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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 5/38

O Jota Quest tem o que dizer?

Tacioli  Essa crise não seria devido à falta de uma melhor percepção das empresas, das revistas? A impressão que tenho é que todo mundo hoje em dia ouve música mais que na época do walkman…
Ricardo Alexandre  Mas é mais dispersivo também.
Matias  Mas de que empresa você está falando, gravadora de disco?
Tacioli – Não, empresa de jornalismo musical ou que lança alguma publicação ligada à música. Já que tem tanta gente ouvindo música, e esse é um público potencial para consumir informação sobre música, será que não falta um melhor diagnóstico?
Matias  Com certeza! E um certo medo de abraçar uma causa que daqui a 10 minutos pode acabar.
Pedro Alexandre  E por um outro lado caiu um avião e esse é o assunto de todas as bocas. [n.e. Referência ao acidente com o avião da TAM em Congonhas, São Paulo, que tinha acontecido uma semana antes, em julho] E as empresas estão ganhando rios de dinheiro essa semana com o acidente. Ninguém vai parar para falar de música nesses dias. Música é isso, essa coisa instável que a pessoa hoje em dia consome sem precisar pagar.
Ricardo Alexandre  As pessoas ouvem mais música, mas estar ligado a um ambiente musical é quase um sinônimo de ultra-segmentação, muito mais do que era nos anos 80, quando eu comprava, sorrindo, uma revista com o Paulo Ricardo na capa.
Matias  O que você está querendo dizer com isso?
Ricardo Alexandre – Quando você faz uma revista para agradar todo mundo, você está desagradando todo mundo, realmente. Você não está agradando todo mundo como antigamente, você está desagradando todo mundo. Um fã da Pitty vai ficar muito indignado com o Los Hermanos. E o fã do Los Hermanos vai achar um absurdo que tenha o Jota Quest na revista. Uma revista para falar com todo mundo tem de ter o Jota Quest, mas esse é o exemplo de desagradar todo mundo.
Matias  Mas, por outro lado, o fã do Jota Quest lê sobre o Jota Quest? O Jota Quest tem o que dizer?
Pedro Alexandre  O que você está dizendo é um pouco o que aconteceu numa época quando as pessoas dividiam-se entre fãs da Marlene e da Emilinha, em que havia duas revistas e as duas vendiam um monte.
Ricardo Alexandre  É isso aí.
Pedro Alexandre  E agora acabou.
Tacioli – Também haviam esses grupos, não?
Dafne – Talvez, mas não tão exclusivista. Isso me lembrou as janelas de comentários de blogs e como todo mundo agora tem uma opinião, quer expressar sua opinião e insulta se for o caso; é um pouco essa geração…
Max Eluard – E isso se reflete no jornalismo também, a opinião estar à frente da análise, da matéria…
Matias – Análise não existe mais no jornalismo.
Ricardo Alexandre  Como assim?
Matias  Quando é um acidente da TAM há uma análise, agora quando é o dia-a-dia há somente factóide.
Max Eluard – Como vocês vêem a questão da opinião em relação à informação?
Ricardo Alexandre  Espere só um pouquinho. Voltando para sua primeira pergunta, sou tão convicto dessas coisas que tenho hoje a percepção que eu fazia a revista Bizz para um nicho tão específico que era o de pessoas que tinham interesse em jornalismo musical.
Matias  Hum, hum.
Ricardo Alexandre  E não era um nicho maior que os fãs de heavy metal ou da Sandy com percepção filosófica, entendeu? Não era maior. E dificilmente você vai conseguir um nicho maior do que aquele…
Matias – Hoje, né?
Ricardo Alexandre  Hoje!
Matias  Você acha que vai ser sempre assim?
Ricardo Alexandre  Eu acho.
Matias  A gente vai assistir uma hora em que esses nichos começarem a se cruzar. E aí cria-se um outro público completamente diferente do que a gente está pensando.
Ricardo Alexandre  Quando você tem acesso às informações que ficavam na periferia, você não volta mais.
Matias  Mas esse é o fim do underground, do mainstream. Todas as informações estão disponíveis agora. O que a gente diz que é novidade hoje, para um cara que já sabe disso há dois anos fala “Pô, o cara está tirando onda dizendo que isso novo!”, porque a gente ainda está preso a um parâmetro antigo. Estou falando da gente, jornalista que escreve sobre música, que está preso a parâmetros antigos, como gênero musical, por exemplo. Por que a gente acha que o cara que gosta de Pitty não curte new metal ou gangsta rap? É bem provável que, dentro do nicho Pitty, exista outro nicho que cruze com outros, entendeu?
Dafne – Sincretismos.
Matias  Exato! A tendência é essa. A gente fala de rock clássico, de música negra, de MPB, mas a menina que consome Marisa Monte hoje também vai à rave, e não tem como fazer uma revista que fale pra ela que você quer cobrir o que acontece na música hoje. Mas vai chegar um momento, em que você terá nichos especializados, não sei como vamos chamá-los: tribos, atitudes, estilos de vida? Isso é tudo parâmetro antigo. A gente já ruminou muito isso. Eu acredito que esses nichos estão começando a se especializar e a se juntar, e é aquela história, antigamente só quem trabalhava com música tinha essa necessidade, esse gosto, de ouvir diferentes gêneros musicais. Era um ou outro entusiasta que comprava coisas fora do gênero heavy metal. Hoje você tem um cara que compra o disco novo do Max (Cavalera) com o Igor (Cavalera), à noite vai para a rave e, no dia seguinte, ouve pagode. A questão lançada pra gente é: “Como abordar esse cara?” Talvez a abordagem não seja música, e sim estilo de vida. Você vira e fala: “Grana!” Então a gente vai botar a classe AAA com música. Aí aborda-se todos os desdobramentos, de todos os gêneros musicais, sendo que pressupõe-se um consumo de alto padrão. A mesma coisa vale para as pessoas que querem saber as novidades que acabaram de acontecer. Uma revista MySpace hoje afundaria, mas imagine que o MySpace fique. Faz sentido daqui a dois, três anos pensar em uma revista MySpace. E o que é isso? É um filtro, um catálogo que traz um monte de informações para saber quais as bandas que subiram no MySpace na última semana.
