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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 4/38

Os artistas sempre decepcionam a gente

[Chega o último entrevistado, Alexandre Matias]

Ricardo Alexandre  E também tem outra: a gente precisa dimensionar o Brasil dentro dessa… [Cumprimenta Alexandre Matias] E aí, tudo bem?
Alexandre Matias  Papo sério meu, que é isso?
Ricardo Alexandre  Agora que a gente ia conseguir…
Tacioli – Agora que engatou…
Matias  Porra! Desengata, cara, começa de novo.
Ricardo Alexandre  Pensa bem, a maior revista da Europa, que é a Q [n.e. Revista de música criada na Inglaterra em 1986], vende 180 mil (exemplares). O dia em que Superinteressante vender 180 mil está todo mundo na rua; é muito pouco! E é a maior revista da Europa. Quando a gente está falando de grande sucesso editorial, a gente está falando da Rolling Stone que vende…
Matias  50 mil.
Ricardo Alexandre  Não, lá fora, no mundo. Que vende 1 milhão, 1 milhão e meio. E ainda assim o maior sucesso da editora da Rolling Stone é a Entertainment Weekly, que é bem maior que a Rolling Stone. Agora tente transportar essa dimensão para o Brasil, um país com índice de leitura…
Max Eluard – Menor que o da Argentina.
Ricardo Alexandre  É, não queria chegar a esse termo de humilhação [risos], mas é menor que o da Argentina. O Brasil é um país onde o mercado fonográfico é incapaz de gerar ídolos com alguma coisa palpitante a dizer, onde a amabilidade entre os artistas é regra, onde não existe a polêmica saudável. Transporte isso e veja que a gente está bem vendendo dez, oito, sete, cinco, quatro mil; está maravilhoso! A gente estava citando sua entrevista no Digestivo… Quando havia menos pontos de intersecção no mundo, as pessoas confluíam pra ele porque só existia ele no mundo, então as coisas eram maiores não porque eram mais necessárias, mas porque elas eram as únicas. Se existe sentido ainda uma revista em papel? Acho que sim, devem existir quatro ou cinco mil pessoas que comprariam uma revista de papel. Eu talvez fosse uma delas, mas acho que todo negócio em volta dela deveria ser estruturado para isso (para essa baixa venda). Mas não faz mais sentido uma revista do que faz o Gafieiras, ou que faz o Trabalho Sujo [n.e. Site de Alexandre Matias], ou sei lá, o programa do Mauricio Valadares na Oi. [n.e. O radialista, produtor e fotógrafo Mauricio Valladares apresenta o programa Ronca Ronca na rádio carioca Oi FM]
Pedro Alexandre  O enxame de abelhas continua ao redor dos antigos pontos de confluência de consumidor. Todo mundo quer sair na Folha, na Veja, nesses lugares marcados. Eles continuam fazendo sentido, mas o Gafieiras tem mais peso, mais importância; em um momento atrás não existia Gafieiras, mas o enxame de abelhas estava todo lá. Têm menos pessoas que freqüentam essas nossas coisas malucas e feitas na raça. O problema é esse, não passa pela vendagem mais, não é disso que a gente sobrevive. Daí a grande pergunta: o que fazer? Eu preciso do enxame de abelhas para sobreviver, mas isso não é o mais legal de fazer.
Matias  Se o mercado está todo em transição, o público também está em transição. Então, a gente não pode menosprezar que o público deve estar perdido também. Muitas vezes o cara vai à banca e vê o tanto de revista que existe, ele se pergunta por onde começar. É uma questão de tempo. Acredito que a revista ainda vai ter seu papel, mas a gente está passando por essa transição.
Ricardo Alexandre  Você acha que essa perdição vai ter um fim? As pessoas vão se achar? [risos] Tudo vai continuar caótico e talvez cada vez mais caótico.
Matias  Sim, mas hoje a gente tem o conflito entre as duas coisas.
Ricardo Alexandre  Sim, tá…
Matias  Uma hora em que todo mundo sabe o que é um blog, que o cara que escreve no jornal também pode dar sua opinião em sua página pessoal e que isso não é uma coisa absurda, quando as pessoas da nossa geração para trás morrerem… [risos]
Dafne  Chegamos onde queríamos.
Pedro Alexandre  A mesma coisa com relação aos artistas: esses precisam morrer para alguém se tornar combativo, para um artista querer discutir com o outro, porque isso não existe.
Ricardo Alexandre  Vou dizer uma coisa que o André Forastieri falou uma vez e que está na minha Caminho suave do jornalismo musical [n.e. Referência a uma famosa cartilha de alfabetização criada pela educadora Branca Alves de Lima em meados do século 20]: “Os artistas sempre decepcionam a gente”. Sempre, cara!
Pedro Alexandre  Talvez essa seja uma de suas funções.
Ricardo Alexandre  Eu lembro de Chico Science & Nação Zumbi… Sabe o quanto a nossa geração fez pelos caras para darem entrevista à Globo dizendo que foi o Gilberto Gil quem os descobriu?
Matias  Los Hermanos, que era a grande banda do momento internet e do Brasil, que assinou com uma grande gravadora e tipo “foda-se!”. Na hora em que a (gravadora) Abril fechou, todo mundo ficou na expectativa: “Será que os caras vão continuar independentes mesmo?!”. “Não, vamos ficar na BMG que é mais tranquilo pra gente.”
Ricardo Alexandre  Sendo meio “poliana moça”, costumo pensar que os artistas têm parâmetros de avaliação muito mais subjetivos e sofisticados e emotivos…
Pedro Alexandre  Você está querendo dizer que eles pensam em dinheiro? [risos] Gente, isso é evidente e a gente precisa enxergar isso.
Matias  Mas do mesmo jeito que o público está mudando, os artistas também estão mudando.
Pedro Alexandre  Alexandre, somente para concluir. Vamos pensar: por que o Lulu Santos está fazendo o que ele está fazendo, seja lá o que for? Porque chegou à conclusão que precisa fazer isso para ganhar dinheiro. E ele tem um discurso montado para defender o que faz. Como você está dizendo, tudo está em transição, ninguém sabe mais como ganhar dinheiro.

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Jornalismo cultural
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