso, então?
Matias  Não. Se falar de cinema, por exemplo, sai muito depois…
Ricardo Alexandre  Sai depois do Brasil, né?
Matias – Pois é.
Ricardo Alexandre  Pobres ingleses.
Pedro Alexandre  Essa tensão já existe no jornalismo diário. Por que você vai falar do acidente do avião hoje se todo mundo já passou o dia de ontem inteiro ouvindo falar somente disso? Sei lá, fica redundante e não tem solução.
Matias  Aí entra a história da análise, né?
Pedro Alexandre  Aí é que está. Onde foi parar a análise? Ela foi de roldão com tudo. Ela não está numa melhor situação que as outras modalidades.
Matias – Sim, com certeza.

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Jornalismo cultural
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