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Entrevistas de música brasileira

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

Alexandre Matias (e.), Ricardo Alexandre e Pedro Alexandre Sanches. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Matias, Ricardo Alexandre e PAS

parte 35/38

Que porra é essa de biografia autorizada?

Ricardo Alexandre – Dá um copo pra mim, Dafne, por favor? Isso é água ou aguardente?
Dafne – Isso é água, aquilo é aguardente.
Ricardo Alexandre – Eu queria água mesmo.
Max Eluard – Parece que somos o país da biografia oficial. Se o cara fala sobre um tema, ele vira dono daquele tema e ninguém comenta nada.
Pedro Alexandre – Na mídia se fala muito isso: “Agora, o fato do Roberto Carlos ter proibido o livro vai inibir a criação de novas biografias!”. Gente, vamos escrever biografias! Vamos pagar pra ver. Porque com aquilo ele está normatizando. O Gilberto Gil está sendo um censor; ele se posicionou a favor (do Roberto Carlos). Por quê? Porque o Tom Cardoso está escrevendo uma biografia sobre ele. O Tom Cardoso não vai lançar porque o Gilberto Gil não vai deixar? Como um Ministro da Cultura fala isso? Todo mundo mete o pau no governo o tempo todo e ninguém enxergou isso. A censura vai ser legitimada? Não, mas o foco está errado ao esperar isso do Roberto Carlos. Ele é um senhor que está pra lá de Bagdá, e não vamos convencê-lo a ter a nossa cabeça. Mas nós escrevendo biografias que possam ser proibidas depois, estaremos dando a cara a tapa, caso contrário, compactuaremos com a situação.
Matias – Mas sobre essa história de ser o país da biografia oficial tem a ver com o gente-bonismo, todo mundo é legal, ninguém fala mal de ninguém, todo mundo aparece no meu disco…
Pedro Alexandre – No caso do Roberto Carlos é autoritarismo, é dizer “Não escreve, não!”. O Nelson Motta ficou não sei quantos anos colhendo as assinaturas de todos os herdeiros do Tim Maia para ter a certeza de que isso não vai acontecer com ele. E só conseguiu porque ele é o Nelson Motta. Se eu fosse fazer isso, não conseguiria. Que porra é essa de biografia autorizada, né? Não tem cabimento!
Ricardo Alexandre – E você sabe se ele vai submeter o livro à família?
Pedro Alexandre – Li em algum lugar que ele tem as autorizações dos herdeiros, agora se ele já tem as assinaturas, por que vai submeter o livro?
Tacioli – Vocês acham que, de uns anos para cá, o número de publicações sobre música brasileira aumentou?
Todos – Sim, sem dúvida.
Matias – No meu tempo havia três livros. Da Ana Maria Bahiana, do Nelson Motta e…
Ricardo Alexandre – E outro do Nelson Motta. [risos]
Tacioli – E do Tinhorão.
Ricardo Alexandre – Que devia estar fora de catálogo.
Matias – Quando o Chega de saudade apareceu aí cresceu o filão e um monte de gente começou a escrever. [n.e. Livro de Ruy Castro, lançado em 1990, sobre a bossa nova]
Ricardo Alexandre – E com o Noites tropicais foi o boom de publicações de música no Brasil.
Matias – E você tinha o Almir Chediak. Bem ou mal, seus songbooks eram uma publicação de música…
Ricardo Alexandre – Eram eventos mais do que livros.
Matias – Sim, mas antigamente você ia na livraria, havia três ou quatro livros na seção de música.
Tacioli – A série da Editora 34. [n.e. De livros como Choro  Do quintal ao Municipal, Jackson do Pandeiro  O rei do ritmo e Mário Reis  O fino do samba]
Matias – Patrocinada pelo Pão de Açúcar, né?
Pedro Alexandre – E tem tudo isso, sempre tem de ser patrocinado, somente emplaca o que tiver essas assinaturas. Um dia a Petrobras patrocina tudo… É outra terra arrasada a dos livros.

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Jornalismo cultural
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