Ricardo Alexandre  O Trabalho Sujo já é um filtro do cara, porque ele vai pagar 10 reais pra isso?
Matias  Pra folhear.
Ricardo Alexandre  Você acha que faz sentido?
Max Eluard – Há o fetiche da matéria, do papel?
Matias  Com certeza! O aspecto tátil é essencial.
Ricardo Alexandre  Eu sei, Matias, mas vai ser um nicho não maior que aquele de pessoas interessadas, obcecadas por informações de jornalismo musical. É um nicho pequeno e sempre vai ser.
Alexandre Matias  O Gafieiras é isso! O Gafieiras já faz isso. Ele tem uma coisa meio “Somos um site de música brasileira” e quando você entra parece que é MPB, mas quando você entra ali tem uma entrevista sobre isso e aquilo. E é questão de tempo pro pessoal falar “Oh! Peraí, se o Gafieiras lançasse uma revista talvez eu comprasse”, porque tem um corte. E esse corte é musical? Não, esse corte é por textos extensos, entrevistas extensas…
Max Eluard – Esse recorte está muito mais na forma do que no conteúdo. Pelo conteúdo, o objetivo do Gafieiras é ver a música no horizonte, sem eleger um estilo melhor que outro…
Matias  Mas de qualquer jeito você escolhe.
Max Eluard – Sim, lógico, mesmo que a gente trabalhe 200 anos sem parar, você escolhe, esse primeiro depois aquele…
Ricardo Alexandre  Você percebe que é um nicho também, de pessoas que gostam de ler sobre música brasileira, em entrevistas grandes, com foto preto-e-branco…
Almeida  Mas é diferente do recorte de gênero ou de faixa etária.
Ricardo Alexandre  Sim, sim. Mas era o caso da Bizz.
Pedro Alexandre  Tem um caso que a gente não citou que é o da marca. A Rolling Stone não é o sucesso, se é que é, sem a marca.
Matias  Claro, sem dúvida!
Pedro Alexandre  Não é pelo gênero, pelo assunto do qual ela fala ou pela capa. A capa é um corte, porque todo mundo quer falar da capa, falar mal da capa, discordar da capa e não-sei-o-quê, mas se não tivesse aquele nome, daquele jeito ali em cima, não seria a mesma história.
Tacioli – Se você for trabalhar com nicho, ele existe hoje, já amanhã ninguém sabe, pode ser outro. Se o veículo trabalhar baseado nisso, ou ele acompanha essa mudança ou não há uma construção de marca…
Ricardo Alexandre  Mas de qualquer maneira a marca empresta uma percepção de conteúdo, ou de glamour, ou de direcionamento ou o que quiser que seja. Várias pesquisas sobre a marca Bizz diziam que era uma coisa roqueira, anos 80 e para tiozinho. Vai explicar que não, que somos muito mais abertos, elegantes e “prafrentex”.
Pedro Alexandre  No caso estou falando marca como corporação pesada mesmo, sabe, de marketing por trás, de toda parafernália. Nem sei, estou falando de cabeça, de orelhada, mas por que no momento em que tudo está indo para trás, chega uma revista chamada Rolling Stone e vira uma coqueluxezinha? É contra a correnteza; não era para aparecer uma revista. Eram para as revistas diminuírem, se é como a gente está entendendo. Diminuindo digo de tamanho, como a gente está falando dos nichos, cada uma vendendo um pouquinho. Ela chega e engole tudo, né?
Ricardo Alexandre  Não deixa de ser um nicho também. A Rolling Stone é uma revista grande. Fico feliz com o seu patamar confortável de venda, mas é do tamanho da Mundo Estranho.
Matias  Hum, hum.
Pedro Alexandre  Isso porque é o momento da descoberta.
Matias  Mas a Mundo Estranho é uma revista sobre o quê?
Ricardo Alexandre  Sobre curiosidades para molecada.
Matias  Pois é, saca? Não é uma revista de ciência.
Ricardo Alexandre  Ah, não! Mas o corte comportamental dela representa um corte de qualquer maneira, voltando ao que a gente estava falando dos nichos…
Pedro Alexandre  O que falamos o tempo todo é que ficou muito difícil definir os cortes. Qual é a revista dos nossos sonhos? Vamos fazer, eu e você? Como ela vai ser? A gente começa a ter divergência a partir daí. Os nichos são as coisas que eu gosto no mundo e as coisas que eu gosto no mundo não têm lógica…
Ricardo Alexandre  A intersecção, a intersecção…
Pedro Alexandre  Gosto da Tati Quebra-Barraco e gosto do Jorge Ben…
Matias  Você e o público.
Pedro Alexandre  Eu e alguns.
Matias  E o público também!
Pedro Alexandre  É! Estou falando porque o jornalista também é um público, só que antes ele se encaixava, ele se encaixava na revista tal que tinha a ver com… E a gente faz isso ainda.
Matias  Mais do que isso. Antigamente havia um cara especializado em metal, outro que só fazia matéria sobre hip-hop e aí vai.
Pedro Alexandre  Sou conhecido como um cara que fala de MPB. Eu não sou isso, sou bastante isso, mas…

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Jornalismo cultural
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