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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 36/38

Tinha de editar a Bizz antes dos 30 anos

Tacioli – Bom, estamos encerrando…
Pedro Alexandre – Eu queria falar uma coisa antes e estava esperando um momento…
Ricardo Alexandre – Você quer que eu faça uma pergunta para não parecer que foi muito deliberada?
Pedro Alexandre – Não me lembro da parte, mas vou morrer assim, essa é a minha “cauda longa”: sou um cara formado pela cultura Folha, onde virei jornalista e gente grande, tenho inclusive o maior orgulho disso, mas dentro dessa cultura na qual fui formado, jornalista é igual a jogador de futebol e à modelo e manequim. A gente é perecível. Você tem um tempo útil; se você ficou mais gordinho ou se as formas estão mais arredondadas, você sai. Tanto é que essa era uma das questões que eu tinha. Vi muitos amigos meus, muita gente querida sendo demitida da Folha, um após o outro, um após o outro, e eu sempre falava: “Vou me achar bem-sucedido se eu conseguir sair da Folha antes que isso aconteça comigo”. Foi um projeto, não foi por querer. Havia horas em que esquecia disso, mas tudo casou dentro da história Roberto Carlos quando falei “Agora é a hora!”. Só que aí a sua vida vira outra. Você vai ser outro tipo de jornalista, porque aquela cultura acaba. Tem cinco exemplos de caras com mais de 40 anos que estão lá e são exceções. De algum jeito, é uma escola de jornalismo que a gente cultua muito, com razões, mas ela é completamente fútil e vazia no sentido de “Se a Gisele Bünchen ficar gorda, ficou velha, enrrugada, cortem a cabeça! Se o Ronaldinho não está chutando direito, cortem a cabeça!”. É legal porque o Estado (de São Paulo) não faz isso.
Matias – O Jotabê (Medeiros) está lá desde o tempo do PAS.
Pedro Alexandre – Isso também tem as suas desvantagens…
Ricardo Alexandre – Isso é que eu ia falar, mas de alguma maneira isso não pressupõe uma acomodação?
Matias – A Folha faz isso para pressupor essa oxigenada.
Pedro Alexandre – Mas o jornal se oxigena, se é que se oxigena, e os caras vão sendo largados pelo caminho.
Ricardo Alexandre – Mas não é um pouco a função do cara se reinventar?
Matias – Humn, humn.
Pedro Alexandre – É o que eu tento fazer, sei lá com que grau de sucesso, tudo bem, aí a gente vai entrar em questões humanitárias, mas o tanto de pessoas que se deprimem no processo, que perdem a mão… Eu vi essas coisas acontecerem. E não é o papel do dono do jornal se preocupar com isso, o papel é do próprio jornalismo. Agora, isso é feito indiscriminadamente, assim como o Ronaldinho e as modelos já foram chutados pra fora, a gente também é. O fato dos mais novos que não queriam entrar na redação da Folha por essa ou aquela razão acaba sendo saudável. É a maquininha de moer, vamos fazer outra história, vamos escrever na internet, sei lá o quê.
Ricardo Alexandre – Quando comecei a escrever eu pensava que tinha de editar a Bizz antes de fazer 30 anos, porque achava que depois dos 30 estaria muito obsoleto. Confesso que estou um pouco obsoleto… [risos]
Pedro Alexandre – Aí é que está: essa idéia é vendida pra gente. Estamos muito melhor hoje.
Ricardo Alexandre – Exatamente, mas não me vejo fazendo a mesma coisa que eu fazia quando estava no Caderno 2, indo em coletiva, entendeu? Entretanto, preciso de pessoas que tenham esse mesmo pique de fazer as coisas. Eu me vejo fazendo outras coisas, muitas vezes emprestando o que aprendi para quem tem vontade de ir à coletiva. Mas é um pouco do cara se reinventar mesmo. A minha grande preocupação é que esta obsolescência dos jornalistas não é feita com nenhum tipo de rigor pelo produto jornalístico. É indiscriminado.
Matias – Mas isso que você está falando é muito Folha. Na Abril tem um monte de gente que está há muito tempo.

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Jornalismo cultural
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