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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 6/38

A minha liberdade era falar mal de todo mundo

Max Eluard  Seja para a Carta Capital, para a Folha ou para a Bizz, vocês escrevem sobre o que vocês querem ou existe um direcionamento? E mesmo quando vocês escrevem sobre o que querem, o que guia vocês? É o que estão a fim de escrever ou tentam ver o que é mais importante, o que é mais urgente pra ser dito no momento sobre a música?
Pedro Alexandre  É tão complicado explicar isso. Hoje em dia, ao contrário do que pode parecer, o cardápio é muito grande. Tem mil coisas. Mil, não, tem um milhão de coisas das quais gostaria muito de escrever, mas posso escolher algumas, em geral escolho, mas não pense que isso é uma liberdade. Não é! Porque há o recorte da revista, havia o recorte da Folha; muitas vezes você se condiciona a escolher dentro do recorte que está vivendo. Eu tive muita ilusão de independência e de liberdade na Folha e quanto mais olho à distância mais eu vejo que a minha liberdade era falar mal de todo mundo. E eu fazia com prazer, não estou colocando a culpa em ninguém. Era o recorte desse jornal que concentra um enxame de abelhas ao seu redor, e por isso há um monte de características. Uma delas é o cara que está lá para ser…
Matias  Polemista.
Pedro Alexandre  É, polemista, isso. E muitas vezes vira um lixo completo… Tinha de achar o erro; não é que eu tinha, ninguém havia me pedido ou mandado fazer isso, mas eu achava o erro de letra de música do Djavan. Ele escreveu “exceção” com dois “s”, vou escrever no jornal que o Djavan é uma bosta porque escreveu “exceção” com dois “s”. Isso é o fim da picada! É o polemismo à toa; já fiz isso.
Ricardo Alexandre  Você lembra quando a gente trabalhou na Som Livre [n.e. Referindo-se à Ricardo Tacioli, de quem foi editor] que saiu aquela coletânea do Radamés Gnattali. Como chamava?
Tacioli – Arquivo?!
Ricardo Alexandre – Era uma peça dele, uma cantata. [n.e. O álbum era Radamés Gnattali, de 1976, com a “cantata umbandista” Maria de Jesus dos Anjos, e integrou a série Arquivo Sigla, lançada em 1999] E aí o Pedro colocou na Folha que os caras tinham errado a grafia de Radamés Gnattali na capa do disco. [risos]
Tacioli  Na lombada.
Ricardo Alexandre  Exatamente, na lombada. E aí o João Araújo [n.e. Na época, o diretor da gravadora] que estava (em reunião) na Som Livre/SP viu a crítica e falou “Ah! Esses jornalistas ficam procurando detalhe para sacanear a gravadora”. [risos]
Pedro Alexandre  Não deixa de ser verdade, né?
Ricardo Alexandre  Deixa, né?
Pedro Alexandre  Porque havia coisa mais interessante para falar. Em alguns momentos isso se justifica, mas não é sempre. Esse era o recorte ali. Eu estou falando de novo, ninguém nunca falou isso…
Almeida  Você que criou.
Max Eluard – É uma pressão editorial…
Pedro Alexandre  Aí é que está… Eu queria, como muitos jovens, trabalhar na Folha. Eu lia o jornal antes de chegar lá. Você se adeqüa, a sua personalidade vira a personalidade do lugar. Isso era muito forte.
Max Eluard  Isso é uma questão editorial, mas essa questão era colocada literalmente ou era uma eminência parda?
Pedro Alexandre  Não, jamais. Era clandestina como qualquer tipo caixa dois, ninguém nunca conversa sobre o caixa dois. Quem gosta de maconha e quem não gosta não fala, a não ser que esteja em um ambiente permitido.
Matias  Ou que a pauta seja essa.
Ricardo Alexandre  Olha, Pedro, se estou errado: a gente está falando de características que podem ser vistas como perniciosas, mas podem ser vistas como grandes soluções éticas. O mesmo jornal que fica procurando os erros, é o mesmo jornal que não deixa passar os erros. E isso pode ser mau ou bom, e o mesmo jornal se vende como jornal independente, mas nas internas o cara depois de dez anos começa achar que é um jornal…
Pedro Alexandre  Que havia alguma coisa que não estava encaixando. [risos]
Ricardo Alexandre  Exatamente. Aí você tem uma revista que fala “Somos uma revista que valoriza os grandes músicos e que vai finalmente dar o enfoque merecedor da arte com ‘a’ maiúsculo, e vamos deixar de fora tudo que for levemente comercial ou aparentemente pop para o grande público”. Isso é o lado bom. O lado ruim é que vai ser uma revista elitista, que vai falar pra três gatos pingados, entendeu?
Pedro Alexandre  Claro.
Ricardo Alexandre  Mas é um recorte; basicamente é o projeto conceitual e editorial da revista. Mais ou menos o leitor sabe o que é um artista Rolling Stone, ou que é um artista Bizz, ou Trabalho Sujo, e são por esses parâmetros que a gente avalia, basicamente.

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Jornalismo cultural
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