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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 37/38

O RPM seria muito menor se surgisse seis meses antes

Tacioli – Mas ainda com relação à Folha, esse caráter jovem também se reflete nos textos. Nem sempre essa oxigenação traz textos airados, quando você fala “Que belo texto! Que novo olhar!”. Não existe necessariamente uma maturidade de reflexão; se o Pedro ainda estivesse lá, passado por tudo o que passou, talvez trouxesse mais conteúdo do que um moleque. Será que não?
Ricardo Alexandre – Sim, mas digo que o inverso disso também é verdadeiro. A permanência das pessoas também é indiscriminada. É o perfil do cara que fica. Há todas as demissões e o cara que fica. Não necessariamente ele é o melhor. Ele pode, inclusive, ser o melhor, mas é o cara que fica…
Matias – É o bonzinho.
Ricardo Alexandre – Exatamente, é o bonzinho. Mas, via de regra, as pessoas mais irrequietas mudam.
Pedro Alexandre – Concordo com você, está na mão muito mais da gente do que do patrão.
Ricardo Alexandre – Geralmente o que eu vejo, sem citar nomes [risos], é que os velhos jornalistas realmente… Deus me livre e guarde!
Tacioli – Dos velhos jornalistas, independentemente da área de atuação, têm alguns para os quais vocês tiram o chapéu?
Matias – Saindo de música indo para o cinema, o Inácio Araújo é foda. Um cara que tem um negócio do caralho que é um tijolinho todo dia na Folha comentando um filme na TV a cabo. É um haikai. Agora, para aquela micro-pensata não vão dar meia página para ele desenvolver melhor aquele assunto, mas tem essa coisa do que vai passar hoje, qual o show da semana, qual o disco que acabou de ser lançado… E a gente tem essas alternativas que são a Piauí e a Rolling Stone – essa menos porque tem o compromisso com os lançamentos – tentando se aprofundarem um pouco mais.
Tacioli – O NoMínimo era um desses exemplos? [n.e. Referência ao site de artigos, análises, entrevistas e reportagens mantido até o primeiro semestre de 2007 por figuras como Zuenir Ventura, Tutty Vasques, Ricardo Kotscho, Daniel Galera, etc.]
Matias – Era, tinha essas características, de “Vou ler um texto grande!”. Ou como o Gafieiras.
Dafne – E a Brasileiros vocês viram?
Matias – Não, não li.
Pedro Alexandre – Tem uns temas arrojados, mas a concretização nem tanto, mas não sei falar ainda, não. A matéria principal é na linha Piauí, Rolling Stone, começa a fazer uma coisa que ninguém estava fazendo, e aí vamos ver no que dá. É possível que tenha uma trajetória parecida com a da Bizz, porque coloca negro na capa com o preconceito sendo o tema principal, todo mundo pula pela janela… Mas seremos escravagistas para o resto da eternidade?
Ricardo Alexandre – Tenho uma coisa clara pra mim, que é uma decepção para todo mundo que entrevisto, principalmente sobre música, de que o sucesso ou o fracasso estão muito longe dos domínios de quem produz a arte ou a informação, o jornal ou a revista. Tem 100% a ver com o que as pessoas esperam. O RPM seria muito menor e mais irrelevante se tivesse surgido seis meses antes ou um ano depois. O sucesso ou o fracasso da Rolling Stone ou a Bizz não têm nada a ver com o produto em si. É claro que…
Matias – Ajuda.
Ricardo Alexandre – É claro que há uma inteligência capaz de captar e de estar antenado com as demandas e as aspirações do público, mas uma revista com textos enormes… Vai explicar isso para os caras que faziam o Pasquim em 68. [n.e. A célebre revista tocada por figuras como Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Henfil, Paulo Francis, Jaguar, Ivan Lessa, etc.]
Pedro Alexandre  Mas o segredo é que eles não estavam nem aí para o que estavam fazendo.
Matias – Mas no geral é isso, a história das grandes publicações, pelo menos falando mais de música, são revistas em que uma galera se juntou e “Vamos falar do que ninguém está falando?!”. A Rolling Stone (norte-americana) foi assim, a Details foi assim, que começaram como revistas independentes que falavam “Tem um monte de coisa acontecendo e não lemos isso em nenhuma publicação”. Claro que existiram outras publicações que começaram com o mesmo intuito e que deram errado, porque tem a ver com o que o Ricardo falou.
Ricardo Alexandre – E para dar um arremate nesta história: o que transforma essas revistas em grandes sucessos ou fracassos é o quanto elas conseguem centralizar a aspiração das pessoas. E me parece que as revistas centralizavam muito mais do que centralizam hoje. Hoje, a multiplicidade de pensamentos, de aspirações, de demandas está completamente pulverizada. Isso não é bom ou ruim em si, mas é um fato.
Pedro Alexandre – Acho curioso como a Rolling Stone (brasileira) centraliza (as aspirações) em torno da capa. Ninguém está preparado para ler aquelas materionas, mas todo mundo discute a capa, porque uma merecia e a outra, não, que é um absurdo a Ivete Sangalo estar na capa [n.e. Edição 3, dezembro 2006], mas não se fala dessa revista. Só se fala da capa dessa revista. Eles vão arcar com isso daqui a pouco. Eles não têm orgulho disso também, mas tem algo errado na medida em que somente a capa está chamando atenção. Ao mesmo tempo é interessante, porque tem de ter a Ivete Sangalo na capa de uma revista brasileira. É nisso que os gringos são diferentes da gente, eles respeitam a Britney a ponto de colocá-la na capa. A população norte-americana não vai falar que é um absurdo – talvez até fale, eu não acompanho tanto assim –, mas não é uma coisa para combate. Eu já provoquei o Quinho: enquanto a Banda Calypso não for para a capa da Rolling Stone brasileira, desculpa, não existe Rolling Stone brasileira.
Max Eluard  Mas quem se indigna com isso é a mesma parcela da população que não quer discutir o racismo no país.
Pedro Alexandre – É, mas é quem está promovendo o sucesso da revista. Não sei até onde isso se sustenta, porque “O que estava escrito mesmo nas matérias?”. A matéria que fiz foi muito polêmica, todo mundo xingou, mas xingou o quê? Xingou o fato de ter uma matéria sobre o Cansei de Ser Sexy em toda a edição, mas não o seu conteúdo. É uma coisa superficial. Nessas ocasiões, a gente só discute a casca.
Ricardo Alexandre – Mas de qualquer maneira se discute alguma coisa; esse frisson em torno de quem vai ser a capa da Rolling Stone é super saudável. “Caetano Veloso nu na capa da Rolling Stone!” [n.e. Referência ao boato que circulou que a capa da edição 11, agosto 2007, traria Caetano nu]
Tacioli – A expectativa que existia em relação à chegada de um disco foi para a capa da Rolling Stone.
Matias – Mas o ponto que o Pedro está falando é “E daqui a dois anos?”.
Pedro Alexandre – Agora, já! O Homer Simpson não causou barulho porque foi para a capa da Rolling Stone? [n.e. Edição 10, julho 2007] Isso vai cansar rapidinho.

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Jornalismo cultural
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